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Transformar livros e, mais recentemente, histórias
em quadrinhos, em filmes é algo que sempre gera discussões
a respeito de quem é melhor. Invariavelmente, terminam
pró-literatura. Considero essa uma contenda injusta
- livros e quadrinhos possuem tantas páginas e detalhes
quanto necessários para satisfazer a intenção do autor
em contar bem sua história. Um filme, mesmo contando
com o poder das imagens em movimento, se passar de duas
horas corre muitos riscos. Para uma comparação justa,
é necessário o critério de equilíbrio de forças. A minha
avaliação é focar o objetivo a que livro/quadrinhos
e filme se propõem, e analisar se eles, cada um à sua
maneira, cumprem bem esse objetivo durante as etapas
de início, meio e fim. Cumprir bem significa satisfazer
a expectativa colocada no leitor/espectador durante
o início e meio da obra. Não é das tarefas mais difíceis
fisgar leitor ou platéia sugerindo, por exemplo, um
mistério (Quem matou Odete Roitman? ou Quem
matou Lineu?) ou um amor proibido (ela da nobreza,
ele ex-assassino psicopata), ou um terrorzinho (toda
meia-noite, passos e vozes no apartamento de cima que
está desabitado há anos após a proprietária ter cometido
suicídio), ou, para os chegados na criatividade, juntar
tudo isso na mesma história. Mas, e o depois? Encrenca
mesmo é resolver os imbróglios propostos de maneira
consistente, satisfatória e com alguma originalidade.
Na minha opinião, quem harmoniza melhor este conjunto
ao apresentar a solução, independente de ter mais riqueza
de detalhes ou imagens mais bonitas, leva o prêmio.
Uma oportunidade para praticar tal análise é oferecida
pelo lançamento, agora em DVD, do filme V de Vingança
(V for Vendetta, EUA, 2005), baseado na homônima
e consagrada minissérie dos quadrinhos, escrita por
Alan Moore e desenhada por David Lloyd. Alan Moore dispensa
apresentações quando o assunto é roteiro em quadrinhos.
Para muitos, é o maior artista vivo desta arte. Obras
suas como Watchmen (considerada por esses muitos
a maior obra dos quadrinhos já produzida), A Piada
Mortal, Monstro do Pântano, Miracleman
são exemplos dourados do que é possível criar com a
união dos desenhos, cores e letras. Dono de um estilo
elegante e altamente criativo, costuma juntar erudição
literária (sem soar pedante) com tramas complexas e
muito bem costuradas. Para se ter uma idéia do que representam
essas virtudes, Moore, como é natural, exerceu grande
influência sobre os novos candidatos a roteiristas nos
anos noventa, daí surgiram alguns caras como o formidável
Neil Gaiman, de Sandman, mas também pegaram o
bonde uma centena de imitadores sem nenhum talento.
Volta e meia aparecia um Batman socando vilões e defendendo
uma tese em filosofia ao mesmo tempo, ou um Monstro
do Pântano em que não sabíamos se ele estava expulsando
alienígenas ou imitando o Mário Quintana.
A idéia de V de Vingança surgiu no início da
carreira de Moore (aos vinte e dois anos), quando ele
participava de concursos de roteiros da DC Thomson.
Bolou uma história sobre um justiceiro de rosto pintado
chamado O Boneco que operava num futuro próximo
(a trama foi desenvolvida durante a década de oitenta
e o futuro próximo era o final da década de noventa)
em que a Inglaterra era conduzida por um regime totalitário
dos mais opressores (alusão ao governo de Margaret Thatcher).
Inicialmente as aventuras do justiceiro não sensibilizaram
juízes de concurso nem editores. Porém, um amigo seu,
o desenhista David Lloyd, foi chamado pela jovem editora
Warrior para escrever uma história de mistério ambientada
nos anos trinta. Lloyd convidou Moore para ajudá-lo
no roteiro. As dificuldades de Lloyd em retratar os
cenários de época levaram ambos a abandonar a ambientação
histórica. Como quem não quer nada, Moore perguntou
se não seria mais fácil levar a trama para um futuro
próximo totalitário onde um certo Boneco operava.
