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Adaptar uma obra literária para o cinema é uma tarefa,
no mais das vezes, complexa e hercúlea, e quando se
trata de um clássico da literatura mundial, aí o desafio
é ainda maior, independente do produto final ser ou
não muito fiel assim ao original. O diretor Heitor Dhalia
resolveu encarar esse desafio, e a sua idéia era bastante
ambiciosa e até original dentro do contexto do cinema
nacional: escrever um roteiro e fazer um filme baseado
na obra monumental "Crime e Castigo", do escritor russo
Fiodor Dostoiewski, a qual trata da degradação e do
drama existencial de Raskolnikóv, um estudante pobre
habitante do submundo da São Petersburgo do Século XIX
que divide as pessoas em duas categorias: os indivíduos
ordinários e os extraordinários. Os ordinários são,
na concepção que Dostoiewski passa na sua obra, as pessoas
comuns, que possuem uma existência que segue o curso
normal da vida, são indivíduos que não irão transformar
o mundo num lugar melhor ou pior do que ele já é. Já
os extraordinários, não: esses são seres diferenciados,
que farão história de alguma forma, e irão necessariamente
mudar o mundo - é nessa categoria, precisamente, que
se encontra Raskolnikóv.
A adaptação de Dhalia consiste em trazer para a São
Paulo dos dias de hoje a história de Dostoiewski, tendo
uma personagem feminina como protagonista, no lugar
de Raskolnikóv (é bem verdade que Dhalia não pretendeu
fazer uma adaptação de "Crime e Castigo", mas inspirou-se
livremente na obra e no gênio de Dostoiewski para criar
a sua história). O filme "Nina", resultado desse projeto,
culminou em um belo e interessante exercício intelectual,
sendo que cinematograficamente é algo ímpar no cinema
nacional, tanto em termos de narrativa, da exploração
psicológica de um personagem que se degrada inapelavelmente
ao longo da projeção, quanto dos quesitos técnicos,
que são excelentes, como a fotografia, por exemplo,
só para citar um.
Assistir "Nina" é uma experiência visual
e onírica como poucas vezes um filme nacional proporciona:
com uma estética diferenciada e uma direção de arte
que prima pelo preciosismo, os traços que aparecem na
tela são uma espécie de ode aos quadrinhos e aos mangás
japoneses, assim como aos cenários sombrios expressionistas:
essa estética visual visa contrastar o estado psicológico
de Nina, uma garota de sensibilidade aguçada e mente
fragilizada que vive em um universo underground de noitadas
regadas a sexo e drogas, fuga esta do seu universo particular,
em seu mundo próprio, onde é hostilizada e humilhada
por Dona Eulália (Myriam Muniz), uma velha senhora da
qual aluga um quarto de pensão. Com visíveis elementos
do expressionismo alemão ancorados em uma perspectiva
surrealista, a existência de Nina é atormentada por
delírios seus entre uma indistinção entre a fantasia
e a realidade, entre o permitido e o proibido ("Nada
é verdade, tudo é permitido", já dizia William
Borroughs em "The Naked Lunch". Aliás, há muita
semelhanças de "Nina" com os delírios psicodélicos do
William Lee dedetizador de insetos de "Mistérios e Paixões",
filme de David Cronenberg baseado no livro do velho
Old Bull Lee de "On the Road", de Jack
Kerouac). A atriz Guta Stresser (a Bebel do televisivo
"A Grande Família") interpreta Nina de forma visceral
e intensa, o que é um diferencial para o filme, pois
o seu personagem é onipresente, aparece praticamente
em todas as cenas, e a sua atuação é decisiva para o
sucesso de tal empreendimento: em entrevista, a atriz
conta que teve que construir, juntamente com Heitor
Dhalia, a personalidade de Nina, processo esse complexo
e trabalhoso, que exigiu um mergulho na personagem,
que é extremamente profunda e sensível.
