ENTREVISTA EXCLUSIVA:
FLÁVIO RAMOS TAMBELLINI, produtor e diretor

por Adriano de Oliveira
 
 

Flávio Ramos Tambellini é um dos produtores de cinema mais prolíficos do país. Em seu currículo estão obras bastante representativas de nosso cinema, como Terra Estrangeira (Walter Salles, 1995), Um Copo de Cólera (Aluízio Abranches, 1999), Eu Tu Eles (Andrucha Waddington, 2000), Cazuza - O Tempo Não Pára (Sandra Werneck e Walter Carvalho, 2004), Pro Dia Nascer Feliz (João Jardim, 2006) e Mutum (Sandra Kogut, 2007), entre outras. Além disso, foi coprodutor de Carandiru (Hector Babenco, 2003), produtor executivo de Orfeu (Cacá Diegues, 1999), diretor de produção de Eu Sei que Vou te Amar (Arnaldo Jabor, 1986) e assistente de direção de diversas produções internacionais vinculadas ao Brasil.

Tambellini também é diretor, tendo assinado Bufo e Spallanzani (2000), O Passageiro - Segredos de Adulto (2006) e Malu de Bicicleta (2010).

Atualmente, se encontra em cartaz em Porto Alegre uma nova produção dele: A Falta que nos Move (Christiane Jatahy, 2009). O cineasta esteve na capital gaúcha em março passado, quando participou de uma sessão comentada de Malu de Bicicleta, bem como ministrou uma aula magna sobre Produção de Cinema. Ele nos concedeu, via e-mail, a entrevista exclusiva seguinte:


CINE REVISTA: Enquanto diretor, o senhor tem se notabilizado por conduzir adaptações literárias (Bufo e Spallanzani, de Rubem Fonseca; O Passageiro - Segredos de Adulto, de Cesário Mello Franco; Malu de Bicicleta, de Marcelo Rubens Paiva). Quais as vantagens e os eventuais problemas de se fazerem adaptações de livros ao cinema?

FLÁVIO R. TAMBELLINI: Um livro já vem com uma estrutura dramática e um perfil dos personagens, ou seja, já temos uma base para trabalhar. Fundamental entender se o livro é cinematográfico, logo se sua narrativa tem possibilidades visuais e diálogos não literários. A principal dificuldade em se adaptar um livro é que necessariamente temos que jogar fora uma parte do texto. Um livro pode ser lido no tempo em que desejarmos, enquanto que um filme deve ter em torno de 100 minutos e é visto de uma vez. Devemos ser fiéis ao livro sem sermos subservientes a ele.



CINE REVISTA: Ainda nesse sentido, uma das coisas mais bacanas em suas adaptações é que os escritores das obras adaptadas também são roteiristas ou co-roteiristas dos respectivos filmes. O senhor acha que esse processo de contar diretamente com a opinião do autor da obra literária colabora em se fazer uma melhor - ou mais fiel - transição do livro à linguagem cinematográfica?

FLÁVIO R. TAMBELLINI: Gosto de finalizar os roteiros com os autores dos livros, ou seja começo a adaptar o livro com outra pessoa; no Bufo, foi a escritora Patrícia Mello, no Passageiro, Cláudio Paiva, e no Malu, Bruno Mazzeo e João Avellino. Depois de um trabalho inicial de desconstrução do livro, que provavelmente teria dificuldade em fazer com o autor, trago ele de volta nos tratamentos posteriores para que ele restitua o espírito e a essência do livro e dos seus personagens. No Bufo, foi incrível pois o próprio Rubem Fonseca mudou a estória e juntou personagens do seu livro, alterando significativamente o original e ainda por cima assinou o roteiro.



CINE REVISTA: O senhor trabalhou como assistente de direção, no início de sua carreira, com projetos vindos de diretores conceituados e tão diferentes entre si como Hector Babenco, John Boorman, Bruno Barreto e Paul Mazursky, ocupando cargos também distintos, como diretor de elenco e de segunda unidade. Como esses primeiros trabalhos lhe influenciaram no seu desenvolvimento como cineasta?

FLÁVIO R. TAMBELLINI: John Boorman foi o diretor mais carismático com que trabalhei. O seu filme Floresta de Esmeraldas foi um aprendizado profundo para mim. Filmamos em Itatiaia, Paraty, Belém, Carajás e Tucuruí. Descobri um Brasil novo para mim, além de trabalhar com um mestre na decupagem e no trato com os atores. Fiquei mais de um ano com ele e vi que um diretor, para ter comando e ser firme, não precisa subir a voz. Bruno Barreto me deu a primeira oportunidade no cinema em Gabriela e tive o privilégio de trabalhar com um dos maiores atores do mundo: Marcelo Mastroianni. É sempre bom trabalhar com diretores de carreiras sólidas.



CINE REVISTA: Nos créditos de Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal, o senhor é mencionado como produtor de unidade aérea em locações no Brasil. O senhor poderia nos falar de como foi esse trabalho para um blockbuster hollywoodiano?

FLÁVIO R. TAMBELLINI: Contrataram-nos para produzir as filmagens nas Cataratas de Iguaçu. Foi uma experiência bastante interessante, pois nem os atores nem o barco que fazem parte da cena foram filmados lá. Tudo foi colocado depois, na pós-produção. Os americanos enviaram uma equipe de altíssimo nível, que preparou toda a sequência através de plateaus nos quais posteriormente seriam inseridos o barco, Harrison Ford, etc. Na verdade, me vi diante de algo que não me parecia cinema, mas sim um espetáculo tecnológico de uma indústria sofisticada e milionária.



CINE REVISTA: Qual a sua opinião sobre o cenário atual da produção cinematográfica brasileira? Estamos vivendo um bom momento de nosso cinema?

FLÁVIO R. TAMBELLINI: Estamos produzindo bastante, o que é bom, mas por outro lado aumentou a dificuldade de distribuição e exibição. Há uma preocupação excessiva em se fazer filmes de mercado. Um filme fazer sucesso é uma decorrência, não pode ser uma meta a qualquer preço. Os melhores e mais interessantes filmes têm sido os de baixo orçamento que possuem uma preocupação estética e de conteúdo maiores. Por outro lado, estamos vivendo uma revolução de mídias, com a internet, o celular, etc... No fim de tudo, o principal será os bons roteiros e qualidade técnica. Urge a criação de salas populares que sirvam de opção aos multiplexes.