E assim renascia um roteiro. A reestruturação do personagem
central foi um caso à parte. Lloyd queria que ele se
aparecesse todo de preto, com máscara e um V na camisa.
Moore achou muito óbvio. Ocorreu-lhe adotar a imagem
folclórica (e ao que parece, querida) de um terrorista
britânico chamado Guy Fawkes, que no séc. XVII, em um
5 de novembro, tentou explodir o prédio do Parlamento.
Imaginou um personagem que fazia suas estripulias usando
uma máscara do Fawkes. Com a concordância de Lloyd nascia
Codinome V, mascarado revolucionário, dono de
inteligência, perspicácia e força física foras do comum,
fruto do sistema totalitário ao qual combate. Prisioneiro
de um campo de concentração onde artistas, homossexuais,
intelectuais e todos "diferentes" às idéias do sistema
eram exterminados, ele foi cobaia de experiências para
o desenvolvimento de armas biológicas. Com as drogas
que lhe injetaram, ele evoluiu fisicamente e, o principal,
mentalmente a tal ponto que, juntando substâncias químicas
para jardinagem, conseguiu explodir todo o campo de
concentração onde estava e fugir para dar início à vendetta
do título original. A história começou a ser publicada
em preto-e-branco pela Warrior em 1981, mas não foi
concluída devido ao fechamento da editora. Foi retomada,
já em cores, oito anos depois pela americana DC Comics.
Quando li V de Vingança pela primeira vez, primórdios
da década de 90, com meus vinte e poucos anos criados
à base de Disney e Turma da Mônica, fiquei maravilhado
com o cara da máscara risonha que, num clima bem gótico
(que curiosamente estava em moda na época), conduzia
um plano de vingança contra a tirania fascista explodindo
prédios, matando policiais com rapidez de super-herói
e, o que eu mais curtia, falando quase sempre através
de citações literárias. Eu me sentia o verdadeiro intelectual
lendo aquilo (me fazia acreditar que poderia ganhar
gurias só repetindo V).
Recentemente, ao ouvir que os irmãos Matrix,
Andy e Larry Wachowski, trabalhavam no projeto de levar
Codinome V para a telona pensei em duas coisas: a) o
potencial polêmico do filme: em certo momento, V explica
para a segunda personagem principal Evey que a explosão
de um prédio é plenamente justificável pois representa
o símbolo de uma nova era; b) a questão onipresente
no mundo dos quadrinhos sobre a impossibilidade de uma
adaptação cinematográfica de uma obra de Alan Moore.
Sempre li opiniões que a complexidade que Moore impunha
a suas obras (como a utilização no limite de recursos
que só os quadrinhos oferecem) seria dilacerada com
a cruel perda de informação se não fossem contadas em,
no mínimo, seis horas. Foi a choradeira sobre o sacrilégio
de filmar Watchmen em apenas quatro horas e meia
que levou este que vos escreve quinze anos atrás a procurar
nas melhores bancas do gênero o que era esse tal Watchmen.
Depois de pensar nesses dois preocupantes itens, eu
disse: Oba!
Até hoje Watchmen, o filme, não saiu do papel,
mas presenciei duas adaptações de obras de Moore: A
Liga Extraordinária e Do Inferno. A primeira
foi um desastre. Porém, e posso estar assinando frente
aos fãs mais exaltados de Moore (sei porque já fui um)
alguma sentença não muito saudável para o meu lado,
que os quadrinhos Liga Extraordinária, apesar
da idéia extremamente bem sacada de juntar numa equipe
alguns dos principais personagens da literatura, também
não são lá essas coisas (fiquei muito decepcionado com
o Volume 1 que li posteriormente ao filme).
E talvez minha situação com os fãs fique pior ainda
quanto a Do Inferno.
É inegável o fato de Do Inferno de Moore ser
extremamente rico em pesquisa e representar um documento
obrigatório para quem está interessado em saber como
funcionavam as coisas no bairro londrino de Whitechapel
na época em que Jack, o Estripador resolveu mostrar
seu poderio de fogo. Cada um dos volumes contém um apêndice
muito informativo feitos pelo próprio autor sobre as
fontes bibliográficas e suas interpretações das mesmas.
