A PEDRA E AS LARANJAS
Adriano de Oliveira
 
 

"Noite de São João", do diretor gaúcho Sérgio Silva, adapta o texto "Senhorita Júlia" do sueco Strindberg para o Pampa. O elemento típico do Realismo permanece o mesmo, tem caráter universal, sendo aqui emoldurado pelo contexto pampeano: na noite da festa junina de São João, a chegada de Júlia (Fernanda Rodrigues), filha do fazendeiro, ao local em que seus empregados confraternizam provoca uma incontestável tensão, que deságua em uma relação de poder e amor aparentemente platônico entre a jovem e o capataz da fazenda, João (Marcelo Serrado). A extensa diferença sócio-cultural que os separa é metaforicamente bem ilustrada na cena mais memorável da película, um diálogo entre os personagens centrais à beira da fogueira, onde narram seus estranhos sonhos - o da jovem que não consegue descer da alta pedra em que se encontra, e o do empregado que não alcança as laranjas douradas de uma frondosamente elevada árvore.

O realizador Silva sabe o enquadramento necessário para retratar esse drama psicológico. À exceção da primeira cena e alguns outros poucos planos, o horizonte sempre se acha fechado, em um tom claustrofóbico. Nas palavras do diretor, "não há horizonte para os personagens". No meio desse clima tenso, duas personagens coadjuvantes diametralmente opostas se destacam: a oprimida cozinheira Joana (Dira Paes) - verdadeiro amor de João - e a avó da "senhorita Júlia", Joaquina (Araci Esteves), personagem modernizante do filme e que, com seu jeito desbocado, dá toques cômicos.

As locações, que inicialmente seriam em uma fazenda na cidade de Rio Grande, tiveram de ser mudadas para um rancho atrás do autódromo de Tarumã, em Viamão, porque a opção inicial se revelou inviável - a fazenda rio-grandina vivia alagada com as chuvas. Após três semanas de pré-produção, a rodagem consumiu quatro semanas e meia, com gravações das 17 horas até as cinco da manhã. Depois, foram cinco semanas de montagem, procedendo a seguir, a finalização do som (aliás, de boa qualidade) no Rio Grande do Sul e transcrição final no Rio de Janeiro em Dolby Digital 5.1.

Fazer um filme é algo dispendioso: "Noite..." custou 2,8 milhões de reais. Foram necessários dois anos para a captação de recursos, ainda não finalizada. Sérgio Silva se mostra muito consciente da realidade financeira no mercado cinematográfico: "o filme é um produto e precisa ser vendido". Ele sabe que a arte e o comércio podem caminhar juntos, como boa parte da indústria norte-americana já provou, e de sua admirável coragem vem a força de fazer por conta as poucas cópias (cinco) do filme e distribui-lo de forma independente. Enfrentando o "desafio do segundo filme" que atormenta a todo o cineasta, principalmente após o sucesso de seu primeiro longa "Anahy de Las Misiones" (1997), Silva nos traz um produto de qualidade, capaz de captar a atenção da platéia, mesmo aqui sem dispor da beleza do espaço aberto do horizonte do Pampa que caracterizou sua primeira fita. A força de "Noite de São João" está no clima, no diálogo e às vezes, até no silêncio.

Confira agora uma entrevista exclusiva com o diretor do filme para o Cine Revista.

NOITE DE SÃO JOÃO (2003)

Direção: Sérgio Silva.

Elenco: Fernanda Rodrigues, Marcelo Serrado, Dira Paes, Araci Esteves.

COTAÇÃO: ****