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"O último lugar onde faltava evangelizar era o cinema."
A frase, proferida antes de qualquer pergunta, na entrevista
coletiva com o padre Marcelo Rossi em Porto Alegre pelo
mesmo sintetiza a que veio "Irmãos de Fé", novo longa
do prolífico (na quantidade, não na qualidade) diretor
Moacyr Góes. Há um claro interesse em fazer uma pregação
por meio do cinema, o que deixa a arte em segundo plano.
Se no filme religioso anterior de Góes, "Maria, Mãe
do Filho de Deus", os textos bíblicos básicos eram os
Evangelhos, aqui o enfoque do roteiro vem do livro "Atos
dos Apóstolos", contando a conversão de Saulo, impiedoso
perseguidor dos primeiros cristãos, em Paulo, apóstolo
fervoroso. Tal personagem central da história, interpretado
por Thiago Lacerda, é pouco convincente nas mãos do
ator. Os coadjuvantes também não colaboram, alguns são
caricatos e outros, demasiado forçados. Os diálogos
tentam ser corretos, e para tanto, abusam do
didatismo, enfastiando a platéia.
E os problemas de "Irmãos de Fé" não param por aí.
Há muito não se via uma cenografia tão pobre em um filme
de época. Surge inclusive uma certa carência de figurantes.
O diretor faz um trabalho burocrático, com planos pouco
ou nada inspirados.
Sem se preocupar com os defeitos do filme do qual
participa, Rossi segue sua peregrinação. Na coletiva
concedida em um hotel no bairro Moinhos de Vento, na
capital gaúcha, da qual o Cine Revista fez parte,
o padre respondeu às primeiras perguntas evocando Santo
Agostinho, transpareceu o desejo de fazer uma série
bíblica para a TV, revelou que não assistiu à "Paixão
de Cristo" de Gibson "por motivos pessoais".
Indagado por mim sobre seu filme bíblico favorito,
apontou "Os Dez Mandamentos", e também "Ben-Hur". Mostrou
um lado inusitado (incoerente, talvez) ao dizer que
gosta de filmes de artes marciais, citando os violentos
Bruce Lee, Steven Seagal e Jet Li. (Erguei as mãos!!!)
Ficou bastante evidente em suas respostas que o sacerdote
procura fazer do cinema um meio de levar a Palavra ao
grande público, seja o espectador em qualquer nível
de fé, e que prega, com muita convicção, a tolerância
e o ecumenismo.
Certamente, as intenções são boas, mas os resultados
poderiam ser melhores se a história fosse bem contada,
não apenas do ponto de vista didático-religioso, mas
pelo prisma da arte cinematográfica, onde "Irmãos de
Fé" deixa muito a desejar.
IRMÃOS DE FÉ (2004)
Direção: Moacyr Góes.
Elenco: Thiago Lacerda, Othon Bastos, José
Dumont, Francisca Queiroz, Padre Marcelo Rossi.
COTAÇÃO: *
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