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João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade
Quadrilha. Esse poderia ser o título drummondiano
do novo filme de Woody Allen, Você vai conhecer o
homem dos seus sonhos (2010). Depois de ironizar
sobre a existência humana no filme do ano passado, o
diretor voltou à Europa e realizou uma comédia dramática
com temas muito caros à sua filmografia. As brigas e
desencontros entre casais, a crise de criatividade,
o sobrenatural, a morte e a traição, são temas presentes
nesse novo filme, mas que poderemos encontrar em qualquer
um dos outros 43 do diretor. E a partir dessa informação,
entramos naquele campo onde os desafetos do cineasta
novaiorquino parecem ganhar fôlego e estufar o peito
ao dizerem: Woody Allen sempre faz o mesmo filme,
só muda o título e os atores (às vezes nem isso).
Bem, para os que assim pensam, falta-lhes um pouco de
percepção ou inteligência para identificar detalhes
e enxergar mudanças. Os temas woodyanos já nos são conhecidos,
e é a partir deles que o cineasta constrói o seu mundo
neurótico, cômico ou dramático. No decorrer dos anos,
Allen voltou a trabalhar com os mesmos motivos em seus
roteiros, mas dentro de uma trama e mundo diferentes,
com nova tecnologia e artes, em outra realidade. Não
há uma repetição, há o seguir uma linha de coisas muito
pessoais que o diretor prefere plasmar em película,
e que a cada nova obra, ganham um ar novo, um reciclar
criativo e inovador dentro de um material autoral, e
acima de tudo, reconhecível: qualquer pessoa que inadvertidamente
entrasse sem saber em uma sessão de um filme de Woody
Allen, já a partir dos crédito de abertura, saberia
de quem era o filme, e o que esperar. Esse crescendo
que Woody Allen empreende em seus "temas e variações"
faz com que cada filme seu seja motivo de espera por
parte dos cinéfilos fãs e base para a pergunta: quem,
o que e como o diretor vai "atacar"? Esse ano, o alvo
são os adivinhos e profetas do futuro, e o plano de
fundo, uma verdadeira quadrilha de amores, desamores,
traições e buscas.
Os créditos de abertura do filme são embalados pela
belíssima When you wish upon a star, de Ned Washington
e Leigh Harline, e a partir dela, segue-se a história
de Helena, uma sensível senhora recém abandonada pelo
marido que vai procurar a adivinha Cristal para saber
de seu futuro. O marido, Alfie, luta contra a idade,
tentando parecer jovem. Então ele conhece uma "atriz"
muitíssimo mais jovem que ele, e casa-se com ela. A
filha de Helena e Alfie, Sally, tem seu casamento com
Roy cada vez mais sensível, até o momento em que ele
resolve assumir o caso com a jovem vizinha Dia, e Sally
resolve declarar-se para Greg, o dono da Galeria de
Arte onde trabalha. Greg apaixona-se por uma artista
amiga de Sally. A nova esposa de Alfie não é lá muito
fiel, e o próprio Alfie resolve voltar para Helena,
que já não o aceita, por estar saindo com um outro cavalheiro,
que por sua vez ama a esposa falecida e tenta entrar
em contato com ela através de sessões espíritas para
pedir-lhe permissão para casar-se novamente. Com tantas
idas e vindas e desencontros amorosos, vemos que Allen
desconstrói o gênero da comédia romântica, tornando-o
ácido e trazendo para dentro da história questões relevantes
sobre a sociedade, o abandono, o plágio, o desejo e
a paixão.
O filme assume o tom de crônica do cotidiano. Um narrador
off, o Virgílio que nos acompanham pelos círculos
do inferno amoroso, é um recurso que Allen sempre usou
em seus filmes, e que tem aparecido em quase todos os
seus últimos lançamentos. Os vários núcleos dramáticos
do roteiro são ligados através desse narrador tão irônico
quando o de Vicky Cristina Barcelona, mas que
aqui assume um papel também de criador, porque a decupagem
dos fatos é realizada através de sua narração-visão.
O amor e os relacionamentos são tão charlatões quanto
a vidente que vê auras rosas e "um novo momento" na
vida de Helena. Os astros, as cartas, a oposição entre
o que se vê cientificamente e "o que não se vê mas existe"
são equilibrados na balança de um cupido cujas lentes
enxergam a relação entre duas pessoas como uma gigante
rede de possibilidades. Não sendo exato o amor prometido
para sempre, com o tempo, irá mudar, ser entregue a
outro ou transformar-se em ira. A visão do amor como
um conto de fadas é mostrada como um conto de horror
urbano sem monstros. Os vilões aqui são as próprias
pessoas e seus desejos que não são realizados porque
vão de encontro ao desejo do outro: o inferno sartreano
arde em plano cenário woodyano deste fim de década.
Vilmos Zsigmond, em sua terceira parceria com Woody
Allen (as outras duas foram em Melinda e Melinda
e O Sonho de Cassandra) traz uma forte iluminação
amarelada para a fotografia do filme. A impressão que
temos é que um verão muito quente influencia essa fogueira
amorosa acendida pelas personagens em diversas camas.
As cores quentes no figurino, no cenário, e uma iluminação
quase metálica, dão esse ar de quentura dramática e
estética às cenas, mesmo nas tomadas noturnas, e o resultado
está dentro daquilo que sabemos ser algo muito típico
de Woody Allen dos anos 90 para cá: boa luz para que
possamos identificar os rostos das personagens e divisar
bem todos os pontos do cenário.
Anthony Hopkins assume o papel que seria de Allen em
outros tempos. Sua atuação é comedida, sem muitos excessos,
mas com muita competência. Os destaques vão para Gemma
Jones no papel de Helena (numa atuação emotivo-cômica
e muito, muito impressionante) e Lucy Punch como Charmaine,
em um papel que nos lembra o de Mira Sorvino em Poderosa
Afrodite, e numa atuação que na minha opinião deveria
levar o prêmio de Atriz Coadjuvante no Oscar do próximo
ano. Naomi Watts está a contento, dentro da considerada
normalidade. Antonio Banderas com seu sotaque carregado
parece afetado demais, inclusive na aproximação de sua
performance com a de Allen, gaguejando e tudo (vide
a cena em que ele convida Sally para ver uma ópera de
Donizetti).
Embora o filme deste ano não seja um dos geniais filmes
de Woody Allen, ele carrega todos os ingredientes do
cérebro gênio do cineasta. O impressionante roteiro
que consegue ligar e desligar todas as personagens,
a condução do filme pelo diretor, o uso da música, tudo
convida e garante uma excelente sessão, e justifica
as filas que vi formarem-se para assistir ao filme.
Entre a comicidade, a trama, o amor e a adivinhação,
Allen termina a década com uma obra que põe num caldeirão
mágico e incerto, todos os seres humanos e as pessoas
que amam durante a vida. No fim, apesar do "som e fúria"
shakespeariano, nada tem significado. É preciso fazer
valer, dar significado às coisas e acreditar que, seja
"um moreno alto e estranho" ou o "seu estranho", você
vai conhecer o homem dos seus sonhos. Uma mensagem ácida
de esperança em um tempo onde nada se espera além do
desastre. Enfim... É por isso que eu amo Woody Allen.
VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS (You
will meet a tall dark stranger, EUA, Espanha, 2010).
Direção: Woody Allen.
Elenco: Antonio Banderas, Josh Brolin, Anthony
Hopkins, Gemma Jones, Freida Pinto, Lucy Punch, Naomi
Watts.
Cotação: ***
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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