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A crítica social e a análise psicológica são os dois
principais pilares de sustentação da obra de Michael
Haneke. O primeiro está presente de forma poderosa em
filmes como Código Desconhecido (2000) e O
Tempo dos Lobos (2003). Já o segundo carrega títulos
marcantes como A Professora de Piano (2001) e
Caché (2005). Talvez o grande diferencial de
uma produção anterior, O Vídeo de Benny (1992),
a segunda de sua filmografia, seja a forma inteligente
como o diretor soube unir esses dois elementos.
Aqui, narra-se a história de um adolescente (Arno Frisch)
que mantém uma relação distante com os pais, interpretados
por Angela Winkler e Ulrich Mühe, este em sua primeira
parceria com Haneke - mais tarde, faria O Castelo
(1997) e Violência Gratuita (1997). O jovem passa
a maior parte do tempo sozinho em seu quarto escuro,
alimentando o vício em televisão e vídeos, violentos
em sua maioria. Em um final de semana em que os pais
viajam, Benny leva para casa uma garota (Ingrid Stassner)
que acaba de conhecer. Após mostrar a ela uma de suas
imagens favoritas, do abate de um porco, acaba matando-a
com a mesma pistola de ar comprimido usada contra o
animal.
A questão social está evidente. Fica claro que o comportamento
agressivo do rapaz é diretamente influenciado pela espetacularização
da violência na mídia, e pela negligência dos pais.
Porém, ainda que visível, o problema aparece apenas
por trás. O que o filme busca, em primeiro plano, é
mergulhar fundo na mente de Benny. Por isso, a maior
parte dele se dedica a seguir os passos do jovem.
Mais do que as cenas de violência, o que realmente espanta
na exploração desse universo confuso é a frieza: no
relacionamento da família, na postura de Benny após
o assassinato, na reação dos pais quando descobrem o
ocorrido, na atitude do garoto no desfecho final. A
frieza é o ponto visceral, brilhantemente explorado
pelo diretor, e o que faz desta uma produção forte e
envolvente como poucas conseguem ser.
É comum se ouvir dizer que os filmes de Haneke são apenas
"para quem tem estômago". O Vídeo de Benny é
a prova maior de que a sentença não se mostra exagerada.
Mas aqui, o incômodo não toma base em seqüências regadas
a sangue ou pancadas e, sim, na inteligente análise
crítica de uma personalidade e, acima de tudo, de uma
sociedade.
O VÍDEO DE BENNY (Benny's Video, Áustria/Alemanha,
1992)
Direção: Michael Haneke.
Elenco: Arno Fritsch, Ulrich Mühe, Angela Winkler,
Ingrid Stassner.
Cotação: *****
Este artigo é parte integrante da série
de textos "Sextas-Feiras
com Haneke". Confira, pois a cada sexta há
a publicação de um artigo inédito.
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