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Renato Terra e Ricardo Calil são os responsáveis por
cunharem um novo diamante brasileiro em celuloide. O
documentário desses cineastas, Uma noite em 67 (2010),
filme de abertura do Festival "É Tudo Verdade", neste
ano, possui o raro poder de um documentário ideal: ser
plural e bom, ao mesmo tempo.
O cenário-enredo desta obra é a noite da final do III
Festival de Música Popular Brasileira da TV Record,
e o recorte narrativo nesse cenário são as principais
músicas finalistas e os seus representantes nos bastidores
e no palco: Ponteio (Edu Lobo), Domingo no
Parque (Gilberto Gil e Os Mutantes), Roda Viva
(Chico Buarque e MPB4), Alegria, Alegria (Caetano
Veloso), Maria, Carnaval e Cinzas (Roberto Carlos)
e Beto Bom de Bola (Sérgio Ricardo - que vaiado
incessantemente, quebra o violão, e o arremessa contra
o público).
Terra e Calil dispensam o didatismo e a espécie de documentário
jornalístico, desdenham da objetividade diegética inserindo
algumas das perguntas feitas aos artistas no presente,
e desconstroem a imagem da star, quando não cortam
as opiniões que denotam o medo, a vergonha da velhice,
as paranoias, os vícios, as mágoas e frustrações desses
artistas-ícones para a nossa música.
Uma noite em 67 (que não se detém no caminho
das brigas político-ideológicas que pululavam nos anos
1960) desconstrói o mito dos "mocinhos cantores" e mostra
a genialidade, a insegurança, e o amor pela música daqueles
jovens que naqueles anos de ditadura, incomodaram -
e muito - os censores e assessores do regime militar.
O longa-metragem ainda delineia o caminho pelo qual
se enveredou a música brasileira daqueles anos, até
cair na semente do que seria o Tropicalismo; e também
a rejeição (ideológica, tida como esquerdista naquela
época) da guitarra elétrica, o que provocou, inclusive,
uma passeata com o tema Abaixo a Guitarra!.
Com um raro material televisivo conseguido dos arquivos
da Rede Record, e entrevistas aos próprios artistas
participantes daquela final de Festival e a pessoas
que estavam ligados a eles ou ao evento, os cineastas
conseguem emocionar o espectador. Como podem perceber,
não há estripulias narrativas. Trata-se de um documentário
simples - formalmente falando - mas de uma fluidez perfeita,
editado e filmado de modo a dar gosto de ver. O modo
escolhido para narrar a história daquela noite em 67,
é muitíssimo bem executado, e o tema é explorado em
todos os seus aspectos, dando até mais do que promete.
Por isso, o filme parece acabar cedo demais. Ao fim
da última cena, com todos os artistas no palco, e Edu
Lobo recebendo os aplausos pela música premiada da noite,
Ponteio, o espectador não consegue segurar um
suspiro de satisfação e alegria (e, para os mais velhos,
de nostalgia) por ter pago o ingresso para ver uma obra
tão maravilhosamente executada.
Uma noite em 67 é um filme obrigatório para os
que querem saber o que há de melhor em nosso cinema
contemporâneo, especialmente em nosso gênero documental,
e o que houve de melhor, há alguns anos, na história
de nosso país, no tocante a realizações artísticas.
Essa visão, no entanto, passa longe da reificação ou
de uma exaltação gratuita e sem propósito tanto do período,
quanto das personagens que estiveram nesse histórico
III Festival de Música Popular Brasileira.
Um filme para se ver, aplaudir, e rever.
UMA NOITE EM 67 (Idem, Brasil, 2010)
Direção: Renato Terra e Ricardo Calil.
Cotação: *****
*Artigo originalmente postado no dia 30
de Julho de 2010 no blog "Cinebulição"
(http://www.cinebuli.blogspot.com)
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