A SORRIDENTE MÁSCARA DA POLÊMICA
Alexandre Mesquita
 
 

Transformar livros e, mais recentemente, histórias em quadrinhos, em filmes é algo que sempre gera discussões a respeito de quem é melhor. Invariavelmente, terminam pró-literatura. Considero essa uma contenda injusta - livros e quadrinhos possuem tantas páginas e detalhes quanto necessários para satisfazer a intenção do autor em contar bem sua história. Um filme, mesmo contando com o poder das imagens em movimento, se passar de duas horas corre muitos riscos. Para uma comparação justa, é necessário o critério de equilíbrio de forças. A minha avaliação é focar o objetivo a que livro/quadrinhos e filme se propõem, e analisar se eles, cada um à sua maneira, cumprem bem esse objetivo durante as etapas de início, meio e fim. Cumprir bem significa satisfazer a expectativa colocada no leitor/espectador durante o início e meio da obra. Não é das tarefas mais difíceis fisgar leitor ou platéia sugerindo, por exemplo, um mistério (Quem matou Odete Roitman? ou Quem matou Lineu?) ou um amor proibido (ela da nobreza, ele ex-assassino psicopata), ou um terrorzinho (toda meia-noite, passos e vozes no apartamento de cima que está desabitado há anos após a proprietária ter cometido suicídio), ou, para os chegados na criatividade, juntar tudo isso na mesma história. Mas, e o depois? Encrenca mesmo é resolver os imbróglios propostos de maneira consistente, satisfatória e com alguma originalidade. Na minha opinião, quem harmoniza melhor este conjunto ao apresentar a solução, independente de ter mais riqueza de detalhes ou imagens mais bonitas, leva o prêmio.

Uma oportunidade para praticar tal análise é oferecida pelo lançamento, agora em DVD, do filme V de Vingança (V for Vendetta, EUA, 2005), baseado na homônima e consagrada minissérie dos quadrinhos, escrita por Alan Moore e desenhada por David Lloyd. Alan Moore dispensa apresentações quando o assunto é roteiro em quadrinhos. Para muitos, é o maior artista vivo desta arte. Obras suas como Watchmen (considerada por esses muitos a maior obra dos quadrinhos já produzida), A Piada Mortal, Monstro do Pântano, Miracleman são exemplos dourados do que é possível criar com a união dos desenhos, cores e letras. Dono de um estilo elegante e altamente criativo, costuma juntar erudição literária (sem soar pedante) com tramas complexas e muito bem costuradas. Para se ter uma idéia do que representam essas virtudes, Moore, como é natural, exerceu grande influência sobre os novos candidatos a roteiristas nos anos noventa, daí surgiram alguns caras como o formidável Neil Gaiman, de Sandman, mas também pegaram o bonde uma centena de imitadores sem nenhum talento. Volta e meia aparecia um Batman socando vilões e defendendo uma tese em filosofia ao mesmo tempo, ou um Monstro do Pântano em que não sabíamos se ele estava expulsando alienígenas ou imitando o Mário Quintana.

