DE SAULO A PAULO
Adriano de Oliveira
 
 

"O último lugar onde faltava evangelizar era o cinema." A frase, proferida antes de qualquer pergunta, na entrevista coletiva com o padre Marcelo Rossi em Porto Alegre pelo mesmo sintetiza a que veio "Irmãos de Fé", novo longa do prolífico (na quantidade, não na qualidade) diretor Moacyr Góes. Há um claro interesse em fazer uma pregação por meio do cinema, o que deixa a arte em segundo plano.

Se no filme religioso anterior de Góes, "Maria, Mãe do Filho de Deus", os textos bíblicos básicos eram os Evangelhos, aqui o enfoque do roteiro vem do livro "Atos dos Apóstolos", contando a conversão de Saulo, impiedoso perseguidor dos primeiros cristãos, em Paulo, apóstolo fervoroso. Tal personagem central da história, interpretado por Thiago Lacerda, é pouco convincente nas mãos do ator. Os coadjuvantes também não colaboram, alguns são caricatos e outros, demasiado forçados. Os diálogos tentam ser corretos, e para tanto, abusam do didatismo, enfastiando a platéia.

E os problemas de "Irmãos de Fé" não param por aí. Há muito não se via uma cenografia tão pobre em um filme de época. Surge inclusive uma certa carência de figurantes. O diretor faz um trabalho burocrático, com planos pouco ou nada inspirados.

Sem se preocupar com os defeitos do filme do qual participa, Rossi segue sua peregrinação. Na coletiva concedida em um hotel no bairro Moinhos de Vento, na capital gaúcha, da qual o Cine Revista fez parte, o padre respondeu às primeiras perguntas evocando Santo Agostinho, transpareceu o desejo de fazer uma série bíblica para a TV, revelou que não assistiu à "Paixão de Cristo" de Gibson "por motivos pessoais".

Indagado por mim sobre seu filme bíblico favorito, apontou "Os Dez Mandamentos", e também "Ben-Hur". Mostrou um lado inusitado (incoerente, talvez) ao dizer que gosta de filmes de artes marciais, citando os violentos Bruce Lee, Steven Seagal e Jet Li. (Erguei as mãos!!!)

Ficou bastante evidente em suas respostas que o sacerdote procura fazer do cinema um meio de levar a Palavra ao grande público, seja o espectador em qualquer nível de fé, e que prega, com muita convicção, a tolerância e o ecumenismo.

Certamente, as intenções são boas, mas os resultados poderiam ser melhores se a história fosse bem contada, não apenas do ponto de vista didático-religioso, mas pelo prisma da arte cinematográfica, onde "Irmãos de Fé" deixa muito a desejar.

IRMÃOS DE FÉ (2004)

Direção: Moacyr Góes.

Elenco: Thiago Lacerda, Othon Bastos, José Dumont, Francisca Queiroz, Padre Marcelo Rossi.

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