ALMODOVARIANO, ENTENDE?
Alexandre Mesquita
 
 

A assistente para recebimento de prêmios entra correndo. Almodóvar está tentando colocar um paletó vermelho numa mosca para combinar com a almofada:

- Droga, quase.

- Mestre, está chegaram mais vinte e seis prêmios para o Senhor, todos pelo correio.

- Já estamos na época de eu ser multipremiado?

- Sim, essa maravilha chamada época anual de premiar Almodóvar começou oficialmente ontem.

- Ai, ai, já falta espaço aqui em casa.

- Chefe, nada mais justo por tudo que o senhor fez. Se me permite a oportunidade, gostaria de dizer que sinto orgulho sincero de trabalhar aqui.

A assistente chega às lágrimas.

- É que eu ainda não me acostumei. Todo o ano esse desespero de me premiar, me premiar. As pessoas perderam a essência do que significa eu ganhar um prêmio.

- Mas o senhor recebia tantos. Olha ali a foto do Chefe ganhando seu primeiro prêmio....Como é o nome mesmo? Isso, Oscar. E nem tinha completado um ano de idade.

- Tá bom, tá bom. Pegue o modelo de carta de agradecimento no computador e preencha uma para cada prêmio, como de praxe.

- Mestre, desculpe, eu sempre esqueço essa parte, a do motivo do prêmio. O que o senhor fazia mesmo?

Almodóvar dá um suspiro...

- Filmes, eu fazia filmes.

- Ah, é.

Este pequeno texto tenta expressar meu ponto de vista sobre a relação de quase todo o mundo do cinema com o trabalho do diretor espanhol Pedro Almodóvar. Há no ar um desejo compulsivo de incluir dois novos verbetes no dicionário. Filme-de-Almodóvar (subst) - tudo aquilo que for sucedido por cinco Oscars , nove prêmios de Cannes, quinze Cesares, etc's., e Almodovariano, a ser explicado mais adiante. Por quê te queixas, oh mala? Um exemplo, o penúltimo filme do diretor, Má Educação. Para mim, filme mediano. Porque mediano, mala, se possui todos os elementos do estilo que Almodóvar manda ver à perfeição? Sim, ele tem a excelência técnica do diretor. E uma vez que o caminho para uma análise imparcial de uma obra é inspecionar o lado técnico, Almodóvar consegue bloquear a má vontade de seus detratores com maestria; é difícil detoná-lo por má cenografia, roteiro, ou direção de atores. Seus filmes são ricos em proteínas, vitaminas, lipídeos, e portanto alimentam, segundo a recomendação dos críticos. Mas quanto alimentar é mais importante do que satisfazer? Estou querendo chegar na mais complicada, cruel e sem justificativa forma de crítica, a subjetiva. E satisfação é subjetiva: sei lá porque gostei disso, sei lá porque não gostei daquilo. Má Educação igual a filme mediano, pois logo que terminou me senti como se tivesse sido deixado na mão. Outro exemplo é Fale Com Ela. Almodóvar botou algumas câmeras em volta de Caetano Veloso cantando Cucurucucu, e isso foi considerado um exemplo supremo de sensibilidade de um diretor. Mas mesmo Caetano Veloso fazendo Cucurucucu filmado com sensibilidade (na verdade é a única coisa que lembro do filme, e fazem só quatro anos) no final das contas não curou minha sensação de novamente ter ficado na mão. Como "ficado na mão", mala? Tentarei me fazer entender.

Subjetivamente, o bom filme é aquele que provoca alguma forma de arrebatamento, que não passe impune pela memória do espectador. E provocar arrebatamento está mais próximo do rebelde do que do burocrata. Lembro muito bem de Ata-me, Carne Trêmula, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. Mesmo que possam ser acusados de possuírem alguma crueza (digamos que todos os elementos que os constituem, enquanto filmes, não estão equilibrados), podem-se dizer frutos de um diretor ainda em evolução, querendo mostrar serviço, chocar, ser falado quando não falam dele. Hoje Almodóvar atingiu a excelência no estilo que criou. Hoje ele é plenamente almodovariano e pode se dar ao luxo de fazer um filme, primeiro para ele, e depois para o resto. Porém, esta liberdade e perfeição estilística provocaram um outro fenômeno. De tão bem feitos e auto-centrados, seus filmes entram por um ouvido e saem pelo outro.

