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Marcel Martin afirmava que o cinema é, de fato, uma
indústria, mas que o produto aí realizado não devia
ser "industrializado", ou seja, perder suas qualidades
artísticas em detrimento da venda. Tal como as catedrais,
cuja construção em "ritmo industrial" não impediu de
serem monumentos arquitetônicos de única beleza e valor
artístico, o cinema deve, ou deveria, contornar a cartilha
dos grandes estúdios e confeccionar produto fílmico
e não fuga para uma população ligada ao multiplex
que crê que o cinema se resume a pipoca com coca-cola,
explosões, beijos e happy ending.
Mesmo tendo os seus filmes produzidos e distribuídos
por grandes estúdios, os cineastas-irmãos Joel e Ethan
Coen se sobressaem com louvor na cena cinematográfica,
merecendo o título de auteurs porque não se rendem
ao humor fácil ou apelativo tão típico da indústria
hollywoodiana da qual fazem parte.
Educados pela escola noir, Joel e Ethan Coen
são nomes consagrados no que se refere à manufatura
de comédias críticas sobre a realidade - com evidente
influência do surrealismo, atrelado ao universo do crime,
da ilegalidade ou da fatalidade, como podemos observar
em obras tão díspares como E aí, meu irmão, cadê
você? (2000) e Onde os fracos não têm vez
(2007). A cada novo título, os Coen criam um universo
específico, geralmente plasmado por uma paisagem inóspita
povoada por personagens que ganham sua força cênica
nos rostos curiosos, que muito lembram os rostos fellinianos,
e no modo típico de falar de cada um, (incluindo aí
sotaques, erros idiomáticos, vícios de linguagem, falsetes
e imitações/contenções vocais - vide as diferenças incrivelmente
criativas pelas quais passam as personagens interpretadas
por George Clooney, um constante colaborador nos filmes
da dupla). Todos os filmes dos irmãos Coen, apesar de
retratarem a realidade, são uma espécie de "outro mundo",
um lugar que transita entre o possível cotidiano e o
desencadear de fatos que vão do horror ao drama social,
passando pela farsa, pela máfia, pelo drama psicológico,
pelo policial e humor negro. É dessa capacidade de criação
de outro mundo para suas histórias, que os irmãos Coen
estendem suas qualidades como cineastas únicos e originais,
mesmo quando apresentam obras de conteúdo menos impiedoso
e mais ralo que o habitual (porém nunca "industrial"),
como é o caso de Arizona nunca mais (1987) e
O amor custa caro (2003).
Em Um homem sério (2009), a dupla retoma sua
idiossincrática e ácida veia trágico-humorista, depois
do "western-killer" Onde os fracos não têm
vez, e da "comédia-de-erros" Queime depois de
ler (2008). Talvez um dos filmes mais formais dos
irmãos Coen - no que se refere à forma, principalmente
aos planos, todos rigidamente enquadrados em sequências
quase religiosamente "secas" e simples -, Um homem sério
é o desfile das desventuras do professor universitário
Larry Gopnik (incrivelmente interpretado por um ator
vindo do teatro, Michael Stuhlbarg), que vê, do dia
para a noite, toda a sua vida desmoronar-se. Dentre
tantas referências bíblicas contidas no filme, é impossível
não comparar a história de Larry Gopnik à história de
Jó. Porém, ao contrário da vida do Jó bíblico, que acaba
recobrando tudo o que houvera perdido, o Jó-Larry Gopnik
é torturado, literalmente, até o último minuto do filme.
Não há sequer um momento de alegria para este homem.
Em dado momento, pensa-se um pouco na sentença drummondiana
em Cidadezinha qualquer: "Eta vida besta,
meu Deus", mas logo vemos ruir essa ideia de que
não acontece nada na vida de Gopnik: acontece sim, mas
só desgraças.
Trabalhando em um terreno que conhecem bem, por terem
feito parte dele - a família judia do meio-oeste americano,
na segunda metade dos anos 1960 - os irmãos Coen conseguem
arrancar com dor alguns risos nervosos do espectador.
