UNDERGROUND NA VEIA
Ricardo Rangel
 
 

Adaptar uma obra literária para o cinema é uma tarefa, no mais das vezes, complexa e hercúlea, e quando se trata de um clássico da literatura mundial, aí o desafio é ainda maior, independente do produto final ser ou não muito fiel assim ao original. O diretor Heitor Dhalia resolveu encarar esse desafio, e a sua idéia era bastante ambiciosa e até original dentro do contexto do cinema nacional: escrever um roteiro e fazer um filme baseado na obra monumental "Crime e Castigo", do escritor russo Fiodor Dostoiewski, a qual trata da degradação e do drama existencial de Raskolnikóv, um estudante pobre habitante do submundo da São Petersburgo do Século XIX que divide as pessoas em duas categorias: os indivíduos ordinários e os extraordinários. Os ordinários são, na concepção que Dostoiewski passa na sua obra, as pessoas comuns, que possuem uma existência que segue o curso normal da vida, são indivíduos que não irão transformar o mundo num lugar melhor ou pior do que ele já é. Já os extraordinários, não: esses são seres diferenciados, que farão história de alguma forma, e irão necessariamente mudar o mundo - é nessa categoria, precisamente, que se encontra Raskolnikóv.

A adaptação de Dhalia consiste em trazer para a São Paulo dos dias de hoje a história de Dostoiewski, tendo uma personagem feminina como protagonista, no lugar de Raskolnikóv (é bem verdade que Dhalia não pretendeu fazer uma adaptação de "Crime e Castigo", mas inspirou-se livremente na obra e no gênio de Dostoiewski para criar a sua história). O filme "Nina", resultado desse projeto, culminou em um belo e interessante exercício intelectual, sendo que cinematograficamente é algo ímpar no cinema nacional, tanto em termos de narrativa, da exploração psicológica de um personagem que se degrada inapelavelmente ao longo da projeção, quanto dos quesitos técnicos, que são excelentes, como a fotografia, por exemplo, só para citar um.

Assistir "Nina" é uma experiência visual e onírica como poucas vezes um filme nacional proporciona: com uma estética diferenciada e uma direção de arte que prima pelo preciosismo, os traços que aparecem na tela são uma espécie de ode aos quadrinhos e aos mangás japoneses, assim como aos cenários sombrios expressionistas: essa estética visual visa contrastar o estado psicológico de Nina, uma garota de sensibilidade aguçada e mente fragilizada que vive em um universo underground de noitadas regadas a sexo e drogas, fuga esta do seu universo particular, em seu mundo próprio, onde é hostilizada e humilhada por Dona Eulália (Myriam Muniz), uma velha senhora da qual aluga um quarto de pensão. Com visíveis elementos do expressionismo alemão ancorados em uma perspectiva surrealista, a existência de Nina é atormentada por delírios seus entre uma indistinção entre a fantasia e a realidade, entre o permitido e o proibido ("Nada é verdade, tudo é permitido", já dizia William Borroughs em "The Naked Lunch". Aliás, há muita semelhanças de "Nina" com os delírios psicodélicos do William Lee dedetizador de insetos de "Mistérios e Paixões", filme de David Cronenberg baseado no livro do velho Old Bull Lee de "On the Road", de Jack Kerouac). A atriz Guta Stresser (a Bebel do televisivo "A Grande Família") interpreta Nina de forma visceral e intensa, o que é um diferencial para o filme, pois o seu personagem é onipresente, aparece praticamente em todas as cenas, e a sua atuação é decisiva para o sucesso de tal empreendimento: em entrevista, a atriz conta que teve que construir, juntamente com Heitor Dhalia, a personalidade de Nina, processo esse complexo e trabalhoso, que exigiu um mergulho na personagem, que é extremamente profunda e sensível.