Mas, fãs de Almodóvar, calma. Sou das poucas bocas que berram contra o vento, usufruindo da democracia que permite aos loucos se manifestarem. Tudo leva a crer que o caminho do diretor espanhol será mesmo o do texto acima. Milhares de prêmios mesmo se ele dirigir o novo vídeo caseiro da Paris Hilton (já em pré-produção) do qual eu participava até acordar.

Feito o desabafo, tomemos rumo a seu novo trabalho, Volver (Volver, Espanha, 2006), e vejamos se não serei obrigado a fritar minha própria língua em banha quente. Inicia com Raimunda (Penélope Cruz) acompanhada da filha Paula (Yohana Cobo) e da irmã Sole (Lola Dueñas) visitando sua tia idosa, também Paula (Chus Lampreave), na pequena cidade onde nasceram e onde pairam histórias trágicas de suas vidas. Uma delas é a perda da mãe e do pai num incêndio. Depois da visita, volta ao cotidiano. No cotidiano, Raimunda é casada com o desempregado Paco (Antonio de la Torre), mora em Madri, trabalha como camareira e faxineira e tudo que for sinônimo de dinheiro honesto. Um dia, sua vida dá uma guinada para outra tragédia. Raimunda sai para trabalhar e o marido bêbado tenta seduzir a filha, que o mata. E a partir daí, a história bifurca por dois caminhos. Raimunda pensa em assumir o crime, mas depois resolve esconder o corpo no freezer de um restaurante fechado pertencente a um amigo - curiosamente, depois disso, o tal restaurante passa a fazer sucesso, freqüentado principalmente pelo pessoal do cinema, e almoços, jantares, festas de encerramento são realizadas em torno do freezer. Podemos chamar este caminho narrativo de Hitchcock à Beira de um Ataque de Nervos.

O outro caminho bifurca do primeiro no momento em que Raimunda, se preparando para arrastar o corpo (ensacado) pela rua até o restaurante, recebe a notícia de que sua tia Paula morreu. Com a impossibilidade de Raimunda ir ao velório, já que ela própria estará arrastando um cadáver na mesma hora, sua irmã Sole vai sozinha. Ao entrar na casa da tia, ela avista Irene (Carmem Maura), a mãe falecida, ou seja, o terceiro cadáver da história, que pelo menos tem a decência de andar sozinho. Essa segunda linha narrativa poderia ser chamada de Tudo Que Sobrou de Minha Mãe. Segue o bordado que entrelaça a vida (e a morte) dos personagens, ilustrada com qualidades almodovarianas. Uma dessas é o tratamento do universo feminino. Não sou lá expert, mas dizem que ele sabe representar muito bem o que se passa na cabeça das mulheres, e em cores fortes. Outra qualidade almodovariana é dignificar dramaticamente situações de "novelas mexicanas", e isso é um mérito que fala por si só. Almodovariana também é a harmonização dos elementos de uma cena. Almodóvar é capaz de fazer Penélope Cruz, uma porção de batatas e uma brasília amarela atuarem juntas sem que uma se sobressaia às outras. E não estou sendo irônico, seu talento para conjugar os elementos de suas cenas em torno de uma idéia é raro. Volver ainda conta com adicionais: lado cômico, música ao violão cantada pela própria Penélope, trilha sonora de Alberto Iglesias, e uma excelente direção de atores. Não é novidade. Almodóvar extrai grandes interpretações até de listas telefônicas. A mais famosa delas, Antonio Bandeiras, foi para Hollywood e conseguiu até casar (Porém, antes que se diga ser mais uma das façanhas do diretor, Penélope Cruz já provou ser boa atriz em outros filmes, como o excelente Não Se Mova, de Sergio Castellito, onde ela se enfeia para compor uma personagem que o amante e a vida duelam para saber quem bate mais nela).

Até agora só coisas boas. Então, o prato principal de hoje é língua de mala? Não, tudo na mesma. Terminei a sessão admitindo que se trata de uma obra muito bem feita, fantástica, a louvar, merece prêmios...e ao mesmo tempo pensando: são nove e quinze da noite, dá tempo para pegar outro filme? Me senti igual ao cara que conseguiu levar a morenaça cheia das curvas ideais para o motel, ficou lá por duas horas, mas quando chegou em casa correu para o banheiro. A morenaça era tecnicamente perfeita, mas faltou algo, algo subjetivamente inexplicável que o deixou na..., bem, acho que me fiz entender.

VOLVER (idem, Espanha, 2006)

Direção: Pedro Almodóvar.

Elenco: Penelope Cruz, Yohana Cobo, Lola Dueñas, Antonio de La Torre, Carmen Maura.

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