O RALO DE DANTE
Alexandre Mesquita
 
 
O ano cinematográfico brasileiro de 2007 teve, com toda a justiça, seu apogeu em Tropa de Elite, competentíssimo e corajoso band-aid de pólvora que, colocado sobre feridas da classe média, explodiu - e, como sabemos, a maior virtude de uma explosão é não passar despercebida. Mas seria injustiça deixar de enaltecer outro grande produto, com enfoque mais intimista, porém de qualidades artísticas tão boas quanto O Cheiro do Ralo (Brasil, 2007) do diretor Heitor Dhalia.

O roteiro do próprio Dhalia com Marçal Aquino faz adaptação do romance de estréia de Lourenço Mutarelli, conceituado autor de quadrinhos brasileiro, gerador de candidatos a obras-primas como Transubstanciação e Réquiem. Mutarelli, como de praxe em seu trabalho, explorou a perturbada condição humana, dessa vez com uma história embalada em clima retrô misturado com loja de um e noventa e nove.

Começa com a câmera seguindo a parte anatômica mais rebolante de uma moça (Paula Braun). Ela caminha até seu emprego de garçonete num daqueles botequins que, quando você fica bêbado, todas as moscas da cidade viram confidentes. É a porta de entrada do microcosmo tipo submundo da miséria humana do personagem principal Lourenço (Selton Mello). Sentado com seu cheese-gordura pela metade, vê a parte anatômica passar para dentro do balcão e tem seu olhar aprisionado. Ele, que volta e meia reclama que portais do inferno o perseguem, finalmente encontrou algo que valha a pena num ser humano que não ele. Ressalta-se que em nenhum momento quis saber da proprietária.

Lourenço é dono de uma espécie de brechó gigante, feito de tudo quanto se pode comprar ou vender que esteja pela metade, tenha ferrugem, buracos, pedaços faltando e não funcione. Enfim, tudo que tenha história. Fabuloso lugar o seu escritório, principalmente para quem cresceu aprendendo a gostar do mundo a partir do final da década de setenta e década de oitenta. Ele até joga fliper na Vortex. Saudade, saudade.

As pessoas vão a ele necessitadas de dinheiro. Oferecem suas posses esquisitas e suas histórias tristes. Lourenço não se faz de rogado para exercer soberania. Respaldado na frase "a vida é dura", oferece migalhas por faqueiros de prata, violino Stradivarius, relógios, baralhos de mulheres nuas, autógrafo do Steve McQueen, lâmpada com gênio que só serve para fazer poesia, gramofone peruano que não funciona, prato, caixinha de música, um revólver, um ancinho, e lá pela metade do filme, um olho. Destaque para o cuidado do roteiro com os personagens, mesmo os secundários. Ninguém usa o seu jeito de ser, vestir e falar para dizer "me esqueçam". O homem que quer vender o relógio (Mário Schoemberger) que pertenceu ao professor-anagrama Soran, passa a idéia de alguém muito respeitado no meio intelectual, mas que precisa vender churrasquinho de gato para sobreviver. O cara do revólver (Zé Pineiro) tem uma risada que lembra um balão com pneumonia murchando. O do gramofone (Hugo Villavicenzio) parece aquele cara boliviano que canta El Condor Pasa em todas as esquinas e rodoviárias do mundo. A drogada treme-treme (a premiada Silvia Lourenço) sabe falar nuóssa!, tirar a roupa e atirar sem parar de roer as unhas. E como brinde de luxo, a curta participação da voz do grande Paulo César Pereio consegue empalhar a frase "Lourenço, seu filho da p..." com carinho na nossa memória.

Lourenço desfaz seu noivado no momento em que os convites do casamento estão na gráfica. A justificativa que dá para a noiva (Fabiana Guglielmetti) é um resumo de si mesmo: Não gosto de você, não gosto da minha mãe, não gosto de ninguém. Sua forma de assistir ao programa de ginástica da Samanta Rose (Suzana Alves, a Tiazinha), aquela que não acredita em um deus que não saiba dançar, novamente reforça que nada no filme favorece a normalidade. O protagonista encontra um mendigo sentado em frente à porta do seu brechó. Chama o segurança (o próprio Mutarelli, que numa roupa cor de vinho que começa no sapato e termina na careca está muito bem) e, à base de fumar esparramado numa poltrona contemplando o teto, passa nele a conversa de que Deus criou o mundo, mas foi o homem que criou o conforto ao mundo, e como um troco, também criou o lixo à sua imagem e semelhança - e o lixo é uma coisa ruim porque fede. O segurança captou a mensagem e botou o mendigo para correr.