A idéia de V de Vingança surgiu no início da carreira de Moore (aos vinte e dois anos), quando ele participava de concursos de roteiros da DC Thomson. Bolou uma história sobre um justiceiro de rosto pintado chamado O Boneco que operava num futuro próximo (a trama foi desenvolvida durante a década de oitenta e o futuro próximo era o final da década de noventa) em que a Inglaterra era conduzida por um regime totalitário dos mais opressores (alusão ao governo de Margaret Thatcher). Inicialmente as aventuras do justiceiro não sensibilizaram juízes de concurso nem editores. Porém, um amigo seu, o desenhista David Lloyd, foi chamado pela jovem editora Warrior para escrever uma história de mistério ambientada nos anos trinta. Lloyd convidou Moore para ajudá-lo no roteiro. As dificuldades de Lloyd em retratar os cenários de época levaram ambos a abandonar a ambientação histórica. Como quem não quer nada, Moore perguntou se não seria mais fácil levar a trama para um futuro próximo totalitário onde um certo Boneco operava. E assim renascia um roteiro. A reestruturação do personagem central foi um caso à parte. Lloyd queria que ele se aparecesse todo de preto, com máscara e um V na camisa. Moore achou muito óbvio. Ocorreu-lhe adotar a imagem folclórica (e ao que parece, querida) de um terrorista britânico chamado Guy Fawkes, que no séc. XVII, em um 5 de novembro, tentou explodir o prédio do Parlamento. Imaginou um personagem que fazia suas estripulias usando uma máscara do Fawkes. Com a concordância de Lloyd nascia Codinome V, mascarado revolucionário, dono de inteligência, perspicácia e força física foras do comum, fruto do sistema totalitário ao qual combate. Prisioneiro de um campo de concentração onde artistas, homossexuais, intelectuais e todos "diferentes" às idéias do sistema eram exterminados, ele foi cobaia de experiências para o desenvolvimento de armas biológicas. Com as drogas que lhe injetaram, ele evoluiu fisicamente e, o principal, mentalmente a tal ponto que, juntando substâncias químicas para jardinagem, conseguiu explodir todo o campo de concentração onde estava e fugir para dar início à vendetta do título original. A história começou a ser publicada em preto-e-branco pela Warrior em 1981, mas não foi concluída devido ao fechamento da editora. Foi retomada, já em cores, oito anos depois pela americana DC Comics.

Quando li V de Vingança pela primeira vez, primórdios da década de 90, com meus vinte e poucos anos criados à base de Disney e Turma da Mônica, fiquei maravilhado com o cara da máscara risonha que, num clima bem gótico (que curiosamente estava em moda na época), conduzia um plano de vingança contra a tirania fascista explodindo prédios, matando policiais com rapidez de super-herói e, o que eu mais curtia, falando quase sempre através de citações literárias. Eu me sentia o verdadeiro intelectual lendo aquilo (me fazia acreditar que poderia ganhar gurias só repetindo V).

Recentemente, ao ouvir que os irmãos Matrix, Andy e Larry Wachowski, trabalhavam no projeto de levar Codinome V para a telona pensei em duas coisas: a) o potencial polêmico do filme: em certo momento, V explica para a segunda personagem principal Evey que a explosão de um prédio é plenamente justificável pois representa o símbolo de uma nova era; b) a questão onipresente no mundo dos quadrinhos sobre a impossibilidade de uma adaptação cinematográfica de uma obra de Alan Moore. Sempre li opiniões que a complexidade que Moore impunha a suas obras (como a utilização no limite de recursos que só os quadrinhos oferecem) seria dilacerada com a cruel perda de informação se não fossem contadas em, no mínimo, seis horas. Foi a choradeira sobre o sacrilégio de filmar Watchmen em apenas quatro horas e meia que levou este que vos escreve quinze anos atrás a procurar nas melhores bancas do gênero o que era esse tal Watchmen.

Depois de pensar nesses dois preocupantes itens, eu disse: Oba!

Até hoje Watchmen, o filme, não saiu do papel, mas presenciei duas adaptações de obras de Moore: A Liga Extraordinária e Do Inferno. A primeira foi um desastre. Porém, e posso estar assinando frente aos fãs mais exaltados de Moore (sei porque já fui um) alguma sentença não muito saudável para o meu lado, que os quadrinhos Liga Extraordinária, apesar da idéia extremamente bem sacada de juntar numa equipe alguns dos principais personagens da literatura, também não são lá essas coisas (fiquei muito decepcionado com o Volume 1 que li posteriormente ao filme).

E talvez minha situação com os fãs fique pior ainda quanto a Do Inferno.