Mas a trama é tão tensa (relembra o suspense e a tensão
de Fargo, 1996) que não há espaço para muito
humor. Ainda para piorar a situação, a busca da personagem
principal por uma resposta divina acaba não dando em
nada. Deus simplesmente se cala, e cada rabino com quem
Larry Gopnik conversa parece desesperá-lo ainda mais.
Com o silêncio da família, a inutilidade das instituições
da qual faz parte, a ausência-silêncio de Deus, Larry
parte para uma auto-busca de significado para a vida,
mas acaba afundando em seus próprios escombros, que
não param de aumentar.
Um homem sério, como produto fílmico, é uma obra
para poucos. Os espectadores menos familiarizados com
a cultura judaica perdem parte do que está posto na
tela. Entretanto, o filme é um contundente crítica social.
A luta desesperada do protagonista para manter a calma
enquanto tudo rui ao seu redor é a atitude típica da
sociedade comunitariamente feliz, de hoje. A partir
do título, é possível inquirirmos algumas questões a
respeito do que é e de como se "forma" o caráter ou
a vida de "um homem sério". A atitude irritantemente
passiva do protagonista faz-nos perguntar se "ser sério",
ou um "bom cidadão", é aceitar pacificamente as avalanches
que nos acomete, e continuarmos exibindo a postura de
classe média realizada. Um referência clara a essa questão
da permanência estática frente às adversidades, é a
fala do aluno sul-coreano, que tenta suborná-lo:
- Por favor, aceite o mistério.
Os irmãos Coen cobram dos espectadores o uso da palavra.
A palavra surge aí, com uma grande libertadora. A personagem
principal nunca fala francamente sobre o que se passa.
Tudo é (mal) elaborado e passa a compor o quadro da
desgraça que aos poucos ganha força. Não só como conteúdo
de signo, para o roteiro extremamente enxuto deste filme,
mas como elemento formal, como já disse, a palavra é
de importância vital para os filmes de Joel e Ethan
Coen.
É curioso observamos como a dupla consegue espalhar
significações afirmando-as ou negando-as ferrenhamente.
Citemos dois casos: o primeiro, a afirmação, é talvez
o mais famoso, e trata-se dos primeiros takes
de Fargo, quando os letreiros afirmam que o filme
se trata de uma história real, fato que sabemos não
ser verdade. O segundo é a negação, e trata-se da negação
dos Coen de que E aí, meu irmão, cadê você? é
uma adaptação da Odisseia de Homero, fato que também
sabemos não ser verdade. Citei esses dois casos, porque
a dupla disse em entrevistas, que a pequena lenda iídiche
no início do filme não tem nada a ver com o resto da
história. Mas os fatos desmentem a afirmação - já citei
aqui que os Coen criam, a cada título, um mundo à parte
para suas aventuras. A pequena história que abre o longa
é um prólogo-epílogo, a "lição de moral", a junção dos
pontos que ficarão soltos na obra que se desenrolará
dali em diante. Em resumo: uma vila no leste europeu.
É um noite fria. Um homem chega em casa, e diz ter encontrado
um conhecido da esposa, ao que ela responde estupefata
que é impossível, pois este conhecido está morto há
três anos (preste atenção aos simbolismos). A esposa
então sentencia que o casal foi amaldiçoado por Deus.
Nas sequências que se seguem, o espectador fica realmente
sem saber o que pensar daquele personagem curioso: trata-se
ou não de um espírito? A tragédia, o crime e a dúvida
aparecem nessa introdução surreal do filme. Mais para
o final da película, em uma de suas aulas, Larry falará
do Princípio da Incerteza. Eis o espírito do filme:
tudo converge para que ele seja (sem ser) uma história
urbano-judaica de terror.
Após os créditos iniciais, duas narrativas seguirão
mostradas paralelamente até o desfecho da obra. Pai
e filho são mostrados em suas diferentes atividades.
O pai está em um consultório, fazendo exames de rotina.
