A DURA REALIDADE DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA
Ricardo Rangel
 
 

Os documentários têm feito sucesso no cinema brasileiro ultimamente; uma das razões para tal febre por este tipo de produção é o papel e o apelo social que estes normalmente conseguem alcançar, aliados à boa receptividade e à empatia do público: "Justiça", por exemplo, trata muito bem, e com alguma dose de humor, o sistema de processos e imbróglios judiciais existentes no sistema penal brasileiro, que precisa conviver com a burocracia do serviço público para se julgarem os casos (alguns hilários, até patéticos!). "O Prisioneiro da Grade de Ferro" expõe as mazelas do sistema carcerário no país, sabidamente problemáticos e nitroglicerínicos , e "Edifício Master" talvez seja o caso de maior sucesso, em que Eduardo Coutinho, com uma câmera na mão, vai entrevistar, um por um, os moradores deste condomínio, trabalho este que resultou em um produto excelente, vibrante e intenso, com a marca da heterogeneidade dos personagens, moradores comuns do prédio. Há outros inúmeros exemplos de documentários bem-feitos e bem-sucedidos, cito apenas estes para ilustrar este bom viés referencial e mote do cinema nacional neste tipo de filme.

Seguindo as bases desta linha de produção, o diretor e documentarista João Jardim realizou recentemente um impressionante e vívido documentário sobre a educação brasileira atual em "Pro dia nascer feliz". No seu filme, que está atualmente fazendo parte de um projeto intitulado "Escola no Cinema" (assisti-lo com toda aquela "zoeira" de pré-adolescentes à volta, como eu tive que assistir, é uma experiência que traz da tela para a sala de projeção a essência do que está em debate no filme, é como se fosse a projeção de uma sala de "aula" da telona para a sala de cinema), Jardim entrevista alunos e professores de várias escolas, tanto as públicas das periferias carioca e paulista, quanto colégios de classe média alta de um bairro nobre de São Paulo, e o que se assiste é um verdadeiro mapa de como está difícil a educação no Brasil, cada vez mais: alunos desafiando professores, estes estressados e no limite das suas forças para exercer a arte (?) nobre da docência, e a total falta de entendimento entre eles, professores, nos seus conselhos de classe deliberando sobre conceitos e comportamentos discentes.

O caos está instalado há muito tempo no sistema pedagógico brasileiro, isto não é novidade para ninguém, mas o que Jardim expõe no seu curioso documentário, também o que mais chama a atenção nele, é a diversidade, a diferença: está difícil para o professor hoje lidar com os seus alunos, sejam eles de classes mais baixas, menos favorecidas e que enfrentam os já sabidos e tristes problemas da marginalidade e das drogas (leia-se aqui, a realidade do ensino público), mas também no ensino nas escolas particulares: embora o aluno de classe média e alta tenha um melhor nível cultural que o aluno pobre, isto não é condição suficiente para que ele tenha o respeito e a admiração do professor. Por outro lado, há alunos bastante conscientes nas escolas da periferia, assim como "cabeças-ocas" nos colégios caros. Os depoimentos de Ronaldo, 16 anos, aluno com boa capacidade argumentativa de uma escola pública paulista, que quer ser padre por convicção, entrar para o seminário e estudar filosofia, e Maísa, também 16 anos, aluna de um tradicional colégio de São Paulo, com um espírito crítico bem legal, mostram um pouco da exceção àquilo que devia ser quase uma regra: ao se ouvir eles falarem, aí sim se percebe que, no fundo, talvez valha a pena abraçar esta profissão, este ofício tão nobre como é a docência no ensino fundamental e médio.

Também o depoimento da Professora Celsa, de uma escola da periferia, é bastante curioso e esclarecedor - ao falar sobre suas faltas ao trabalho, ela justifica-se, dizendo que é necessário faltar e que o professor precisa deste recurso como válvula de escape, pois o seu trabalho é estressante e consome o profissional, que se envolve inclusive com as vidas pessoais dos alunos e os seus problemas, encampando-os, sendo o desgaste muito grande. Sim, a professora Celsa tem razão quanto à isso, sem dúvida, mas não releva a ausência na sala de aula do professor que deve estar lá, é pago para isso (muito mal, mas essa é uma outra conversa, aliás, complexa!), e não pode deixar os seus alunos na mão. A consciência tem que existir dos dois lados, do professor e do aluno, pois a situação se mostra delicada e difícil para ambos nesta conjuntura.

Este documentário torna à baila muita coisa, muita conversa pode ser extraída daqui; quero apenas citar neste contexto, au passant, uma idéia que deve perpassar este cenário todo, que está no construtivismo de Jean Piaget, e o seu ideal e modelo de escola perfeita, uma autêntica "escola do futuro": o que seria isto, detalhadamente, é muito complexo para se tratar aqui, envolve muito debate acerca de teorias e métodos pedagógicos, mas nossos educadores estão debruçados há tempo com isso. Algo precisa ser feito, e urgente. A pesquisa acadêmica em Educação tem que sair do seu "intra-muros" universitário, deixar as masmorras acadêmicas, e ir à escola, lá é que o bicho tá pegando; a coisa vai mal mesmo, esse documentário deve ser visto para despertar esta consciência, e não apenas no professor, mas especialmente no aluno. O construtivismo piagetiano apregoa uma interrelação transcendental entre aluno e professor, uma quebra do modelo tradicional e falido, do professor que finge que ensina, e do aluno que finge que aprende, daí emergindo esta absoluta falta de comunicação e entendimento entre ambos. Idealmente, o aluno também deve ensinar, e o professor aprender, mas ainda estamos distantes, mas muito distantes disso na prática.

Há alunos com excelente potencial, fato mal explorado (o filme de Jardim também destaca isto), assim como professores ainda mal preparados; enfim, a sensação é de que está tudo aí, o material, humano, teórico, etc, o que falta é organizar esse caos todo em que a nossa educação está metida. No que tange ao papel crítico e trasformador que o cinema-documentário deve ter, "Pro dia nascer feliz" o cumpriu, e muito: expôs na carne os problemas, mas, se não apresenta soluções, pelo menos dá um alento de que as coisas podem, afinal, sendo-se otimista, melhorar, para os dois lados. Tem que poder melhorar mesmo, pois ser professor ainda representa um ideal, o de bem interagir com os alunos, e queremos, todos juntos, construir uma sociedade mais justa e evoluída. Se não for assim, então o melhor mesmo é botar a viola no saco e se acabarem tais sonhos. E isto nós não desejamos.

Mas enquanto houver esperança, estamos aí para, pelo menos tentar construir uma educação melhor, e esboçar um modelo mínimo de escola para o futuro, que desconstrua esse modelo falido, ultrapassado e ortodoxo de ensino que se encontra aí, fazer o que Piaget sonhou. Nesse processo todo, o cinema, como instrumento crítico, de análise e reflexão, não apenas pode, como deve, ser usado, seja no nível do documentário, ou não. Só assim estaremos contribuindo de alguma forma para uma educação de verdade. Precisamos disso rapidamente, não dá mais para esperar. Aristóteles disse: "A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces", e Kant arrematou: "É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade ".

PRO DIA NASCER FELIZ (2006)

Direção: João Jardim.

COTAÇÃO: ****