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Assim como as adaptações literárias para o cinema devem
ser vistas não pela semelhança ou riqueza de detalhes
que conservam do original, mas sim pela criação fílmica
em si - são produtos e linguagens completamente diferentes
-, as séries feitas para a televisão devem ser vistas
como um produto de entretenimento para uma massa de
espectadores (a faixa etária e o tipo específico de
público-alvo variam conforme censura e temática de série
para série: o público de Friends dificilmente
se interessará por uma série como The Tudors
ou Roma, por exemplo), que pretendem alcançar
o maior número de audiência possível através de um programa
estruturalmente novelístico, sendo um episódio, e as
possíveis temporadas, continuação do anterior (nas sitcom
essa relação de continuidade é mais maleável). Com o
desenvolvimento da tecnologia digital nos anos 1990,
as séries de TV ficaram cada vez mais parecidas com
os filmes de cinema, a ponto de o Episódio Piloto de
Lost (09/2004) ter custado cerca de US$ 14 milhões,
valor que corresponde geralmente ao orçamento de um
filme de Woody Allen.
Twin Peaks foi uma série criada por Mark Frost
e David Lynch, e teve apenas duas temporadas (1990 -
1991), com 29 episódios mais o Episódio Piloto. Todavia,
isso bastou para que a série entrasse para o halldos
melhores programas de TV de todos os tempos.
David Lynch jamais havia feito algum trabalho para a
televisão antes de Twin Peaks, e o convite para
a realização da série, certamente se deu pelo sucesso
de seu filme anterior, Veludo Azul (1986). Mark
Frost já conhecia a produção para a TV, mas como escritor
de poucos episódios para algumas séries no final dos
anos 1970 e início dos anos 1980. Dois grandes criadores
de universos reunidos para fazer um programa de televisão:
o resultado, certamente, seria algo totalmente diverso
daquilo a que o público estava acostumado ver.
Apesar de ser uma série de TV, Twin Peaks não
se encaixou no padrão comercial (em nenhum sentido ou
categoria) dos produtos realizados para a pequena tela,
como citamos no início. Assim, é um grande espanto perceber
que uma rede tão conservadora quanto a ABC tenha patrocinado
algo tão fora do normal televisivo e rentável produto
audiovisual. O estranho mundo inventado por Lynch e
Frost recebeu carta branca da produtora para um Episódio
Piloto, e mesmo relutante, para sete episódios iniciais,
que se transformariam na primeira temporada da série.
No dia oito de abril de 1990, Twin Peaks estreou
na ABC, com um Episódio Piloto de quase duas horas de
duração, dirigido por David Lynch - uma das melhores
coisas já feitas para a TV, por toda a densidade e amplitude
que a história ganha, já de início. O estrondoso sucesso
da exibição de estreia foi acompanhado pela pergunta
que ergueria e derrubaria a série: "Quem matou Laura
Palmer?" . Na "versão europeia" do Episódio Piloto,
há a inserção de uma sequência final, praticamente um
esquete, porque não se encaixa necessariamente em nada
do que foi apresentado antes: a sequência da Sala Vermelha,
que na temporada seguinte seria identificada como uma
passagem ou a ante-sala de uma outra dimensão, o Black
Lodge. Nesta Sala Vermelha, todos falam as palavras
de trás para frente, dançam, geralmente andam para trás,
a lei da gravidade não existe, e coisas fantásticas
acontecem. Ao fim do Episódio Piloto, depois de um fade-out,
vemos uma sala de piso xadrez, com cortinas vermelhas,
sofás pretos, uma escultura grega (Vênus), e o título
do "esquete": VINTE E CINCO ANOS DEPOIS. Nessa
sala, a defunta Laura Palmer e um anão, conversam com
o agente Dale Cooper (já velho), o responsável pela
investigação da morte da jovem, durante o episódio.
Twin Peaks é uma cidade sombria, um vale cercado por
montanhas e rodeado por florestas de Abetos, sempre
castigados pelo vento incessante que se mistura à névoa
ou à neblina. Corujas e corvos são animais vistos frequentemente.
Apesar do aspecto assustador, é uma cidade pacata. Até
o assassinato de Laura Palmer. A partir de então, é
como se todas as máscaras começassem a cair, todos os
crimes fossem revelados e todas as mentiras descobertas.
A loucura, a repressão dos desejos, as neuroses e os
segredos dos ilustres cidadãos da cidade passam a ser
revelados. Ninguém é inocente em Twin Peaks e não há
absolutamente nenhuma verdade nessa cidade.
Após a morte de Laura Palmer, o agente do FBI, Dale
Cooper (Kyle MacLachlan) assume as investigações do
crime, ao lado do xerife local Harry S. Truman (Michael
Ontkean). Juntos, passam a reunir as peças do quebra
cabeça para chegar ao assassino, ao passo que uma série
de outros mistérios se apresentam, e ligações impensáveis
entre as personagens são reveladas.
A Primeira Temporada da série foi um sucesso espetacular,
com altos níveis de audiência, excelente crítica e o
surgimento de um mercado de marketing à sua volta, um
verdadeiro fenômeno cult, o que não era para
menos: tudo, absolutamente tudo dá certo no primeiro
ano da série. Cada episódio é um mistério, novas situações
e personagens aparecem, o submundo mascarado da cidade
vem á tona, a "vida paralela" de Laura Palmer é pausadamente
revelada, para horror dos que a conheciam como apenas
uma inocente colegial. Todo o elenco é fenomenal, inclusive
o elenco jovem. Cada diretor que assumia um episódio
da temporada imprimia sua marca pessoal, adicionava
elementos particulares, o que só enriquecia a série.