O filho, em uma sala de aula, ouve Somebody to love
do Jefferson Airplane, em seu pequeno rádio, enquanto
um velho professor conjuga um verbo em hebraico. Vale
aqui duas observações. A primeira delas, é que o filme
levará até o final essa dualidade dos mundos do pai
e do filho. Até no desfecho da obra, tanto um quanto
outro estão frente a frente com uma (possível?) tragédia.
A segunda, é que a relação espiritual também está posta
nesse molde. O filme também é a contraposição de um
mundo de fé, cujo Deus nunca se pronuncia, e o mundo
dos homens sérios, os filhos desse Deus silencioso.
A essa narrativa de dois mundos, tragédias é vícios
são inseridos: o filho é viciado em maconha e rock,
e mal consegue decorar os textos para o seu Bar Mitzvah.
O pai é viciado no legalmente correto e de certa forma,
também em trabalho. Soma-se a isso a própria culpa que
o pai sente por sua passividade e um culpa pior ainda,
quando se afasta dela e altera a voz ao telefone, com
o serviço de vendas da Columbia Records. A esse
universo acrescenta-se o vício em jogos e a doença do
irmão de Larry, o vício em beleza de cabelos de sua
filha, a infidelidade da esposa, o suborno de um aluno,
a tentativa de processo do pai do aluno - sob acusação
de difamação, o que é muito irônico, e as cartas anônimas
que denigrem a imagem de Larry perante o Conselho da
Universidade. Como se pode observar, os irmãos Coen
minimizaram em um contexto-mundo único, toda a sociedade
e o seu funcionamento: burocracia, corrupção, vício,
supérfluos, traição, descrença e lazer auto-destrutivo.
Com um olhar pesado e rancoroso para o o funcionamento
do mundo, Joel e Ethan Coen nos apresenta uma obra pessimista,
que retira a voz até da instância divina. O desamparo
do homem frente ao mundo e à sua fé, e a obrigação de
ter de lidar com isso é a chamada final do filme, que
inclusive, pode trazer (pasme!) algo pior, seja um furacão
ou a possibilidade de uma doença mortal. É como se os
cineastas perguntassem: este é o mundo doente e viciado
em que vivemos? Ninguém vai romper o ciclo do silêncio?
E aí eles mesmos respondem: o filho de Larry, de frente
para o furacão, tenta pagar ao garoto gordo os 20 dólares
que lhe deve. Talvez em seu último momento, a única
coisa que ele conseguiu pensar em fazer, foi saldar
a dívida. O pai, por sua vez, ao ouvir o chamado imediato
e urgente do médico, à sua clínica, silencia-se por
completo. E a bandeira dos Estados Unidos tremula violentamente
ao forte vento que só aumenta (alusão à crise econômica
do país?). Fade out. Fim do filme. Se ninguém
rompe o silêncio, ou se a maior preocupação é com a
dívida, voltamos para o ponto de onde partimos - a dúvida
e o título: Um homem sério. Eis a sociedade exposta
pelos cineastas. Assim, sob um olhar pasmo para "a câmera
que filma os dias", o espectador se vê concordando em
viver pacificamente, como as personagens da grande tela.
Sérios. Sempre sérios. O que faz com que o filme dos
irmãos Coen esteja mais próximo da realidade do que
muitos documentários que tem aparecido. Se ninguém fala,
fecha a cara, se recusa, faz greve da única coisa que
possivelmente pode mudar o destino de alguém destinado
a ser levado por um furacão. Talvez por isso o filme
tenha sido tão rejeitado e agradado tão pouco: porque
toca nas feridas abertas de uma sociedade passiva, que
apesar das desgraças, permanece feliz, imersa em tecnologia.
Uma típica sociedade de homens sérios.
UM HOMEM SÉRIO (A serious man, EUA, 2009)
Direção: Joel e Ethan Coen.
Elenco principal: Michael Stuhlbarg, Sari Lennick,
Richard Kind, Fred Melamed, Aaron Wolff, Jessica McManus,
Adam Arkin, Simon Helberg, Adam Arkin, George Wyner,
Katherine Borowitz.
Cotação: ****
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