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TRIAGEM
DA TROPA
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Adriano
de Oliveira
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"Tropa de Elite", o celeuma, está acima de "Tropa
de Elite", o filme. Não que a película seja ruim,
inclusive muito pelo contrário. O detalhe é que tem se
falado mais de aspectos relacionados a temas do filme,
como o uso de tortura e de força exagerada por parte da
polícia (no caso, o BOPE - Batalhão de Operações
Policiais Especiais - do Rio de Janeiro) na repressão
ao crime - em particular, aos traficantes de drogas -,
do que da qualidade da obra em si, transformando-a num
fenômeno midiático de debate social, político e institucional,
resultando por deixar a abordagem fílmica em si num plano
bastante posterior.
Não quero aqui discutir o que muitos vêm fazendo Brasil
afora: analisar se "Tropa..." é um filme fascista
ou não. Parece-me uma conversação tão inconclusiva quanto
avaliar por certo prisma o trabalho prévio de seu diretor
José Padilha, o documentário "Ônibus 174": para
uns, humanista; a outros, marxista. "Tendencioso", falaram
alguns; "isento", contrapõem vozes. Em suma, a palavra
"polêmica" volta a carimbar a prole cinematográfica de
Padilha.
Pretendo, sim, levantar alguns tópicos sobre a fita ela-mesma.
"Tropa de Elite", não fosse alvo da comoção causada
pelo momento em que vivemos - um país mergulhado num conflito
causado por motivos sócio-econômicos eclodindo em violência
por todos os cantos -, deveria sobretudo ser visto como
o bom filme de ação em que consiste. Reforce-se tal com
as atuações notáveis de seu elenco: Wagner Moura brilhante
como o protagonista Capitão Nascimento; a revelação André
Ramiro, excelente como Matias (roubando o filme para si,
ao construir o personagem mais interessante da história
narrada - bastam ver as nuances que ele apresenta ao longo
da projeção); o sempre competente Milhem Cortaz no papel
do Capitão Fábio...e estes são apenas alguns exemplos.
Junte então tudo isso em um roteiro coeso, lembrando respeitosa
e vagamente referências como "Dia de Treinamento"
e "Nascido para Matar".
As qualidades da fotografia (Lula Carvalho) e da montagem
(André Rezende, da ainda insuperável obra-prima nacional
"Cidade de Deus", esta uns patamares acima de "Tropa...")
são deveras elogiáveis. A direção de Padilha se apresenta
eficiente, com boas tomadas e uma fluência cinematográfica
surpreendente para quem havia feito antes um engessado
"Ônibus 174", à beira do tosco em tal sentido.
O desembarque do cineasta na ficção espanta positivamente.
Assim, apenas se lamenta que na emblemática cena final
lhe falte um pouco de criatividade para não imitar deliberadamente
uma passagem de "Sobre Meninos e Lobos" envolvendo
os personagens de Sean Penn e Tim Robbins. A bela criação
visual de Clint Eastwood é, em tal ocasião, copiada, e
déjà-vu em Cinema nunca fica muito bem-vindo.
Curioso é como por vezes a Sétima Arte faz coro à vida
real, ao seu tempo. E "Tropa de Elite" está em
sintonia com o momento presente no Brasil, fato de onde
emerge sua eloqüência às massas. O filme certo no momento
certo, que conseguiu suplantar a barreira de ser um action-movie
qualificado, e na carona traz consigo material para refletir.
Só que ele não está desacompanhado ao dizer do uso de
violência para aplacar violência e de mostrar a ineficiência
e/ou a corrupção nas instituições policiais, o que resume
a guerra urbana não somente no Brasil, mas em qualquer
lugar do mundo onde haja crime em larga escala. Em uma
alarmante tendência vista recentemente no cinema mundial,
outros filmes falam de temática similar, espelhando tais
problemas e sugerindo que se trata de um fato a ultrapassar
nossas fronteiras nacionais. Algo internacionalmente sintomático,
portanto.
O estupendo francês "36" (com os ótimos Daniel
Auteuil e Gerard Depardieu), já disponível em DVD, traz
a questão da frustração policial no combate a uma gangue
de agressivos assaltantes, a qual somente se mostra comparável
à uma outra ferrenha luta: a de egos, nunca honesta, dentro
do alto escalão da polícia parisiense. "Death Sentence",
película americana ainda sem título em nosso país nem
data de estréia, traz Kevin Bacon como um adepto do "vigilantismo"
como meio de vingança. E em breve, teremos em "telas brasilis",
Jodie Foster estrelando "Valente": uma versão de
saias para "Desejo de Matar", que popularizou Charles
Bronson e seu papel do arquiteto/justiceiro Paul Kersey,
na época (década de 70 do século passado) uma resposta
via écran à impunidade do crime nas ruas nova-iorquinas.
Sinal dos tempos, e que tempos...Mas isso já é outra questão,
indo além deste artigo.
TROPA DE ELITE (2007)
Direção: José Padilha.
Elenco: Wagner Moura, Caio Junqueira, Milhem Cortaz,
André Ramiro, Fernanda Machado, Maria Ribeiro, Fábio Lago.
COTAÇÃO: ****
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