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A
CULTURA DA CONTRACULTURA
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Adriano
de Oliveira
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Homem de arte sintonizado com o seu tempo, o cineasta
italiano Antonioni topou, no final dos anos 60, o desafio
de rodar um filme em solo americano, abordando, dentro
de uma história ficcional, o tema então muito em voga
da contracultura - basicamente um movimento sessentista
contestador de valores sociais e culturais (anticonsumista,
pacifista, crítico), descendente direto da geração beatnik
e embrião nato do movimento hippie.
Com um elenco de desconhecidos (excetuando Rod Taylor,
que havia participado de "Os Pássaros"), trilha
sonora contendo Pink Floyd, The Grateful Dead
e Rolling Stones, bem como um roteiro assinado
por não menos que cinco autores, entre os quais o próprio
diretor e a icônica figura beat de Sam Shepard,
"Zabriskie Point" (1970) nasceu sob uma aura de
cult, mas também foi um imenso fracasso comercial
para a MGM que o distribuiu.
A trama, de fato, não é das melhores. É sua base uma love
story tênue e efêmera, envolvendo a auxiliar de um
empreiteiro e acadêmica de Antropologia, Daria (Daria
Halprin), e um estudante universitário, Mark (Mark Frechette),
procurado pela polícia por supostamente ter atirado em
um agente da lei durante um protesto no campus. Quando
o avião furtado pilotado por Mark cruza o caminho do carro
de Daria atravessando o deserto, surge um romance "ao
estilo contracultural" ambientado no monumento natural
que dá título ao filme, localizado no Vale da Morte na
Califórnia.
Firme no seu propósito de cinema autoral, Antonioni como
diretor impôs sua visão particular do tema, enquadrando
a questão "contracultura versus instituições da
sociedade vigente" como um fenômeno da incomunicabilidade
- esta, seu leitmotiv, sua indissociável assinatura
temática. Aqui a incapacidade humana de entendimento foge
do estrato individual para atingir outro patamar, a camada
de grupos sociais e seus motivos: é o conflito das idéias
coletivas que afasta os homens, na "nova velha ótica"
do artista. "Zabriskie Point" surge, na cinematografia
do italiano, como um passo criativo intermediário entre
suas duas maiores obras, carregando consigo características
fundamentais das mesmas: do predecessor "Blow Up"
(66), o tema "percepção e incerteza" (o estudante rebelde
Mark atirou ou não no policial?); do vindouro "Profissão
Repórter" (75), um protótipo da estampa "road-movie
da alma".
Se o roteiro frágil e os intérpretes insossos não ajudam,
o diretor consegue valer cada cena com seu domínio da
arte e da técnica. Faz a "tarefa de casa" mostrando, à
sua moda, alguns elementos contraculturais básicos: a
contestação, sobretudo a estudantil, nos protestos retratados;
o amor livre (incluindo uma ousada cena em tal sentido),
a rebeldia irônica (a repintura de um avião furtado com
motivos e palavras de ordem típicas do movimento). E de
modo igual ilustra o contraponto ao tema: a poluição visual
vinda da exposição obsessiva das marcas de empresas, a
visão capitalista-selvagem das empreiteiras, os painéis
publicitários que mais parecem personagens de carne e
osso, de tão intrínsecos ao panorama urbano. Porém, vai
mais além disso, emergindo do tradicional, este já bem-feito,
pois a lente de Antonioni capta nuances raras. Não lhe
bastam enquadramentos com panorâmicas e tomadas aéreas
mostrando o deserto como paisagem subjetiva representante
de um vazio interior humano. Também há uma sutil fotografia
de um avião no céu e um carro na estrada como símbolos
de liberdade e de escapismo imediato e ainda a exploração
cinematográfica da beleza natural do monumento californiano
Zabriskie Point em si - este um belvedere que,
em sua vista intocada pela mão do homem, é espelho do
sonho utópico, irrealizável ao humano moderno, de um coletivismo
primitivista (não por acaso ali se desenrola uma seqüência
orgiástica primando pelo polvilhamento de corpos amantes
com a poeira do solo, como numa amálgama do ser e do sonho
em um retrato elementar).
Todavia, possivelmente a cena mais lembrada do filme é
a da explosão da mansão incrustada em uma pedreira, vista
de modo multiangular e em câmera lenta, ao som de Pink
Floyd. Embora de inegável estirpe psicodélica - e
naturalmente deve ser essa a sua primeira função - , tal
cena é metáfora da incomunicabilidade tipicamente antonioniana,
empunhando em si que a incompetência de sintonizar pensamentos,
idéias e atitudes, seja entre quem for, leva à desagregação.
Poucos, e Antonioni é um deles, conseguiriam extrair algo
de belo, lírico e/ou filosófico na imagem de uma explosão:
na perda da coesão da matéria, na transformação abrupta
da energia de ligação das substâncias, nos objetos ou
seus fragmentos lançados com violência ao espaço...reside
uma estranha beleza na destruição, é o que também
sugere essa passagem.
"Zabriskie Point" foi alvo de censura, mas nenhuma
maior que a interna. Muitas cenas foram cortadas pelo
estúdio, e inclusive a conclusão da fita foi modificada.
Originalmente, o filme se encerraria com a tomada de um
avião escrevendo com fumaça no céu a frase "Fuck you,
America" (não é preciso traduzir). Por aconselhamento
da produção, alterou-se o final para uma cena de um belo
pôr-do-sol. Anarquismo de quem?
ZABRISKIE POINT (idem, 1970)
Direção: Michelangelo Antonioni.
Elenco: Daria Halprin, Mark Frechette, Rod Taylor,
Kathleen Cleaver.
COTAÇÃO: **** |
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