Um cara de meia idade, magro, de jeans e brinco (Jorge Cerruti) abre a segunda parte. Ele vende um olho para o dono do brechó, não se sabe se de vidro ou "empalhado". Lourenço aceitou pagar uma fortuna pois identificou nele o olho do pai que nunca conheceu, porém que defende com orgulho: porque morreu na Segunda Guerra, embora a Segunda Guerra tenha terminado quase trinta anos antes Lourenço nascer.

Um recalcado, portanto. Vai no fundo das pessoas para usá-las como fonte de auto-afirmação. Só que há um contra-veneno. O ralo entupido do banheiro de sua sala. O SEU ralo, como o lixo do homem, fede e incomoda. É o portal para ser humilhado pelas pessoas que humilha.

Os ralos são portais do inferno que estão a nos observar, sustenta.

Palmas para a parte anatômica da garçonete, que como tentativa de ser ponto de fuga foi promovida a paraíso. A única coisa que atrapalha é a dona dela, na parte da frente todo o tempo. Usando a técnica de "conquistar a musa cortejando as amigas", Lourenço pergunta o nome da dona. Ela responde e, compartilhando os pensamentos dele notamos que nada é ouvido. Ele definitivamente não está interessado no que a parte da frente tem a oferecer.

Quer comprar a parte de trás. Comprar, essa é a regra. Entanto, ela não está a venda, e desejar o que não pode pagar é muito complicado para os desígnios da existência de Lourenço. Possuir o que não se comprou significa ter de pagar com troca igual, íntima, compreensiva e construtiva a dois. Sai mais caro, bem mais caro.

Depois de reviravoltas, frustrações, trunfos, reflexões sarcásticas, e inteligentes, sobre a condição humana, ele consegue adquirir seu objeto de desejo. Acertado o financeiro, ela, a parte anatômica, fica nua à sua frente. Ele a abraça, beija e chora, pois naquele momento a perdeu. Ao ser comprada, ela se tornou mais uma das milhares de tralhas que alimentam as prateleiras carcomidas da vida que construiu.

Quanto ao desempenho do protagonista, uma divisão de tarefas ficou bastante clara. O grande Selton Mello do cinema fez mais um trabalho inspirado seguindo sua vocação, enquanto o Selton Mesmíssimo da TV paga as contas.

Esse lugar cheira a m......, disse o cara que tentou vender o violino Stradivarius e recebeu de Lourenço cento e doze reais de oferta. O senhor não tem rosto, é um mentiroso, disse a drogada treme-treme depois de alguns stripteases que fez para ele por dinheiro. Estive no inferno e lembrei de você, foi a mensagem que Lourenço encontrou na boca de um sapo deixado à porta do seu apartamento. Depois disso se entende porque, apesar de toda a sua perturbação com o cheiro do ralo, ele sempre se nega a consertá-lo, optando por remendos que não darão em nada ou piorarão a situação. Porque Lourenço se constrói incorporando tudo de ruim que a vida plantada por ele mesmo traz. Ele engole, processa e vomita de volta ao mundo algo que fede pior ainda. O inferno parece vigoroso, lá no banheiro que ele tem dentro do coração.

Ainda bem.

Cruel e debochado, cheio de verdades na cara, embaladas em um infernal humor negro. Se o lugar cheira a m..... por causa de Lourenço, o filme cheira a estupendo e saboroso pelos mesmos motivos.



O CHEIRO DO RALO (2007)

Direção: Heitor Dhalia.

Elenco: Selton Mello, Paula Braun, Mario Schoemberger, Jorge Cerrutti, Silvia Lourenço.

COTAÇÃO: *****