Nina vive em um quarto de pensão alugado, e não tem dinheiro para pagar o aluguel: a velha Eulália, sabendo da sua situação, com direito a requintes de sadismo, a maltrata, cobra o aluguel atrasado constantemente, não a deixa comer dentro de casa, é uma presença constante que incomoda e atormenta a pobre menina, que busca refúgio na rua: festas, drogas e delírios lisérgicos são alternados por uma paixão que a moça nutre, que são os quadrinhos, bem como uma habilidade sua para desenhar e retratar essa sua existência atormentada; essa é a sua válvula de escape, o seu inferno interior é figurado pelos traços imagéticos de retratos surreais. Os seus amigos, amantes e transeuntes que encontra pelo caminho são todos personagens bizarros, marginalizados, que vivem à margem da sociedade e estão buscando o seu lugar nesse submundo sombrio: junkies, vagabundos, prostitutas, um universo beat underground revisitado, e muito bem, pela sétima arte.

Um ponto muito interessante a ser destacado, dentre vários a que o filme propõe, é uma questão de natureza ética, que fica bastante acentuada pela própria natureza de Nina: mesmo passando muita necessidade, privações e humilhações, ela não abre mão de valores essenciais para o ser humano, como a compaixão (quando, por exemplo, dá todo o dinheiro que conseguiu "ilegalmente" para a prostituta vivida por Renata Sorrah, que estava sendo espancada e prestes a ser violentada por um taxista grosseiro), a negação em se prostituir por influência da sua amiga Alice (Luiza Mariani), em que prefere passar fome a vender seu corpo, e até uma certa complacência com Dona Eulália, pois a senhora a maltrata tanto, que Nina, por sua natureza profunda e sensível, tolera isso até certo ponto, até onde a sua mente já não sabe mais o que é realidade do que é ficção (uma curiosidade: Nina é a protagonista do filme, claro, interpretada pela Guta Stresser, e Dona Eulália, vivida pela atriz e professora de interpretação teatral Myriam Muniz, é dita a antagonista da história: só por aqui dá para se ter uma dimensão do que o conflito entre as duas representa - conflito, aliás, interno de Nina, dentro da sua mente). Sua conduta é moralmente aceita, salvo em algumas situações específicas que poderiam se justificar os seus atos pelas necessidades que passa, especialmente financeira, mas ela age prudentemente nesses casos e a sua conduta, do ponto de vista ético, é inabalável (à exceção com seu comportamento para com o cego interpretado por Wagner Moura, mas é justificada depois a sua ação condenável por uma do tipo moral, uma boa ação). Falando nisso, ela até ajuda uma velhinha a atravessar a rua, à margem da penúria em que vive. A amiga Sofia (Sabrina Greve) também é uma personagem bastante curiosa, pois alimenta uma paixão por Nina, e parece ser, no fundo, a única pessoa que se importa realmente com ela, demonstrando o seu amor de forma cândida e pura, derramando lágrimas verdadeiras pelo seu objeto de desejo e de admiração.

"Nina" é um filme imperdível, que consegue reunir toda essa beleza estilística com recursos de qualidade, uma grande narrativa, um excelente roteiro, ótimas atuações e bela fotografia. Ainda conta também com uma direção de arte e um clima underground perfeito que retrata e reflete a natureza sombria dos personagens, onde o preto-e-branco faz um papel fundamental para a caracterização dessa estética, que busca contrapor o vazio niilista dos indivíduos ordinários com a profundidade que reside na dialética apolínea e dionisíaca dos seres extraordinários, categoria esta em que se encontra Nina, que certamente deve gostar muito de ler Nietzsche, e que está para além do bem e do mal. Impossível não se identificar.

NINA (2002)

Direção: Heitor Dhalia.

Elenco: Guta Stresser, Myriam Muniz, Sabrina Greve, Selton Mello, Wagner Moura, Matheus Nachtergaele, Luiza Mariani, Juliana Galdino, Guilherme Weber, Renata Sorrah.

COTAÇÃO: *****