Nina vive em um quarto de pensão alugado, e não tem
dinheiro para pagar o aluguel: a velha Eulália, sabendo
da sua situação, com direito a requintes de sadismo,
a maltrata, cobra o aluguel atrasado constantemente,
não a deixa comer dentro de casa, é uma presença constante
que incomoda e atormenta a pobre menina, que busca refúgio
na rua: festas, drogas e delírios lisérgicos são alternados
por uma paixão que a moça nutre, que são os quadrinhos,
bem como uma habilidade sua para desenhar e retratar
essa sua existência atormentada; essa é a sua válvula
de escape, o seu inferno interior é figurado pelos traços
imagéticos de retratos surreais. Os seus amigos, amantes
e transeuntes que encontra pelo caminho são todos personagens
bizarros, marginalizados, que vivem à margem da sociedade
e estão buscando o seu lugar nesse submundo sombrio:
junkies, vagabundos, prostitutas, um universo
beat underground revisitado, e muito bem, pela
sétima arte.
Um ponto muito interessante a ser destacado, dentre
vários a que o filme propõe, é uma questão de natureza
ética, que fica bastante acentuada pela própria natureza
de Nina: mesmo passando muita necessidade, privações
e humilhações, ela não abre mão de valores essenciais
para o ser humano, como a compaixão (quando, por exemplo,
dá todo o dinheiro que conseguiu "ilegalmente" para
a prostituta vivida por Renata Sorrah, que estava sendo
espancada e prestes a ser violentada por um taxista
grosseiro), a negação em se prostituir por influência
da sua amiga Alice (Luiza Mariani), em que prefere passar
fome a vender seu corpo, e até uma certa complacência
com Dona Eulália, pois a senhora a maltrata tanto, que
Nina, por sua natureza profunda e sensível, tolera isso
até certo ponto, até onde a sua mente já não sabe mais
o que é realidade do que é ficção (uma curiosidade:
Nina é a protagonista do filme, claro, interpretada
pela Guta Stresser, e Dona Eulália, vivida pela atriz
e professora de interpretação teatral Myriam Muniz,
é dita a antagonista da história: só por aqui dá para
se ter uma dimensão do que o conflito entre as duas
representa - conflito, aliás, interno de Nina, dentro
da sua mente). Sua conduta é moralmente aceita, salvo
em algumas situações específicas que poderiam se justificar
os seus atos pelas necessidades que passa, especialmente
financeira, mas ela age prudentemente nesses casos e
a sua conduta, do ponto de vista ético, é inabalável
(à exceção com seu comportamento para com o cego interpretado
por Wagner Moura, mas é justificada depois a sua ação
condenável por uma do tipo moral, uma boa ação). Falando
nisso, ela até ajuda uma velhinha a atravessar a rua,
à margem da penúria em que vive. A amiga Sofia (Sabrina
Greve) também é uma personagem bastante curiosa, pois
alimenta uma paixão por Nina, e parece ser, no fundo,
a única pessoa que se importa realmente com ela, demonstrando
o seu amor de forma cândida e pura, derramando lágrimas
verdadeiras pelo seu objeto de desejo e de admiração.
"Nina" é um filme imperdível, que consegue
reunir toda essa beleza estilística com recursos de
qualidade, uma grande narrativa, um excelente roteiro,
ótimas atuações e bela fotografia. Ainda conta também
com uma direção de arte e um clima underground
perfeito que retrata e reflete a natureza sombria dos
personagens, onde o preto-e-branco faz um papel fundamental
para a caracterização dessa estética, que busca contrapor
o vazio niilista dos indivíduos ordinários com a profundidade
que reside na dialética apolínea e dionisíaca dos seres
extraordinários, categoria esta em que se encontra Nina,
que certamente deve gostar muito de ler Nietzsche, e
que está para além do bem e do mal. Impossível não se
identificar.
NINA (2002)
Direção: Heitor Dhalia.
Elenco: Guta Stresser, Myriam Muniz, Sabrina
Greve, Selton Mello, Wagner Moura, Matheus Nachtergaele,
Luiza Mariani, Juliana Galdino, Guilherme Weber, Renata
Sorrah.
COTAÇÃO: *****
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