|
A assistente para recebimento de prêmios entra correndo.
Almodóvar está tentando colocar um paletó vermelho numa
mosca para combinar com a almofada:
- Droga, quase.
- Mestre, está chegaram mais vinte e seis prêmios para
o Senhor, todos pelo correio.
- Já estamos na época de eu ser multipremiado?
- Sim, essa maravilha chamada época anual de premiar
Almodóvar começou oficialmente ontem.
- Ai, ai, já falta espaço aqui em casa.
- Chefe, nada mais justo por tudo que o senhor fez.
Se me permite a oportunidade, gostaria de dizer que
sinto orgulho sincero de trabalhar aqui.
A assistente chega às lágrimas.
- É que eu ainda não me acostumei. Todo o ano esse desespero
de me premiar, me premiar. As pessoas perderam a essência
do que significa eu ganhar um prêmio.
- Mas o senhor recebia tantos. Olha ali a foto do Chefe
ganhando seu primeiro prêmio....Como é o nome mesmo?
Isso, Oscar. E nem tinha completado um ano de idade.
- Tá bom, tá bom. Pegue o modelo de carta de agradecimento
no computador e preencha uma para cada prêmio, como
de praxe.
- Mestre, desculpe, eu sempre esqueço essa parte, a
do motivo do prêmio. O que o senhor fazia mesmo?
Almodóvar dá um suspiro...
- Filmes, eu fazia filmes.
- Ah, é.
Este pequeno texto tenta expressar meu ponto de vista
sobre a relação de quase todo o mundo do cinema com
o trabalho do diretor espanhol Pedro Almodóvar. Há no
ar um desejo compulsivo de incluir dois novos verbetes
no dicionário. Filme-de-Almodóvar (subst) - tudo
aquilo que for sucedido por cinco Oscars , nove prêmios
de Cannes, quinze Cesares, etc's., e Almodovariano,
a ser explicado mais adiante. Por quê te queixas,
oh mala? Um exemplo, o penúltimo filme do diretor, Má
Educação. Para mim, filme mediano. Porque mediano,
mala, se possui todos os elementos do estilo que Almodóvar
manda ver à perfeição? Sim, ele tem a excelência técnica
do diretor. E uma vez que o caminho para uma análise
imparcial de uma obra é inspecionar o lado técnico,
Almodóvar consegue bloquear a má vontade de seus detratores
com maestria; é difícil detoná-lo por má cenografia,
roteiro, ou direção de atores. Seus filmes são ricos
em proteínas, vitaminas, lipídeos, e portanto alimentam,
segundo a recomendação dos críticos. Mas quanto alimentar
é mais importante do que satisfazer? Estou querendo
chegar na mais complicada, cruel e sem justificativa
forma de crítica, a subjetiva. E satisfação é subjetiva:
sei lá porque gostei disso, sei lá porque não gostei
daquilo. Má Educação igual a filme mediano, pois
logo que terminou me senti como se tivesse sido deixado
na mão. Outro exemplo é Fale Com Ela. Almodóvar
botou algumas câmeras em volta de Caetano Veloso cantando
Cucurucucu, e isso foi considerado um exemplo
supremo de sensibilidade de um diretor. Mas mesmo Caetano
Veloso fazendo Cucurucucu filmado com sensibilidade
(na verdade é a única coisa que lembro do filme, e fazem
só quatro anos) no final das contas não curou minha
sensação de novamente ter ficado na mão. Como "ficado
na mão", mala? Tentarei me fazer entender.
Subjetivamente, o bom filme é aquele que provoca alguma
forma de arrebatamento, que não passe impune pela memória
do espectador. E provocar arrebatamento está mais próximo
do rebelde do que do burocrata. Lembro muito bem de
Ata-me, Carne Trêmula, Mulheres à Beira
de um Ataque de Nervos. Mesmo que possam ser acusados
de possuírem alguma crueza (digamos que todos os elementos
que os constituem, enquanto filmes, não estão equilibrados),
podem-se dizer frutos de um diretor ainda em evolução,
querendo mostrar serviço, chocar, ser falado quando
não falam dele. Hoje Almodóvar atingiu a excelência
no estilo que criou. Hoje ele é plenamente almodovariano
e pode se dar ao luxo de fazer um filme, primeiro para
ele, e depois para o resto. Porém, esta liberdade e
perfeição estilística provocaram um outro fenômeno.
De tão bem feitos e auto-centrados, seus filmes entram
por um ouvido e saem pelo outro.
