POLITICAMENTE INCORRETO
Alexandre Mesquita
 
 
Desconfio que os X-Men surgiram da busca por status de arte mais séria para os quadrinhos. Porque seus roteiristas sempre centralizaram as aventuras dos famosos mutantes em torno de um assunto sério e delicado: discriminação racial. Para os não iniciados, aconselho perfurar os sebos atrás da graphic novel X-Men, O Conflito de Uma Raça, de Chris Claremont e Brent Anderson. Ali, pessoas com dons supernaturais otimizados (super-heróis?) são hostilizados pela sociedade até quase os limites do extermínio. Os X-Men nasceram renegados, perseguidos e coitadinhos.

Coitadinhos? Soa estranho.

Um coitadinho que não é aceito pela sociedade, mas é capaz de responder a pergunta "como será o tempo hoje?" com "ainda não decidi...". Um coitadinho que sofre comentários discriminatórios, mas pode dizer que isso e balas calibre 38 são coisas que não o afetam, pois entram por um ouvido e saem pelo outro. Um coitadinho que costuma ser rejeitado em todas as filas de emprego nos cinqüenta países que visita por dia. Um coitadinho que vê pessoas na rua desviando do seu caminho só porque toda a vez que come algo estragado, a erupção do seu intestino provoca uma reunião do Conselho de Segurança da ONU.

As histórias X-Men nos quadrinhos têm duelos legais entre poderosos do bem e do mal, têm bom humor, e têm o carisma de personagens como o Wolverine. Elementos que, juntos, formariam um delicioso gibi se não fossem em parte estragados, na minha ótica, por essa mistura de personagens irreais enfrentando uma doença social tão delicada. Eu achava (acho) que certos temas devem ser tratados dentro de contextos realistas para não cair no ridículo ou no ofensivo. Foi com o desejo de malhar bastante essa componente politicamente incorreta do universo X-Men que acionei meu computador para escrever este texto.

Incrível é a ciência.

No momento que digito as primeiras ofensas, um programa na TV me contradiz em tempo real. Cientistas não têm dúvida de que engenharia genética e informática mexerão na qualidade dos seres humanos. Num futuro não muito distante, filhos terão sexo, altura, aparência e quantidade de entradas para USB no cérebro escolhidos pelos pais já no momento que estes estiverem transando, ou seja, numa conversa no msn ( "Papai?" "Fala." "Hoje na aula aprendi que no passado homens e mulheres para ter filhos tinham de estar na mesma hora e no mesmo local, ocupando o mesmo lugar no espaço". "Cruzes, já não bastava aquela história de que os bebês saiam pela boca ou algo parecido."). A transgenia do DNA humano levará a uma nova raça que fatalmente colidirá com a antiga raça ( pra variar, eu estarei do lado menos bacana). Corro o risco de ver as Histórias X-Men se tornarem parábolas "nostradâmicas".

Pois, orgulhoso, recuso-me a considerar X-Men - O Confronto Final (X- Men: The Last Stand, EUA, 2006) com mais respeito do que havia planejado. Tratarei-o apenas como a parte final da trilogia X-Men no cinema (final, enquanto George Lucas não comprar os direitos para contar a origem do Magneto e do Prof. Xavier, e a relação deste com Jar Jar Binks. Se ele fizer isso, juro que atiro um exorcista nele).

