|
Na manhã de 11 de setembro de 2001, o mundo assistiu
de modo perplexo ao maior atentado terrorista da História.
Foram precisos quase cinco anos para que o Cinema abordasse
o fato objetivamente, em dois filmes. Uma das produções
é "As Torres Gêmeas", de Oliver Stone, que chega
ao Brasil em breve. A outra, da qual aqui falaremos,
é a presente estréia nacional de "Vôo 93", abordando
a história do "avião da morte" cujo possível destino
seria o Capitólio, e que não lograra seu intento.
Tema delicado e difícil de transpor à tela com isenção
e respeito, não restam dúvidas. Uma empreitada cinematográfica
que só conseguiu ultrapassar tal obstáculo graças à
condução e ao roteiro de Paul Greengrass. Para elaborar
a trama, as situações e os diálogos, o diretor-roteirista
se apoiou em extensas horas de entrevistas junto a amigos
e parentes das vítimas daquele trágico vôo. Na realização,
optou por seguir a linha do "docudrama", fato real dramatizado
e narrado em tom documental, a qual pautou também seu
primeiro grande trabalho, "Domingo Sangrento",
este sobre o conflito entre católicos e o exército britânico
numa manifestação ocorrida em 1972 na Irlanda do Norte.
A escolha do elenco foi igualmente decisão acertada:
nenhum nome muito conhecido para desviar a atenção,
e inclusive a presença de controladores de vôo - testemunhas
e personagens do fato - interpretando a eles mesmos.
A narrativa ocorre praticamente em tempo real, iniciando
por aquilo que deveria ser mais um rotineiro vôo comercial,
com o embarque dos passageiros e decolagem tranqüila,
e vai ganhando contornos tão inesperados quanto tristes
aos olhos da grande maioria de seus tripulantes, como
sabemos das duras notícias daquele dia.
"Vôo 93" é um filme sobre uma luta de vida e
de morte. Guardando uma certa isenção na concepção de
Greengrass, os terroristas árabes são mostrados como
homens que estão cumprindo uma missão que lhes é sagrada
por fé e somente será realizada plenamente se de modo
fatal, de acordo com as convicções deles;
já os passageiros consideram sacra a manutenção de suas
próprias vidas. Uns procuram a redenção na morte, e
outros a perseguem na vida. Eis o embate. E a Eternidade,
de olhos permanentemente abertos, apenas a observá-lo.
A montagem frenética e a nervosa câmera na mão, registros
típicos do cineasta, acentuam a tensão da trama
à medida que esta cresce em intensidade, mas os acontecimentos
por si só já seriam suficientes para deixar angustiado
qualquer espectador. O resultado é um filme que vai
engolfando a platéia em um nervosismo ascendente, a
ponto de a última meia hora de projeção ser quase um
teste cardíaco. Realmente, o final de "Vôo 93"
não é para corações fracos. Ainda que todos tenham conhecimento
do trágico destino daqueles personagens, não há como
evitar a comoção diante do retrato da batalha pela sobrevivência,
e as lágrimas correm até nos rostos dos menos sentimentais.
VÔO 93 (United 93, 2006)
Direção: Paul Greengrass.
Elenco: J. J. Johnson, Christian Clemenson,
Trish Gates, Lewis Alsamari, Tobin Miller.
COTAÇÃO: *****
|