Mas, fãs de Almodóvar, calma. Sou das poucas bocas que
berram contra o vento, usufruindo da democracia que
permite aos loucos se manifestarem. Tudo leva a crer
que o caminho do diretor espanhol será mesmo o do texto
acima. Milhares de prêmios mesmo se ele dirigir o novo
vídeo caseiro da Paris Hilton (já em pré-produção) do
qual eu participava até acordar.
Feito o desabafo, tomemos rumo a seu novo trabalho,
Volver (Volver, Espanha, 2006), e vejamos
se não serei obrigado a fritar minha própria língua
em banha quente. Inicia com Raimunda (Penélope Cruz)
acompanhada da filha Paula (Yohana Cobo) e da irmã Sole
(Lola Dueñas) visitando sua tia idosa, também Paula
(Chus Lampreave), na pequena cidade onde nasceram e
onde pairam histórias trágicas de suas vidas. Uma delas
é a perda da mãe e do pai num incêndio. Depois da visita,
volta ao cotidiano. No cotidiano, Raimunda é casada
com o desempregado Paco (Antonio de la Torre), mora
em Madri, trabalha como camareira e faxineira e tudo
que for sinônimo de dinheiro honesto. Um dia,
sua vida dá uma guinada para outra tragédia. Raimunda
sai para trabalhar e o marido bêbado tenta seduzir a
filha, que o mata. E a partir daí, a história
bifurca por dois caminhos. Raimunda pensa em assumir
o crime, mas depois resolve esconder o corpo no freezer
de um restaurante fechado pertencente a um amigo - curiosamente,
depois disso, o tal restaurante passa a fazer sucesso,
freqüentado principalmente pelo pessoal do cinema, e
almoços, jantares, festas de encerramento são realizadas
em torno do freezer. Podemos chamar este caminho narrativo
de Hitchcock à Beira de um Ataque de Nervos.
O outro caminho bifurca do primeiro no momento em que
Raimunda, se preparando para arrastar o corpo (ensacado)
pela rua até o restaurante, recebe a notícia de que
sua tia Paula morreu. Com a impossibilidade de Raimunda
ir ao velório, já que ela própria estará arrastando
um cadáver na mesma hora, sua irmã Sole vai sozinha.
Ao entrar na casa da tia, ela avista Irene (Carmem Maura),
a mãe falecida, ou seja, o terceiro cadáver da história,
que pelo menos tem a decência de andar sozinho. Essa
segunda linha narrativa poderia ser chamada de Tudo
Que Sobrou de Minha Mãe. Segue o bordado que entrelaça
a vida (e a morte) dos personagens, ilustrada com qualidades
almodovarianas. Uma dessas é o tratamento do
universo feminino. Não sou lá expert, mas dizem que
ele sabe representar muito bem o que se passa na cabeça
das mulheres, e em cores fortes. Outra qualidade almodovariana
é dignificar dramaticamente situações de "novelas
mexicanas", e isso é um mérito que fala por si só.
Almodovariana também é a harmonização dos elementos
de uma cena. Almodóvar é capaz de fazer Penélope Cruz,
uma porção de batatas e uma brasília amarela atuarem
juntas sem que uma se sobressaia às outras. E não estou
sendo irônico, seu talento para conjugar os elementos
de suas cenas em torno de uma idéia é raro. Volver
ainda conta com adicionais: lado cômico, música ao violão
cantada pela própria Penélope, trilha sonora de Alberto
Iglesias, e uma excelente direção de atores. Não é novidade.
Almodóvar extrai grandes interpretações até de listas
telefônicas. A mais famosa delas, Antonio Bandeiras,
foi para Hollywood e conseguiu até casar (Porém, antes
que se diga ser mais uma das façanhas do diretor, Penélope
Cruz já provou ser boa atriz em outros filmes, como
o excelente Não Se Mova, de Sergio Castellito,
onde ela se enfeia para compor uma personagem que o
amante e a vida duelam para saber quem bate mais nela).
Até agora só coisas boas. Então, o prato principal de
hoje é língua de mala? Não, tudo na mesma. Terminei
a sessão admitindo que se trata de uma obra muito bem
feita, fantástica, a louvar, merece prêmios...e ao mesmo
tempo pensando: são nove e quinze da noite, dá tempo
para pegar outro filme? Me senti igual ao cara que conseguiu
levar a morenaça cheia das curvas ideais para o motel,
ficou lá por duas horas, mas quando chegou em casa correu
para o banheiro. A morenaça era tecnicamente perfeita,
mas faltou algo, algo subjetivamente inexplicável que
o deixou na..., bem, acho que me fiz entender.
VOLVER (idem, Espanha, 2006)
Direção: Pedro Almodóvar.
Elenco: Penelope Cruz, Yohana Cobo, Lola Dueñas,
Antonio de La Torre, Carmen Maura.
COTAÇÃO: ***
|