Mas como a idéia aqui é comparar livros ou quadrinhos
com suas adaptações cinematográficas valendo-me dos
critérios estabelecidos no início deste texto, acredito
que Do Inferno em quadrinhos não se apresenta
equilibrado. Pode até ser coisa de físico rabugento,
mas depois de degustar com muito entusiasmo um início
e um meio de história cheio de tramas paralelas que
prometiam muito, ver Moore (que adora fazer seus personagens
ficarem pelados e terem a revelação de que o Universo
e seus acontecimentos estão interligados, que passado,
presente e futuro são a mesma coisa, etc, etc.) propondo
aquele final juntando mecânica quântica, superposição
de ondas, percepção do futuro...com motivação para crimes
em série, terminei a última página com a impressão que
tinha engolido um cactus. É um exemplo do que mesmo
a criatividade e ousadia, quando não controladas, podem
dar um tiro no próprio pé. Do Inferno filme,
dos irmãos Hughes, é mais enxuto e menos pretensioso.
Prende-se ao mistério de descobrir quem é Jack (o que
nos quadrinhos é colocado desde o início, pois a proposta
ali é outra) e tenta incorporar, na medida do possível,
elementos marcantes da história em quadrinhos, como
a sugestão do envolvimento da realeza britânica, mas
não se fixa nelas. Acho que foi mais feliz no equilíbrio
do conjunto. Portanto, sobre estes critérios, considero
o filme superior aos quadrinhos.
Bem, finalmente vamos a V de Vingança filme.
Eu diria que enquanto história é mais "filmável" que
Do Inferno. Mas, como transpor para a telona
nos dias de hoje um herói que invade a emissora de televisão
estatal com explosivos pelo corpo, que põe abaixo prédios
do governo ouvindo Tchaikovski e regendo fogos de artifício,
e que mata quantos forem necessários para afirmar sua
ideologia? E aí, irmãos Wachowski? E aí, antigo assistente
de produção e agora diretor James McTeigue? Como lidar
com isso numa época em que misturar heroísmo com métodos
terroristas pode trazer encrenca não apenas com críticos
cinematográficos? Eu imaginava que os irmãos recorreriam
à liberdade poética para garantir outros tipos de liberdade
para o seu lado. Acertei (e errei) em parte. A maior
parte das modificações com relação aos quadrinhos foi
estabelecida em nome da coerência de época e da economia
de tempo. E a maior parte situa-se nos detalhes. Saiu
o futuro negro do final da década de noventa e entrou
o futuro logo ali de 2020. Embora a estrutura tenha
sido enxugada, como a supressão de boa parte dos personagens
secundários, lá estão os mesmo órgãos de controle do
governo, o Dedo, o Nariz, o Olho,
a Boca. V é o mesmo que fugiu de um campo de
concentração explodindo-o. Suas intenções de vingança
e atos também foram mantidos. Mas há nele algo mais
humanizado. Nos quadrinhos, V parece uma entidade soberana,
preocupada em ser mais um idéia do que um homem, conduzindo
os acontecimentos e sapateando com tranqüilidade sobre
a cabeça de um governo barata-tonta. No filme, ele comete
erros, se apaixona no sentido romântico do termo e diverte-se
quase como uma criança quando assiste a O Conde de
Monte Cristo (embora, o que me deixou nostalgicamente
muito feliz, ele continua surrando ou enlouquecendo
todo mundo com suas famosas citações literárias). Bravo
para Hugo Weaving (ele mesmo, a cara do Agente Smith)
que, com a sufocante tarefa de ficar um filme inteiro
mascarado, caracterizou, através de inflexões de voz
e linguagem corporal inspirada, um personagem marcante:
o V de Hugo Weaving.