É inegável o fato de Do Inferno de Moore ser extremamente rico em pesquisa e representar um documento obrigatório para quem está interessado em saber como funcionavam as coisas no bairro londrino de Whitechapel na época em que Jack, o Estripador resolveu mostrar seu poderio de fogo. Cada um dos volumes contém um apêndice muito informativo feitos pelo próprio autor sobre as fontes bibliográficas e suas interpretações das mesmas. Mas como a idéia aqui é comparar livros ou quadrinhos com suas adaptações cinematográficas valendo-me dos critérios estabelecidos no início deste texto, acredito que Do Inferno em quadrinhos não se apresenta equilibrado. Pode até ser coisa de físico rabugento, mas depois de degustar com muito entusiasmo um início e um meio de história cheio de tramas paralelas que prometiam muito, ver Moore (que adora fazer seus personagens ficarem pelados e terem a revelação de que o Universo e seus acontecimentos estão interligados, que passado, presente e futuro são a mesma coisa, etc, etc.) propondo aquele final juntando mecânica quântica, superposição de ondas, percepção do futuro...com motivação para crimes em série, terminei a última página com a impressão que tinha engolido um cactus. É um exemplo do que mesmo a criatividade e ousadia, quando não controladas, podem dar um tiro no próprio pé. Do Inferno filme, dos irmãos Hughes, é mais enxuto e menos pretensioso. Prende-se ao mistério de descobrir quem é Jack (o que nos quadrinhos é colocado desde o início, pois a proposta ali é outra) e tenta incorporar, na medida do possível, elementos marcantes da história em quadrinhos, como a sugestão do envolvimento da realeza britânica, mas não se fixa nelas. Acho que foi mais feliz no equilíbrio do conjunto. Portanto, sobre estes critérios, considero o filme superior aos quadrinhos.

Bem, finalmente vamos a V de Vingança filme. Eu diria que enquanto história é mais "filmável" que Do Inferno. Mas, como transpor para a telona nos dias de hoje um herói que invade a emissora de televisão estatal com explosivos pelo corpo, que põe abaixo prédios do governo ouvindo Tchaikovski e regendo fogos de artifício, e que mata quantos forem necessários para afirmar sua ideologia? E aí, irmãos Wachowski? E aí, antigo assistente de produção e agora diretor James McTeigue? Como lidar com isso numa época em que misturar heroísmo com métodos terroristas pode trazer encrenca não apenas com críticos cinematográficos? Eu imaginava que os irmãos recorreriam à liberdade poética para garantir outros tipos de liberdade para o seu lado. Acertei (e errei) em parte. A maior parte das modificações com relação aos quadrinhos foi estabelecida em nome da coerência de época e da economia de tempo. E a maior parte situa-se nos detalhes. Saiu o futuro negro do final da década de noventa e entrou o futuro logo ali de 2020. Embora a estrutura tenha sido enxugada, como a supressão de boa parte dos personagens secundários, lá estão os mesmo órgãos de controle do governo, o Dedo, o Nariz, o Olho, a Boca. V é o mesmo que fugiu de um campo de concentração explodindo-o. Suas intenções de vingança e atos também foram mantidos. Mas há nele algo mais humanizado. Nos quadrinhos, V parece uma entidade soberana, preocupada em ser mais um idéia do que um homem, conduzindo os acontecimentos e sapateando com tranqüilidade sobre a cabeça de um governo barata-tonta. No filme, ele comete erros, se apaixona no sentido romântico do termo e diverte-se quase como uma criança quando assiste a O Conde de Monte Cristo (embora, o que me deixou nostalgicamente muito feliz, ele continua surrando ou enlouquecendo todo mundo com suas famosas citações literárias). Bravo para Hugo Weaving (ele mesmo, a cara do Agente Smith) que, com a sufocante tarefa de ficar um filme inteiro mascarado, caracterizou, através de inflexões de voz e linguagem corporal inspirada, um personagem marcante: o V de Hugo Weaving.

