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Os documentários têm feito sucesso no cinema brasileiro
ultimamente; uma das razões para tal febre por este
tipo de produção é o papel e o apelo social que estes
normalmente conseguem alcançar, aliados à boa receptividade
e à empatia do público: "Justiça", por exemplo,
trata muito bem, e com alguma dose de humor, o sistema
de processos e imbróglios judiciais existentes no sistema
penal brasileiro, que precisa conviver com a burocracia
do serviço público para se julgarem os casos (alguns
hilários, até patéticos!). "O Prisioneiro da Grade
de Ferro" expõe as mazelas do sistema carcerário
no país, sabidamente problemáticos e nitroglicerínicos
, e "Edifício Master" talvez seja o caso de maior
sucesso, em que Eduardo Coutinho, com uma câmera na
mão, vai entrevistar, um por um, os moradores deste
condomínio, trabalho este que resultou em um produto
excelente, vibrante e intenso, com a marca da heterogeneidade
dos personagens, moradores comuns do prédio. Há outros
inúmeros exemplos de documentários bem-feitos e bem-sucedidos,
cito apenas estes para ilustrar este bom viés referencial
e mote do cinema nacional neste tipo de filme.
Seguindo as bases desta linha de produção, o diretor
e documentarista João Jardim realizou recentemente um
impressionante e vívido documentário sobre a educação
brasileira atual em "Pro dia nascer feliz". No
seu filme, que está atualmente fazendo parte de um projeto
intitulado "Escola no Cinema" (assisti-lo com toda aquela
"zoeira" de pré-adolescentes à volta, como eu tive que
assistir, é uma experiência que traz da tela para a
sala de projeção a essência do que está em debate no
filme, é como se fosse a projeção de uma sala de "aula"
da telona para a sala de cinema), Jardim entrevista
alunos e professores de várias escolas, tanto as públicas
das periferias carioca e paulista, quanto colégios de
classe média alta de um bairro nobre de São Paulo, e
o que se assiste é um verdadeiro mapa de como está difícil
a educação no Brasil, cada vez mais: alunos desafiando
professores, estes estressados e no limite das suas
forças para exercer a arte (?) nobre da docência, e
a total falta de entendimento entre eles, professores,
nos seus conselhos de classe deliberando sobre conceitos
e comportamentos discentes.
O caos está instalado há muito tempo no sistema pedagógico
brasileiro, isto não é novidade para ninguém, mas o
que Jardim expõe no seu curioso documentário, também
o que mais chama a atenção nele, é a diversidade, a
diferença: está difícil para o professor hoje lidar
com os seus alunos, sejam eles de classes mais baixas,
menos favorecidas e que enfrentam os já sabidos e tristes
problemas da marginalidade e das drogas (leia-se aqui,
a realidade do ensino público), mas também no ensino
nas escolas particulares: embora o aluno de classe média
e alta tenha um melhor nível cultural que o aluno pobre,
isto não é condição suficiente para que ele tenha o
respeito e a admiração do professor. Por outro lado,
há alunos bastante conscientes nas escolas da periferia,
assim como "cabeças-ocas" nos colégios caros. Os depoimentos
de Ronaldo, 16 anos, aluno com boa capacidade argumentativa
de uma escola pública paulista, que quer ser padre por
convicção, entrar para o seminário e estudar filosofia,
e Maísa, também 16 anos, aluna de um tradicional colégio
de São Paulo, com um espírito crítico bem legal, mostram
um pouco da exceção àquilo que devia ser quase uma regra:
ao se ouvir eles falarem, aí sim se percebe que, no
fundo, talvez valha a pena abraçar esta profissão, este
ofício tão nobre como é a docência no ensino fundamental
e médio.
Também o depoimento da Professora Celsa, de uma escola
da periferia, é bastante curioso e esclarecedor - ao
falar sobre suas faltas ao trabalho, ela justifica-se,
dizendo que é necessário faltar e que o professor precisa
deste recurso como válvula de escape, pois o seu trabalho
é estressante e consome o profissional, que se envolve
inclusive com as vidas pessoais dos alunos e os seus
problemas, encampando-os, sendo o desgaste muito grande.
Sim, a professora Celsa tem razão quanto à isso, sem
dúvida, mas não releva a ausência na sala de aula do
professor que deve estar lá, é pago para isso (muito
mal, mas essa é uma outra conversa, aliás, complexa!),
e não pode deixar os seus alunos na mão. A consciência
tem que existir dos dois lados, do professor e do aluno,
pois a situação se mostra delicada e difícil para ambos
nesta conjuntura.
Este documentário torna à baila muita coisa, muita conversa
pode ser extraída daqui; quero apenas citar neste contexto,
au passant, uma idéia que deve perpassar este
cenário todo, que está no construtivismo de Jean Piaget,
e o seu ideal e modelo de escola perfeita, uma autêntica
"escola do futuro": o que seria isto, detalhadamente,
é muito complexo para se tratar aqui, envolve muito
debate acerca de teorias e métodos pedagógicos, mas
nossos educadores estão debruçados há tempo com isso.
Algo precisa ser feito, e urgente. A pesquisa acadêmica
em Educação tem que sair do seu "intra-muros" universitário,
deixar as masmorras acadêmicas, e ir à escola, lá é
que o bicho tá pegando; a coisa vai mal mesmo, esse
documentário deve ser visto para despertar esta consciência,
e não apenas no professor, mas especialmente no aluno.
O construtivismo piagetiano apregoa uma interrelação
transcendental entre aluno e professor, uma quebra do
modelo tradicional e falido, do professor que finge
que ensina, e do aluno que finge que aprende, daí emergindo
esta absoluta falta de comunicação e entendimento entre
ambos. Idealmente, o aluno também deve ensinar, e o
professor aprender, mas ainda estamos distantes, mas
muito distantes disso na prática.
Há alunos com excelente potencial, fato mal explorado
(o filme de Jardim também destaca isto), assim como
professores ainda mal preparados; enfim, a sensação
é de que está tudo aí, o material, humano, teórico,
etc, o que falta é organizar esse caos todo em que a
nossa educação está metida. No que tange ao papel crítico
e trasformador que o cinema-documentário deve ter, "Pro
dia nascer feliz" o cumpriu, e muito: expôs na carne
os problemas, mas, se não apresenta soluções, pelo menos
dá um alento de que as coisas podem, afinal, sendo-se
otimista, melhorar, para os dois lados. Tem que poder
melhorar mesmo, pois ser professor ainda representa
um ideal, o de bem interagir com os alunos, e queremos,
todos juntos, construir uma sociedade mais justa e evoluída.
Se não for assim, então o melhor mesmo é botar a viola
no saco e se acabarem tais sonhos. E isto nós não desejamos.
Mas enquanto houver esperança, estamos aí para, pelo
menos tentar construir uma educação melhor, e esboçar
um modelo mínimo de escola para o futuro, que desconstrua
esse modelo falido, ultrapassado e ortodoxo de ensino
que se encontra aí, fazer o que Piaget sonhou. Nesse
processo todo, o cinema, como instrumento crítico, de
análise e reflexão, não apenas pode, como deve, ser
usado, seja no nível do documentário, ou não. Só assim
estaremos contribuindo de alguma forma para uma educação
de verdade. Precisamos disso rapidamente, não dá mais
para esperar. Aristóteles disse: "A educação tem
raízes amargas, mas os seus frutos são doces", e
Kant arrematou: "É no problema da educação que assenta
o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade ".
PRO DIA NASCER FELIZ (2006)
Direção: João Jardim.
COTAÇÃO: ****
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