E também no meio da guerra entre Codinome V e o sistema,
surge Evey Hammond (Natalie Portman, recuperando-se
muito bem do estrago que George Lucas fez com ela em
Star Wars, A Vingança dos Sith), uma pós-adolescente
que é salva por V de ser presa pelos Homens-Dedo, a
polícia secreta do regime, por estar na rua depois do
toque de recolher. Nos quadrinhos, Evey inicialmente
é um cachorrinho frágil abandonado no mundo em busca
de um protetor. No filme, a jovem já entra com atitudes
enérgicas que mostram tratar-se de uma pessoa que sabe
o que quer. Mas a essência da importância do eixo Codinome
V-Evey para a história idealizada por Alan Moore
permanece intacta. V leva Evey para seu esconderijo
(por motivos diferentes no filme e nos quadrinhos),
não apenas seu esconderijo material - a Galeria Sombria
-, mas para dentro de sua mente revolucionária. E lá,
através de métodos de eficiente insanidade, atiça propositalmente
em Evey ora admiração, ora medo, ora reconhecimento,
ora sofrimento, ora ódio, ora amor. Talvez esteja ministrado
neste olhar dela o sensor que tenta distanciar dos realizadores
do filme qualquer idéia de que estão se posicionando
pró ou contra V como manda o politicamente correto.
Na maior parte das duas horas e poucos minutos de sua
duração, o filme mantém as melhores intenções de sincronismo
com os quadrinhos. Apenas bem lá no final aparece uma
diferença significativa: um sugerirá a continuidade,
e outro, um gran finale dos mais apoteóticos.
Motivos para sugestões construtivas aparecem aqui e
ali, porém se algo merece um ranço sério com o roteiro
e com o diretor é a reação do povo. Extremamente artificial.
A resposta da população é um aspecto importante, pois
o que é Codinome V senão socialismo+anarquismo+filosofia
em ação ("aqui dentro não há carne, apenas uma idéia
e idéias não morrem")? Do jeito que é mostrado,
passa a impressão de que o aperfeiçoamento ideológico
dos cidadãos previsto como necessário pelo personagem
principal para um mundo melhor é substituído simplesmente
pela mudança de devoção das pessoas do governo de Adam
Sutler (John Hurt, excelente como líder tirano) para
o de V. Cordeirinhos que rapidamente mudam de pastor
segundo a conveniência. Nesse ponto, Alan Moore dá um
banho.
Mas afinal, análise feita, critérios de julgamento
colocados, quem ganha este round? Quadrinhos
ou cinema? Reli V de Vingança quadrinhos logo
após ter visto o filme e, embora não exerça mais o efeito
de dez anos atrás, com certeza nos critérios, o gibi
é melhor. Mais coeso em sua proposta e mais forte onde
o filme falha. Porém, V de Vingança filme, longe
da palavra obra-prima, esforça-se com competência para
representar bem a minissérie que o inspirou. E carrega
o bom consolo de poder ser enquadrado dentro de um leque
de adjetivos que vai desde recomendável até estupendo,
dependendo do gosto ou ponto de vista.
Para encerrar, há quinze anos atrás, procurei Watchmen
nas melhores bancas. Descobri que estava esgotado há
mais de um ano. Única esperança: os sebos. Achei um
exemplar pendurado numa estante dentro de um plástico
no sebo mais tradicional do Centro de Porto Alegre.
Ao seu lado, tão fora de catálogo quanto, estavam V
de Vingança, O Cavaleiro das Trevas, A
Piada Mortal, Elektra Assassina, Ronin,
O Monstro do Pântano, Miracleman, Sandman,
Liberdade, John's Constantine Hellblazer.
Era o mundo dos quadrinhos de super-heróis adultos que
abria os braços e dizia: "leve-me". Só que os
preços afixados no plástico completavam: "venda sua
família". Naquele dia, o único compatível com três
anos de economias foi V de Vingança, minha primeira
leitura no gênero. Desde então, meu elo com os quadrinhos
foi marcado por uma relação de amor e ódio com os sebos.
Eu vibrava quando recebia o telefonema: "sabe aquele
Demolidor que você tava querendo, conseguimos",
e ficava sem comentários quando completavam "pode
vir sonhar que pode comprá-lo das oito da manhã até
as sete da noite". Várias vezes, tive vontade de
adotar a postura mais coerente que aquela situação de
tirania exigia, vestir uma máscara risonha, chamar nas
facas, explosivos e venenos altamente mortíferos. Só
não o fiz porque não conseguia decorar citações literárias.
Mal sabem eles do que escaparam.
V DE VINGANÇA (V for Vendetta, 2006)
Direção: James McTeigue.
Elenco: Hugo Weaving, Natalie Portman, Stephen
Rea, Stephen Fry, Tim Pigott-Smith, John Hurt.
COTAÇÃO: ****
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