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"O Outro Lado da Rua" é um filme hibridizado em gêneros,
transitando entre o drama, o policial, o suspense e
o romance. Independente de como possa ele ser classificado,
tem um grande mérito, que é abordar, com rara sutileza,
temas caros à terceira idade: a solidão na grande cidade,
a falta de ocupação e as perspectivas pós-aposentadoria,
a redescoberta do amor naquela etapa da vida.
Fernanda Montenegro mais uma vez brilha numa grande
atuação. Ela interpreta Regina, mulher que se recusa
a admitir a vida de aposentada e trabalha voluntariamente
como informante da polícia. Seu codinome é Branca de
Neve (será uma escolha casual ou estará psicanaliticamente
escondida nele a sua aspiração de ser "acordada
por um príncipe encantado"?). Um dia, ao hitchcockianamente
observar por binóculos um vizinho (Raul Cortez) do prédio
defronte ao seu, presencia um suposto crime. A denúncia
é investigada imediatamente pela polícia, e a seguir,
incomprovada. Regina não se conforma em ter perdido
sua credibilidade como informante, e passa a seguir
o suspeito que ela delatara. A investigação particular
fará com que suas vidas se cruzem de modo marcante.
Raul Cortez faz uma paridade extraordinária à grandeza
representacional de Fernanda Montenegro, de modo que
a dupla magnetiza a platéia quando dividem a cena. Como
complemento, Laura Cardoso mostra ser boa coadjuvante
em sua limitada participação. O roteiro enxuto é um
dos pontos altos da produção, juntamente com a fotografia
competente de Toca Seabra e a trilha sonora envolvente
e fluida de Gabriel Bernstein Seixas, marcante no piano
e ornada de orquestra de cordas.
Nem é preciso abordar os vários prêmios ganhos no
exterior (Toulouse, "Panorama" de Berlim, Tribeca -
melhor atriz) para valorizar "O Outro Lado da Rua".
Ele representa com nobreza a excelente fase que o cinema
nacional está atravessando. Longa vida a esse período.
O OUTRO LADO DA RUA (2004)
Direção: Marcos Bernstein.
Elenco: Fernanda Monenegro, Raul Cortez, Laura
Cardoso, Luiz Carlos Persy.
COTAÇÃO: ****
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