Uma noite em 67
Luciano Portela
 
 

Certas vezes me pego a pensar sobre a produção cultural de nosso país. Obviamente, não me vêm a mente com força produções atuais, já que, no Brasil a cultura não é o foco principal por mais que tenham incentivos. Falemos de música, hoje teríamos alguns artistas cujo meu interesse seria aguçado; falemos de teatro, ficamos no cânone José Celso Martinez; falemos de cinema ficcional, onde a discussão pode se prolongar um pouco mais, já que a nova safra de diretores é forte e criativa: Walter Salles, José Padilha, Fernando Meireles, etc.

Mas, como falar de cinema-documentário? Certo, podemos começar com uma pequena obra que, a princípio passou despercebida pelo público. O título só chama atenção dos conhecedores; sim, meus amigos, é ele: Uma Noite em 67, com direção de Renato Terra e Ricardo Calil, o documentário traça um panorama histórico do festival de música organizado no Teatro Paramount no dia 21 de Outubro de 1967. Um trabalho documental com a consultoria de Zuza Homem de Melo, que eu considero o único homem que fez um trabalho histórico da nossa música popular, ela que vivia exatamente neste período e festival as suas mais profundas transformações e mudanças: da vivência do samba com Chico Buarque que canta Roda Viva junto com o grupo MPB-4 ao estilo moderno de Caetano Veloso, que canta a música Alegria, Alegria incorporando temas da Pop Art, com o grupo argentino de rock introduzindo por questões políticas a controversa guitarra elétrica. O mesmo feito por Gilberto Gil, que canta a música Domingo no Parque com o grupo Os Mutantes. De fundo, Roberto Carlos aparece cantando um samba chamado Maria, Carnaval e Cinzas, que não causa tanto impacto.

Um dos pontos altos também é o do cantor Sérgio Ricardo que, enfurecido, quebra o seu violão em rede nacional.

Como documentário, o filme Uma Noite em 67 ajuda a entender o que foi a nossa música, qual o seu impacto - não só aqui, mas no mundo - e, acima de tudo, a consciência política de cada obra. Também nos mostra o outro lado dos festivais, qual a relação de cada um com ele, uma experiência única. Ser músico nessa época era muito mais que fazer simples arranjos ou canções com letra agradáveis: ser músico era como ser poeta. Que, como diria o trecho da música de Edu Lobo, Ponteio (a grande vencedora da noite),"Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar!"


UMA NOITE EM 67 (Idem, Brasil, 2010)

Direção: Renato Terra e Ricardo Calil.