SPEAK ENGLISH, MARIA ELENA!
Ricardo Rangel
 
 
"Vicky Cristina Barcelona", o novo filme de Woody Allen, vem a confirmar a boa fase européia do cineasta nova-iorquino, com um novo estilo estético e de abordagem que adotou. Desde o excelente "Match Point", rodado e ambientado em Londres, passando pelo razoável "Scoop" e pelo muito bom "O Sonho de Cassandra", agora Allen passa sua história em Barcelona, construindo um "quadrado amoroso" entre Vicky (a belíssima e charmosa Rebecca Hall), Cristina (a não menos bela Scarlett Johansson, que se tornou definitivamente a nova musa de Allen), Juan Antonio (Javier Bardem, ótimo como sempre), e Maria Eléna (Penélope Cruz, impagável, em uma das melhores atuações da sua carreira), a perturbada ex-mulher de Juan.

Vicky está em Barcelona com Cristina para fazer pesquisa para o seu mestrado na cultura catalã. Ela está noiva de um yuppie nada-a-ver consigo, e por quem não sente nada. Cristina é "espoleta", vive intensamente, aproveitando as experiências, ao passo que Vicky é reservada e esconde sua infelicidade na vida pessoal: ambas encantam o pintor Juan Antônio, um sedutor que viveu um casamento conturbadíssimo com Maria Elena, que o atormentava e fazia da sua vida um inferno. Juan quer preencher um vazio existencial em seu coração, e encontra Vicky e Cristina perdidas também: o convite para irem passar um fim de semana em Oviedo, numa "cara de pau" notável do pintor, exercendo excelentemente a sua arte do galanteio (muitas mulheres podem encarar tal atitude tanto da parte de Juan como de Woody Allen como algo "machista", por considerar as mulheres como objeto: não creio ser este o caso, pois Woody magistralmente usa tal subterfúgio exatamente para fazer essa crítica, explorando muito bem o vazio e a complexidade dos relacionamentos) na sua abordagem às moçoilas (raparigas seria bem ali ao lado, em Portugal...). Vicky reluta, mas Cristina aceita e entrega-se a Juan Antônio, não sem antes "pintar" algo entre ele e a outra. Nesse ínterim, idas e vindas, Juan amasia-se com Cristina, Vicky casa com seu noivo que mais parece o "último americano virgem", - - além de "mala", é "caretão" demais para ela. Também nesse meio-tempo, Maria Elena retorna para infernizar a vida de Juan Antônio e Cristina, armando vários "barracos": Woody Allen, quando põe Maria em cena, retoma Pedro Almodóvar, fazendo uma homenagem ao cineasta espanhol, pois natural e automaticamente impregna o estilo tragicômico daquele em sua história. Penélope Cruz foi revisitada, parece estar sendo filmada pela ótica almodovariana, e as suas cenas, ótimas por sinal, trazem de volta à baila seu talento cômico descoberto pelo diretor de "Ata-me" e "Fale com Ela", dentre outros sucessos.

Allen, por sua vez consolida de vez seu cosmopolitismo, passando definitivamente a ser um cineasta do mundo, não apenas focado no seu universo particular de Nova Iorque, que rendeu ótimas produções, mas como é bastante prolixo, chegaria uma hora que iria "encher o saco". Woody soube ver isso e está trabalhando afinado com este cosmopolitismo, inclusive mudando sua maneira de filmar e as trilhas sonoras, substituindo o jazz underground nova-iorquino (apaixonante, aliás) por outros estilos, em conformidade com a ambientação das suas histórias.

O idioma e o choque cultural servem de metáfora para Woody Allen em "Vicky Cristina Barcelona", não é sem razão que intitulei esta resenha como "Speak English, Maria Elena!": ao voltar para casa, dividindo o mesmo teto que Juan Antonio e Cristina, Maria Elena, espanhola como Juan, nega-se propositalmente a falar em inglês, ao passo que Cristina e Vicky são norte-americanas "perdidas" na Europa. Juan fala em inglês, Maria Eléna também, mas ela insiste em "hablar español" para irritar Juan, já que Cristina não entende patavina da língua. Essa falta de comunicação entre ambas as distancia ainda mais, deixando o clima mais "pesado" do que já está, mas posteriormente as coisas mudarão de figura. É Allen jogando com as relações, mostrando tanto a banalidade quanto a complexidade de estar com uma pessoa pensando em outra, da paixão, da felicidade e da infelicidade, dos vazios existenciais, enfim. A falta de comunicação ao mesmo tempo prejudica e ajuda, dependendo do ponto de vista e da ótica adquirida; isto é ilustrado pelo bordão "speak english, Maria Elena!". Juan Antonio diz isto tantas vezes que não há como não se engraçar com a hilariedade das situações, ridículas e constrangedoras para todos, não menos para Cristina, que se vê entre marido e ex-mulher na mesma casa. Ponto para Allen, mais um, já que ele tornou-se, como havia falando antes e a meu juízo, cosmopolita e "cidadão do mundo" (pelo menos do primeiro mundo). Bem que ele poderia aventurar-se no terceiro mundo, filmando aqui pelo Brasil ("Brazil"), quem sabe. O que não seria podermos imaginar num filme seu rodado pelas bandas tupiniquins, por exemplo, algo como Rodrigo Santoro dizendo para Alice Braga "fale português, menina"? Aí sim, de fato, o "madeirinha" Allen se tornaria universal!



VICKY CRISTINA BARCELONA (idem, 2008)

Direção: Woody Allen.

Elenco: Javier Bardem, Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Penélope Cruz.

Cotação: ****