|
|
|
|
| |
| |
| |
|
FALTOU
ALGO, MAS QUEM SE IMPORTA?
|
|
Alexandre
Mesquita
|
| |
 |
| |
O filme Divã (Brasil, 2009) é, se você tem intenção
de ir ao cinema para se divertir, maravilhoso. A maturidade
do cinema nacional começa a se estabelecer no comércio.
Está rotineiro vermos películas brazucas passando da barreira
do milhão de espectadores. Nada melhor do que ver Divã
surrando Velozes e Furiosos 4, fazendo com
que o nosso suado dinheirinho fique por aqui mesmo.
Mas o filme estrelado por Lília Cabral poderia ter ido
um pouco além. Sua intenção era de agradar a público e
crítica. Sim, algumas cenas o deduram.
Baseado no livro homônimo da escritora gaúcha Martha Medeiros
e na peça teatral inspirada nele, conta a história de
Mercedes (Lília Cabral, excelente), dona-de-casa carioca
de quarenta anos, classe média-alta, vida estável, que
decide depois dos filhos criados e do casamento requentado,
fazer análise. Quer descobrir, afinal, quantas Mercedes
vivem dela e o que fazer com cada uma. À medida que abre
seu passado e presente para o analista Lopes, que tal
como no livro é uma figura de participação meramente ilustrativa,
Mercedes vai se descobrindo e passa a testar seus limites.
Se desgarra dos filhos, arruma amante, pede divórcio,
busca a felicidade, mesmo não sabendo muito bem onde e
como.
No livro, Mercedes é séria, e seu humor mais irônico.
Quando da adaptação para o teatro, outra linguagem, Mercedes
teve de ser modificada e ganhou um lado mais extrovertido,
pautado na necessidade cênica. Boa notícia, no filme a
essência de ambos está presente. Pegou o bom de um e montou
sobre o bom do outro.
E mais. O roteirista Marcelo Saback (que também é ator
de novela, considerado clone do Humberto Martins) viu
que poderia ainda explorar um novo canal: aprimorar o
que não foi trabalhado nem no livro nem no teatro. Temos
os personagens secundários mais desenvolvidos. E o caso
do marido de Mercedes, Gustavo, realizado muito bem por
José Mayer. Ou da melhor amiga, na pele da ótima atriz
Alexandra Richter, que faz o mesmo papel na peça. Saback
também dá um show no quesito diálogos rápidos e inteligentes,
gabaritando-se como grande expoente do cinema nacional
em termos de roteiro.
O diretor José Alvarenga Jr. refinou sua mira, e tudo
de tentativa de fazer humor que pegou de raspão em Os
Normais aqui acertou em cheio.
Entanto, para tentar garantir ao máximo que o filme fizesse
sucesso, algumas vezes diretor e roteirista apelaram descaradamente,
comprometendo o almejado algo mais em qualidade.
Divã ficou uma obra fácil e divertida, dá para
rir muito. Porém, difícil de tirar o chapéu enquanto arte
com pastelão. Há cenas maravilhosas como a da nudez velada
de Lilia Cabral (a primeira de sua carreira), depois que
Mercedes transa pela primeira vez com o amante (Reynaldo
Gianecchini). Ou o cinza-chuva nas cenas em um teto de
um prédio em Copacabana, nos encontros posteriores para
discutir a relação extraconjugal.
Só que há outras beirando o lamentável, como a do banheiro
quando Bridget Jones, digo Mercedes, tenta vestir uma
meia calça para segurar as "partes caídas", ou na cena
da protagonista conversando com a filha da amiga enquanto
esta transa com o namorado.
E há uma passagem em especial, que ilustra mais do que
qualquer outra esse oito ou oitenta prejudicial.
Mercedes e Gustavo, depois dela ter terminado com o amante
- e aparentemente Gustavo também com a dele -, entram
numa loja e deitam sobre uma cama de casal. Lado a lado
olham para o teto e fazem planos de como usar aquela cama
para recuperar o futuro juntos. Cena muito bacana, mas
infelizmente o roteiro termina seduzido pelo caminho do
humor fácil e a finaliza com uma piada clichê, que funciona
apenas para arrancar algumas gargalhadas e nada mais.
Estragou, estragou mesmo um momento que poderia ter colocado
Divã em um outro panteão.
Não é sumamente necessário que ele precise estar lá, pois
o sucesso de público é garantidíssimo. E digo mais, seus
possíveis cinco milhões de espectadores serão bem mais
justos do que um Se Eu Fosse Você 2 da vida.
DIVÃ (Brasil, 2009)
Direção: José Alvarenga Jr.
Elenco: Lília Cabral, José Mayer, Alexandra Richter,Reynaldo
Gianecchini, Cauã Reymond.
Cotação: **** |
| |
|
|
|