E também no meio da guerra entre Codinome V e o sistema, surge Evey Hammond (Natalie Portman, recuperando-se muito bem do estrago que George Lucas fez com ela em Star Wars, A Vingança dos Sith), uma pós-adolescente que é salva por V de ser presa pelos Homens-Dedo, a polícia secreta do regime, por estar na rua depois do toque de recolher. Nos quadrinhos, Evey inicialmente é um cachorrinho frágil abandonado no mundo em busca de um protetor. No filme, a jovem já entra com atitudes enérgicas que mostram tratar-se de uma pessoa que sabe o que quer. Mas a essência da importância do eixo Codinome V-Evey para a história idealizada por Alan Moore permanece intacta. V leva Evey para seu esconderijo (por motivos diferentes no filme e nos quadrinhos), não apenas seu esconderijo material - a Galeria Sombria -, mas para dentro de sua mente revolucionária. E lá, através de métodos de eficiente insanidade, atiça propositalmente em Evey ora admiração, ora medo, ora reconhecimento, ora sofrimento, ora ódio, ora amor. Talvez esteja ministrado neste olhar dela o sensor que tenta distanciar dos realizadores do filme qualquer idéia de que estão se posicionando pró ou contra V como manda o politicamente correto.

Na maior parte das duas horas e poucos minutos de sua duração, o filme mantém as melhores intenções de sincronismo com os quadrinhos. Apenas bem lá no final aparece uma diferença significativa: um sugerirá a continuidade, e outro, um gran finale dos mais apoteóticos. Motivos para sugestões construtivas aparecem aqui e ali, porém se algo merece um ranço sério com o roteiro e com o diretor é a reação do povo. Extremamente artificial. A resposta da população é um aspecto importante, pois o que é Codinome V senão socialismo+anarquismo+filosofia em ação ("aqui dentro não há carne, apenas uma idéia e idéias não morrem")? Do jeito que é mostrado, passa a impressão de que o aperfeiçoamento ideológico dos cidadãos previsto como necessário pelo personagem principal para um mundo melhor é substituído simplesmente pela mudança de devoção das pessoas do governo de Adam Sutler (John Hurt, excelente como líder tirano) para o de V. Cordeirinhos que rapidamente mudam de pastor segundo a conveniência. Nesse ponto, Alan Moore dá um banho.

Mas afinal, análise feita, critérios de julgamento colocados, quem ganha este round? Quadrinhos ou cinema? Reli V de Vingança quadrinhos logo após ter visto o filme e, embora não exerça mais o efeito de dez anos atrás, com certeza nos critérios, o gibi é melhor. Mais coeso em sua proposta e mais forte onde o filme falha. Porém, V de Vingança filme, longe da palavra obra-prima, esforça-se com competência para representar bem a minissérie que o inspirou. E carrega o bom consolo de poder ser enquadrado dentro de um leque de adjetivos que vai desde recomendável até estupendo, dependendo do gosto ou ponto de vista.

Para encerrar, há quinze anos atrás, procurei Watchmen nas melhores bancas. Descobri que estava esgotado há mais de um ano. Única esperança: os sebos. Achei um exemplar pendurado numa estante dentro de um plástico no sebo mais tradicional do Centro de Porto Alegre. Ao seu lado, tão fora de catálogo quanto, estavam V de Vingança, O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal, Elektra Assassina, Ronin, O Monstro do Pântano, Miracleman, Sandman, Liberdade, John's Constantine Hellblazer. Era o mundo dos quadrinhos de super-heróis adultos que abria os braços e dizia: "leve-me". Só que os preços afixados no plástico completavam: "venda sua família". Naquele dia, o único compatível com três anos de economias foi V de Vingança, minha primeira leitura no gênero. Desde então, meu elo com os quadrinhos foi marcado por uma relação de amor e ódio com os sebos. Eu vibrava quando recebia o telefonema: "sabe aquele Demolidor que você tava querendo, conseguimos", e ficava sem comentários quando completavam "pode vir sonhar que pode comprá-lo das oito da manhã até as sete da noite". Várias vezes, tive vontade de adotar a postura mais coerente que aquela situação de tirania exigia, vestir uma máscara risonha, chamar nas facas, explosivos e venenos altamente mortíferos. Só não o fiz porque não conseguia decorar citações literárias. Mal sabem eles do que escaparam.

V DE VINGANÇA (V for Vendetta, 2006)

Direção: James McTeigue.

Elenco: Hugo Weaving, Natalie Portman, Stephen Rea, Stephen Fry, Tim Pigott-Smith, John Hurt.

COTAÇÃO: ****