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O
TURISTA MAIS QUE ACIDENTAL
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Adriano
de Oliveira
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Da fineza de Paris à atmosfera romântica de Veneza,
do figurino impecável ornamentando o rimbombante corpo
de Angelina Jolie às tomadas panorâmicas que valorizam
o cenário, da escolha dos protagonistas à trilha sonora,
muito do que emana de "O Turista" ecoa num mantra:
a busca por um charme que foi típico de produções hollywoodianas
de cinco, seis décadas atrás. Ostentação atingida em vários
campos, como se pode perceber pelo já dito, mas que lhe
falta em outros tantos, no que veremos.
O filme em questão é remake da obra francesa de
2005, "Anthony Zimmer - A Caçada", no
Brasil lançada diretamente em DVD. No original, Sophie
Marceau precisava de maquiagem mínima e vestuário
menos pimpão que o de Jolie para seduzir um turista
interpretado por Yvan Attal e manipulá-lo, fazendo ele
passar por seu marido (o tal papel-título) perseguido
por mafiosos russos e pela polícia internacional. Para
o mesmo, digamos, "objetivo", o personagem de Angelina
veste roupas suntuosas (desenhadas pela figurinista Colleen
Atwood - talvez a mais próxima possível de ser chamada
de uma Edith Head contemporânea), abusa da cosmética e
resulta aos olhos dos espectadores como uma inalcançável
diva típica da era áurea de Hollywood -
tal o seu enfoque pelas lentes do diretor, que faz dela
uma figura vaporosa, celestial e justamente por isso artificial
demais para o papel que desenvolve na trama. Já Johnny
Depp, fazendo um papel mais "normal" para suas habituais
escolhas, diverte, apoiado em seus trejeitos cômicos...
e nada mais.
Ainda de elenco: Timothy Dalton, que já foi James Bond
nos anos 1980, aparece ironicamente como um burocrata
da Inteligência Britânica; Paul Bettany atua por entretenimento,
Raoul Bova faz uma ponta rapidíssima e Steven Berkoff,
o inesquecível vilão soviético de "Rambo II", também
surge ali.
A obsessão pelo requinte em "O Turista" acha voz
na fotografia de John Seale e na trilha de James Newton
Howard, que guarda às vezes um levíssimo toque herrmanniano.
Aliás, falando em Bernard, cuja associação com Hitchcock
é inevitável, vale lembrar que o diretor inglês deve ter
influenciado decisivamente o realizador deste filme, tanto
pelo binômio estilo+desenvolvimento vintage imprimido
aqui ao gênero ("Intriga Internacional" e "Os
39 Degraus", por exemplo) como pelo próprio esforço
em atingir ao belo.
Florian Henckel von Donnersmarck, de nome imponente (pelo
menos aos não-germanófonos), venceu o Oscar de Melhor
Filme Estrangeiro há uns anos atrás, com o excelente "A
Vida dos Outros". Como outros realizadores internacionais
agraciados com o prêmio, foi convidado para trabalhar
em Hollywood, seguindo, por exemplo, o rumo de Gavin Hood
(sul-africano que dirigiu o também vencedor "Tsotsi",
e a seguir, o filme solo do mutante Wolverine).
Não há como negar que ele tenha se deslumbrado com o aparato
técnico disponível e esquecido de detalhes importantes.
A primeira meia hora do filme é promissora e envolvente,
mas lá pela metade tudo cai no marasmo e na burocracia
fílmica. As cenas de ação são extremamente econômicas
em tiros, perseguições e sangue - algo em nome da polidez,
decerto. Johnny Depp fugindo pelos telhados venezianos
imita cena semelhante de seu Jack Sparrow em "Piratas
do Caribe 2". O romance engatado entre os protagonistas
tem pouca química. E o final do filme... ah, sim, ele
parece elegante e guarda um lindo plano conclusivo, mas
se apresenta insustentável frente a buracos da trama.
A roupa do rei de Roma pode ser luxuosa, mas, roída pelo
rato, deixa o soberano seminu.
O TURISTA (The Tourist, EUA/França, 2010)
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck.
Elenco: Angelina Jolie, Johnny Depp, Paul Bettany,
Stephen Berkoff, Timothy Dalton, Rufus Sewell.
Cotação: ** |
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