DAQUI A DOIS MINUTOS...
Adriano de Oliveira
 
 
Philip K. Dick (1928-1982) foi um dos mais empolgantes escritores de ficção científica do século passado. Um visionário, cujas versões de suas obras transpostas ao cinema geraram o fundamental "Blade Runner - O Caçador de Andróides" e o belo "Minority Report - A Nova Lei". O detalhe é que tais adaptações foram feitas de modo respeitoso aos textos, com a ação sempre situada em um futuro remoto, lugar onde Dick ambientava suas tramas com um senso de criatividade aguçado.

Ultimamente, a preguiça e a contenção de gastos vindas de roteiristas e produtores têm prejudicado a qualidade dos espécimes cinematográficos baseados nos escritos desse autor. Por comodidade e para obter uma melhor recepção do público, as histórias do escritor fugiram do palco futurista das páginas originais para se passarem, na versão em celulóide, no tempo presente. A primeira nesse sentido foi "O Pagamento", cujos resultados foram bons, e tosquiados de serem insatisfatórios, porque: 1 - a trama era suficientemente maleável para tal propósito sem precisar ser muito vilipendiada, e 2 - John Woo deu seu tradicional espetáculo estilístico de ação.

"O Vidente" não teve a mesma sorte. Porém, pediu para tanto. O conto de Dick que lhe deu origem, "The Golden Man", se passa num futuro pós-apocalíptico e tem por protagonista um mutante no melhor estilo dos X-Men, cujo grande dom é ver o seu futuro imediato. Preso por humanos "normais" para análise científica de seu comportamento, ele usa de suas notórias capacidades para fugir de seus captores. Daí para, neste filme, termos um mágico show-man (!) nos tempos atuais, convocado pelo FBI a usar seu dote de vidência para evitar um ataque terrorista em solo americano, é uma abissal diferença, que somente poderia redundar num tremendo desajuste.

Entrementes, os maus predicados do filme não se resumem a isso. As atuações do elenco são fracas: Nicolas Cage (ostentando uma tenebrosa peruca) continua canastrão como em "Motoqueiro Fantasma"; Julianne Moore, novamente interpretando uma agente do FBI tal a sua esquálida Clarice Starling de "Hannibal", repete aquele desastre cênico, e a "queridinha do momento" em Hollywood, Jessica Biel, segue exoticamente linda - e sem talento também -, como sempre. Peter Falk, o qual pode ser visto no ciclo Cassavetes atualmente exibido em Porto Alegre na obra de primeira "Uma Mulher Sob Influência", aparece numa ponta bastante dispensável. Entram em campo também várias inserções fracas de efeitos devido à computação gráfica e um roteiro que prima por ilógica e falhas de coesão.

Para não se dizer que a batalha está completamente perdida, é bom ressaltar: algumas coisas parcialmente salvam "O Vidente" de um vexame. Quem procura um thriller de ação sem se preocupar com os problemas supra-citados, achará nele uma diversão aceitável. Os mais atentos notarão no filme de Tamahori duas homenagens a Kubrick: um footage de "Dr. Fantástico" relembrando um impagável George C. Scott e também uma citação direta a "Laranja Mecânica". Resta ainda dizer que a jaqueta dourada a qual o personagem de Cage usa é referência ao "Golden Man" do livro de K. Dick e que a seqüência de créditos finais, usando flash-forward e ordem inversa de exibição, guarda agradável coerência com a proposta da fita.

O vidente de Cage no filme tem a propriedade de enxergar o que vai acontecer consigo dentro de dois minutos. Porém, essa película já nasce voltada para o passado, ao desperdiçar o potencial de seu texto-base. Alguém tem de avisar aos produtores que adquirem direitos de obras dickeanas para o cinema: são necessárias adaptações mais fiéis aos livros desse grande visionário. Enxerguem o futuro, mirando no futuro.

O VIDENTE (Next, 2007)

Direção: Lee Tamahori.

Elenco: Nicolas Cage, Jessica Biel, Julianne Moore, Peter Falk, Thomas Kretschmann.

COTAÇÃO: **