Começa no pretérito perfeito, isto é, em preto e branco. Os "jovens" Prof. Charles Xavier (Patrick Stewart) e Eric Lensherr (Ian McKellen), o Magneto, entram em uma casa para entrevistar uma menina mutante de poderes nunca vistos. Chama-se Jean Grey (Haley Ramm, quando menina, e Famke Janssen adulta). Ela pode se tornar um grande perigo, pois é uma guria de sentimentos ambíguos, desconfiada, perdida. Com o passar dos anos, o telepata Xavier domesticou-a, dividindo sua personalidade em duas, uma ficou acordada e a outra foi adormecida. Vale perguntar: se vinte anos depois, no presente do indicativo chamado X-Men 2, ela morreu, por quê contar seu passado? Ela não morreu. Protegeu-se da Itaipu que caiu na sua cabeça com um escudo de energia fortíssimo. Mas para isso precisou (não perguntem o porquê) sacrificar seu nome e o conhecimento de si mesma, além de despertar a parcela adormecida de sua personalidade (conhecida como parte ruim). Pelo menos, preservou todo o resto do seu corpo (conhecida como parte boa). Ela virou a Fênix, desconfiada, perdida e dark, podendo pender para qualquer lado na guerra entre mutantes. Sim, guerra. Graças ao mutante Leech (Cameron Bright, com atuação semelhante em Ultravioleta), cujo dom é neutralizar os poderes de mutantes que se aproximam dele, os humanos desenvolveram a Cura, uma substância que, injetada em qualquer mutante, transforma-o num ser humano normal. Alguns mutantes acharam isso bom. Outros, como Eric Magneto, acharam o motivo tão esperado para a pancadaria final. Ele recruta um exército de mutantes para destruir a Cura e, se sobrar tempo, o resto da humanidade (o contrário também vale). Mas terá de superar o grupo mutante pró-diálogo com a humanidade do Prof. Xavier. Destaque, como sempre, para Wolverine (Hugh Jackman que, apesar da cara de assassino bonzinho, diferente do Wolverine assassino cafajeste admirável dos quadrinhos, cumpre bem o papel).

A pancadaria acontece na prisão de Alcatraz. Para chegar com seu exército, incluindo a Fênix, à famosa ilha, Magneto pega emprestado a ponte Golden Gate e sai voando com ela. A cena é o maior limite entre o ousado e o ridículo que já vi, pode até ser considerada genial se observada com mais carinho, mas para isso é necessário parar de xingá-la antes. Como era esperado, Wolverine, aos quarenta e nove do segundo tempo, decide a favor do grupo do bem, o que não necessariamente significa bem para o filme.

X-Men - O Confronto Final conduz-se com altos e baixos. Para minha frustração, Noturno, o melhor personagem do X-Men 2, evaporou. Mas há o Dr. Hank McCoy (Kelsey Grammer, muito bom, o cara do extinto seriado Frasier) como o Fera, animal embaixador da UNICEF, que cita filósofos e faz as necessidades em postes de luz. Faltou também gente importante dos quadrinhos, como o Gambit; fora a descaracterização de alguns personagens, já notada nos filmes anteriores, como o Ciclope (James Marsden), que no papel é o líder estrategista do grupo mutante. Magneto, que sempre respeitei como um engajado radical pró-mutantes, acaba apenas como o bobo, feio e malvado da história. Quem buscou importância na marra foi a Tempestade Halle Berry, que botou o Oscar na mesa exigindo maior participação. E ganhou, embora só quem assistiu o filme por oito vezes perceba. A Vampira (Anna Paquin) foi a que mais me agradou, apostei que no final ela não serviria para nada e ganhei. Ah, e um tal Anjo que fica voando, voando, trouxe uma saudade enorme do meu estilingue.

O diretor Brett Ratner (A Hora do Rush), com cento e cinqüenta milhões de dólares na mão, saiu-se muito bem nos efeitos especiais, mas com o roteiro que tinha em mãos (responsabilidade de Simon Kinberg e Zak Penn) tropeçou no velho pepino das trilogias, amarrar os acertos e erros dos dois primeiros filmes de forma consistente para que todos (do lado de dentro e de fora da tela) terminem satisfeitos. Seus melhores méritos talvez estejam nos tons corajosos. Mutantes que jamais imaginaríamos que morreriam, morrem. Estragando prazeres, um deles é o próprio Prof. Xavier, cuja morte lembra a da Fada Madrinha do Shrek 2.

Pelas qualidades que procuramos num bom filme, O Confronto Final está mais para decepção. Porém, nem sempre os motivos que nos levam a gostar ou não de alguma coisa são, digamos, politicamente corretos. Por exemplo, a transmorfa Mística (a maravilhosa Rebecca Romijn, à época ainda assinando conjuntamente o sobrenome Stamos). Sempre fui um exaltado fã dela, pelo seu bom gosto nos disfarces, pela capacidade atlética, pelo azul espontâneo do seu corpo e principalmente pela dúvida de noites sem sono: ela usa roupa ou não? A Mística é curada no filme, e a resposta surge. Aplausos até da concorrência: "Santa razão para ver de novo, Batman!".

X - MEN - O CONFRONTO FINAL (X-Men: The Last Stand, 2006)

Direção: Brett Ratner.

Elenco: Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Famke Janssen, Halle Berry, Anna Paquin, Kelsey Grammer.

COTAÇÃO: ***