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OS
INIMIGOS DO ESTADO
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Adriano
de Oliveira
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Em 2007, "Tropa de Elite" se transformou num
fenômeno popular por ser uma síntese sócio-policialesca
perfeita de seu tempo (falamos na época: "o filme certo
no momento certo"), com a propriedade de causar imediata
identificação do espectador com a sede de justiça perpetrada
pelo seu icônico protagonista, Capitão Nascimento (Wagner
Moura), numa espécie de catarse.
Três anos depois, os seus temas são expandidos, ora modificados
e por fim dissecados em diferentes estratos na obra "Tropa
de Elite 2 - O Inimigo Agora É Outro" (2010), a qual
faz jus ao subtítulo que ostenta. Nascimento - no princípio,
Capitão e mais adiante, Coronel - sai da linha de frente
do comando em sua unidade do BOPE (Batalhão de Operações
Especiais da Polícia do Rio de Janeiro) após uma ação
desastrada de um de seus subordinados (justamente o seu
homem de confiança, André Matias (André Ramiro) na tentativa
de conter um motim de presos com grande periculosidade
na Penitenciária de Alta Segurança Bangu 1. Ao invés de
ser execrado, curiosamente Nascimento é promovido - tudo
para agradar a opinião pública - e passa a despachar de
dentro do alto escalão da Secretaria de Segurança fluminense.
Lá ele se permite a melhor aparelhar a máquina acional
do BOPE, mas vê surgir um novo opositor da paz e da justiça:
se o tráfico de entorpecentes era o inimigo de outrora,
os milicianos que invadiram as favelas para impor uma
paz postiça e criar suas próprias regras de subversão
são os monstros da vez, com o adicional de constituírem
tentáculos de redutos eleitorais a políticos oportunistas.
Não bastasse esse problema "externo", o personagem vivido
com desenvoltura e imensa coerência por Wagner Moura enfrenta
um tormento "interno", uma dor de cabeça familiar que
é uma das boas surpresas do filme, disparadora de conflitos
dramáticos que prendem ainda mais a atenção do público.
Se as cenas de ação permanecem vinculando um filme a outro
em termos de quantidade e qualidade, a montagem e o trabalho
de câmera continuam ágeis quando isso é preciso e muitos
personagens coexistem entre eles, esta segunda película
guarda diferença importante em relação à anterior ao adotar
um viés mais cerebral, com tons políticos. Modificações
no colóquio também ocorrem. Os enfrentamentos verbais
são fartos e os bordões de cair no gosto popular se mostram
em menor número do que anteriormente e mais chulos. Aliás,
a quantidade de palavrões aqui, sobretudo na primeira
metade da fita, é assombrosa, lembrando caso idêntico
em "A Hora Marcada" (2001) e são tantos que involuntariamente
recordam os quadros típicos do extinto programa da MTV
"Hermes & Renato" - cujos protagonistas depois
migraram para uma similar atração de TV
em sinal aberto VHF e agora são "bem-comportados verbalmente".
Destaca-se o elenco de "Tropa de Elite 2". Além
do já citado Moura e sua excelência cênica, o seu antagonista
Fraga, interpretado por um espetacular Irandhir Santos,
e o temível Russo vivido por um vigoroso Sandro Rocha
constituem um trio de atuações de nível bastante superior.
Também contribui bem o habitual ladrão-de-cenas Milhem
Cortaz como o incorrigível policial Fábio. Já André Ramiro
não consegue o mesmo belo desempenho do primeiro filme,
embora o seu personagem André carregue consigo uma história
fundamental numa das sub-tramas do roteiro do segundo.
Aliás, este texto, assinado por Bráulio Mantovani e pelo
diretor José Padilha, se manifesta excelente, com pouquíssimos
deslizes e primando por desenvoltura e grande capacidade
de contundência.
A Padilha cabe um trabalho de direção bastante eficiente,
mesmo com algumas ressalvas. Há um deselegante pulo de
foco (compartilhado com o operador de câmera) em uma cena
envolvendo a personagem Rosane (Maria Ribeiro) numa discussão
doméstica. A opção - dividida com o montador e o roteiro
- de deixar aquela que deveria ser a última sequência
como a penúltima, parece uma decisão equivocada: perdeu-se
o impacto de um crescendo maravilhoso que representava
uma ideia bem desenvolvida ao longo de grande parte do
filme para se findar a história com um plano que, apesar
de esperançoso e metafórico, remete àquele que encerra
"Avatar" (2009). O diretor já havia mostrado que
não esconde referências quando concluiu o primeiro "Tropa..."
imitando um plano-chave de "Sobre Meninos e Lobos"
(2003).
Apesar disso, os méritos da obra são inegáveis, pois além
de oferecer entretenimento qualificado, se municia de
profuso material de reflexão acerca de quem podem ser
os verdadeiros inimigos do Estado. Um filme que tem o
poder de se transformar em objeto de debate de nossa realidade
é algo venerável.
TROPA DE ELITE 2 - O INIMIGO AGORA É OUTRO (Brasil,
2010)
Direção: José Padilha.
Elenco principal: Wagner Moura, Irandhir Santos,
André Ramiro, Sandro Rocha, Milhem Cortaz, André Mattos,
Maria Ribeiro, Seu Jorge, Tainá Müller, Pedro Van Held.
Cotação: **** |
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