No último episódio da primeira temporada, um eletrizante
e maravilhoso episódio escrito e dirigido por Mark Frost,
há um dos maiores choques para o espectador, posto que
termina com uma arma baleando o agente Dale Cooper,
na porta de seu quarto, no Great Northern Hotel. Nunca
se desejou tanto o início de uma próxima temporada.
A possível morte de Cooper, o incêndio na Serraria,
o mistério do Dr. Jacoby, a possessão demoníaca de Leland
Palmer e o desenvolvimento da personagem de BOB, um
demônio, fizeram da Primeira Temporada de Twin Peaks
uma explosão cult da televisão americana, e o
fim da temporada intensificou ainda mais todas as dúvidas
e sensações através do magnífico episódio sete: The
Last Evening.
A Segunda Temporada começa com o episódio May the
Giant Be With You, (de uma hora e meia), dirigido
por David Lynch. Os elementos surreais e o mundo onírico
abrem as portas que ainda estavam fechadas. Aparece
um gigante-mentor e um velho-anjo. Perturbações mentais
assolam algumas personagens. O mistério de Twin Peaks
continua. No quinto episódio (e em mais alguns outros)
Lynch faz o papel do agente Gordon, o chefe surdo de
Dale Cooper. Sonhos, intrigas, aparições surrealistas
em um bar, e recados do além ganham significação real
na trama. Até chega o episódio que arruinou a série,
o episódio onde o assassino de Laura Palmer é revelado.
Embora o intrigante tom do discurso da Senhora do Tronco,
ao início do episódio, tente abrir possibilidades futuras,
a aura crepuscular do discurso é inevitável:
- Então agora vem a tristeza. A revelação. Há uma
depressão depois que uma resposta é dada. Era quase
divertido não saber. Sim, agora nós sabemos. Pelo menos
sabemos o que procurávamos no começo. Mas ainda há a
questão: "Por quê?". E essa questão vai continuar e
continuar e continuar, até a resposta final chegar.
Aí o saber vai ser tão completo, que não haverá espaço
para questões.
A partir desse momento tudo perde o interesse em Twin
Peaks. Não há mais a medula, o segredo estrutural
do qual se ramificava toda uma série de possibilidades.
Tão rapidamente quanto ganhou, a série passou a perder
espectadores. A ABC mudou diversas vezes o horário e
o dia de transmissão do show, o que dificultava ainda
mais a localização do espectador. Para piorar a situação,
Mark Frost e David Lynch estavam envolvidos em outros
projetos (Storyville e Coração Selvagem,
respectivamente), o que dificultou ainda mais a retomada
de um fio de interesse que pudesse ser desenrolado satisfatoriamente,
retomando os elementos de suspense e encantando novamente
os fãs do programa.
Para tentar salvar a audiência que despencava a cada
episódio exibido a partir do episódio 2.10 (evidente
resultado da revelação do assassino e não continuidade
do nível de produção obtido até então), diversos astros
foram convidados para incompreensíveis participações
especiais. Apenas no fim da temporada as coisas voltaram
aos trilhos e a série voltou a ser tão interessante
quanto fora no início, com novos temas sendo trabalhados
e novas portas-mistério sendo abertas - mas já era tarde
demais. Apesar da genialidade do episódio Beyond
Life and Death, o último episódio da segunda temporada,
cheio de temas-enigma, inclusive com o agente Cooper
sendo possuído pelo demônio BOB após sair do Black Lodge
e Audrey morrendo com a explosão do banco, Twin Peaks
chegou ao fim: não haveria uma próxima temporada.
Mesmo quase duas décadas depois, assistir à série é
uma experiência maravilhosa. Lynch e Frost criaram uma
obra tão profunda e tão cheia de atalhos, que é preciso
vê-la e revê-la para que se possa abstrair todos os
detalhes.
Além da trama em si, é um desfile de genialidade técnica.
Dificilmente uma série de TV teve tanto espaço para
tantas mudanças de cenários simbólico-criativos (o que
requer uma espetacular direção de arte, e o que não
falta, na série), pelo menos até Heroes (2006).
Os outros elementos técnicos são de dar inveja a séries
contemporâneas: figurinos, maquiagem, fotografia, música
(essa, assinada pelo habitual e genial colaborador de
Lynch, Angelo Badalamenti), todos conseguem um desempenho
esplêndido, o que talvez explique o por quê a série
é tão cativante em todos os sentidos.
Twin Peaks foi um marco na televisão, obra de
dois criadores que não se adequaram ao show comercial
(aliás, parte da decadência do programa foi esse caráter,
adquirido pelos episódios após a revelação do assassino
e antes da retomada dos episódios finais), e que trouxeram
para a pequena tela muito mais do que entretenimento,
trouxeram arte, e arte das mais revolucionárias. Twin
Peaks ultrapassou a fronteira do programa de televisão.
Ela entrou no Black Lodge. Para sempre.
TWIN PEAKS (idem, EUA, 1990/91)
Direção: diversos.
Produção executiva: Mark Frost e David Lynch.
Elenco principal: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean,
Sheryl Lee, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Richard Beymer,
Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Warren Frost, Peggy
Lipton, Joan Chen, Kimmy Robertson, Eric DaRe, Ray Wise,
Russ Tamblyn, Don S. Davis, Grace Zabriskie, Heather
Graham.
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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