O ÚLTIMO VÔO
Adriano de Oliveira
 
 

Na manhã de 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu de modo perplexo ao maior atentado terrorista da História. Foram precisos quase cinco anos para que o Cinema abordasse o fato objetivamente, em dois filmes. Uma das produções é "As Torres Gêmeas", de Oliver Stone, que chega ao Brasil em breve. A outra, da qual aqui falaremos, é a presente estréia nacional de "Vôo 93", abordando a história do "avião da morte" cujo possível destino seria o Capitólio, e que não lograra seu intento.

Tema delicado e difícil de transpor à tela com isenção e respeito, não restam dúvidas. Uma empreitada cinematográfica que só conseguiu ultrapassar tal obstáculo graças à condução e ao roteiro de Paul Greengrass. Para elaborar a trama, as situações e os diálogos, o diretor-roteirista se apoiou em extensas horas de entrevistas junto a amigos e parentes das vítimas daquele trágico vôo. Na realização, optou por seguir a linha do "docudrama", fato real dramatizado e narrado em tom documental, a qual pautou também seu primeiro grande trabalho, "Domingo Sangrento", este sobre o conflito entre católicos e o exército britânico numa manifestação ocorrida em 1972 na Irlanda do Norte.

A escolha do elenco foi igualmente decisão acertada: nenhum nome muito conhecido para desviar a atenção, e inclusive a presença de controladores de vôo - testemunhas e personagens do fato - interpretando a eles mesmos. A narrativa ocorre praticamente em tempo real, iniciando por aquilo que deveria ser mais um rotineiro vôo comercial, com o embarque dos passageiros e decolagem tranqüila, e vai ganhando contornos tão inesperados quanto tristes aos olhos da grande maioria de seus tripulantes, como sabemos das duras notícias daquele dia.

"Vôo 93" é um filme sobre uma luta de vida e de morte. Guardando uma certa isenção na concepção de Greengrass, os terroristas árabes são mostrados como homens que estão cumprindo uma missão que lhes é sagrada por fé e somente será realizada plenamente se de modo fatal, de acordo com as convicções deles; já os passageiros consideram sacra a manutenção de suas próprias vidas. Uns procuram a redenção na morte, e outros a perseguem na vida. Eis o embate. E a Eternidade, de olhos permanentemente abertos, apenas a observá-lo.

A montagem frenética e a nervosa câmera na mão, registros típicos do cineasta, acentuam a tensão da trama à medida que esta cresce em intensidade, mas os acontecimentos por si só já seriam suficientes para deixar angustiado qualquer espectador. O resultado é um filme que vai engolfando a platéia em um nervosismo ascendente, a ponto de a última meia hora de projeção ser quase um teste cardíaco. Realmente, o final de "Vôo 93" não é para corações fracos. Ainda que todos tenham conhecimento do trágico destino daqueles personagens, não há como evitar a comoção diante do retrato da batalha pela sobrevivência, e as lágrimas correm até nos rostos dos menos sentimentais.

VÔO 93 (United 93, 2006)

Direção: Paul Greengrass.

Elenco: J. J. Johnson, Christian Clemenson, Trish Gates, Lewis Alsamari, Tobin Miller.

COTAÇÃO: *****