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Quando escrevi no blog "Ebulição"
(http://hablar.zip.net)
sobre Vicky Cristina Barcelona (2008), eu salientei
o fato de Woody Allen ser um dos cineastas observadores-analistas
mais argutos da cinematografia contemporânea. Em retrospecto,
todos os seus 42 filmes trazem uma observação cínica,
zombadora, trágica ou romântica da sociedade. Em cada
obra woodyana é possível encontrar, intrínsecas às neuroses
e aos comportamentos excêntricos das personagens, a
influência do mundo externo político, cultural, etc..
A cada uma de suas fases como cineasta (é válido lembrar
que Woody Allen dirige filmes desde 1969), um molde
analítico é destacado, e as obras daquele período se
encaixam nele. Apesar dessa frase parecer simplista
ou preguiçosa demais, não há um filme de Woody Allen
que possa ser considerado ruim ou que não tenha qualidade
artística. Algumas de suas obras são mais profundas
e belas ou melhor dirigidas que outras, mas é só.
Para que possamos entender essa "nova fase século XXI"
do cineasta, é preciso voltamos alguns filmes no tempo.
Estacionemos em 1999, ano do lançamento de Poucas
e boas, a película que inauguraria um período pejorativamente
denominado pelos críticos de "fase Woody light",
e que contaria com as seguintes obras: Trapaceiros
(2000), O Escorpião de Jade (2001), Dirigindo
no escuro (2002) e Igual a tudo na vida
(2003). Os filmes da fase "Woody light" são,
definitivamente (à exceção, talvez, de Poucas e boas),
os filmes mais "leves" de toda a carreira do diretor.
O que não significa que são menos geniais ou que não
possuam incursões artístico-críticas (a "nova burguesia"
em Trapaceiros, o cinema dos anos 1940 (com toques
noir) em O Escorpião de Jade, a metalinguagem
/ a indústria cinematográfica em Dirigindo no escuro,
a vida (com fortes doses existencialistas, pessimistas
e estoicas) em Igual a tudo na vida. Fato é que
esses filmes foram feitos realmente para provocar o
riso, mesmo "destruindo" certos comportamentos da época.
É nesta fase "Woody light", entretanto, que
se forma o embrião para a fase seguinte, quando o humor
de Woody Allen funde-se com sua experiência da "fase
Bergman" e adquire linha e toques pessoalíssimos, estruturando-se
sobre uma narrativa ácida, agressiva (moral, filosófica,
ética, direta ou indiretamente) e trágica, ao mesmo
tempo. O primeiro resultado dessa linha narrativa do
"humor-com-dor" foi o filme Melinda e Melinda
(2004), história-dupla narrada em "duas versões": cômica
e trágica. É, porém, em 2005, com o incrível Match
Point, que Woody Allen, iniciando sua fase europeia,
gira de vez a roda da fortuna de seus filmes. O trágico,
a narrativa provocativa e ácida passa a ser a condição
sine qua non o humor jamais viria. Em 2006, com
Scoop, Allen atua no que me parece que foi a
sua última participação como ator em um filme seu. É
claro que não podemos afirmar isso categoricamente,
mas o diretor não atuou em mais nenhuma de suas películas
(desde então, já foram quatro filmes finalizados, um
que está em fase de finalização e outro que já entrou
em pré-produção, e ao que tudo indica, Allen não atuará
nele também). Alguns críticos consideram que a morte
de Splendini ou Sydney, o personagem de Allen em Scoop,
foi uma espécie de finalização de uma era, de uma fase.
Apesar de concordar com eles, repito que não é possível
tomar isso como verdade absoluta, posto que a obra do
cineasta ainda está aberta, muitas surpresas podem vir.
Outro elemento que caracteriza a "fase europeia" de
Woody Allen, é a sua nova musa, a bela atriz Scarlett
Johansson. Dos quatro filmes desta nova fase, ela atuou
em três: Match Point, Scoop e Vicky Cristina Barcelona.
Em 2007, Allen lançou O Sonho de Cassandra. Terceiro
filme consecutivo do diretor, em Londres, selou a tendência
das novas abordagens de Woody Allen: o ataque à família,
às instituições e a investigação dos processos (i)morais
e (anti)éticos que permeiam toda a sociedade (algo que
já podemos ver em Crimes e Pecados, de 1989).
A iconoclastia de Luís Buñuel é a coluna que sustenta
o "novo Woody Allen". Em 2008, com Vicky Cristina
Barcelona, o cineasta embate artistica e culturalmente
o Velho e o Novo Mundo, além de ironizar com muito rancor,
a formação da família ou dos casamentos/relacionamentos
modernos. Em 2009, depois de quatro filmes consecutivos
na Europa, Woody Allen retorna a Nova York para filmar
Tudo pode dar certo (Whatever Works),
obra que carrega forte influência de sua experiência
no Velho Continente, e que transporta para sua cidade
e seu país, todo o ataque e acidez característica da
sua tetralogia europeia.
Tudo pode dar certo é o ápice do pessimismo
woodyano. O filme conta a história de Boris Yellnikoff,
incrivelmente interpretado por Larry David (que foi
massacrado por alguns críticos sob a acusação de tentar
imitar o tipo woodyano de atuação, o que, apesar de
não ser mentira, é injusto, dado o trabalho estupendo
que o ator realizou), um hipocondríaco gênio da Física
e indicado ao Prêmio Nobel, que conhece Melodie (Evan
Rachel Wood, em ótima atuação sob a direção de Allen),
uma jovem de 21 anos do interior do país, e de conhecimento
limitadíssimo, que passa a ser "ensinada, educada, civilizada"
por ele. Com um roteiro vintage (o filme teria
Zero Mostel no papel principal, mas foi engavetado depois
da morte do ator, em 1977), Woody Allen retoma a história
de Pigmalião, desta feita, revitalizada com especificidades
do século XXI e com citações da história recente dos
Estados Unidos e do mundo, com "a eleição de um presidente
negro" ou o Taliban. Aliás, citações históricas não
faltam neste filme. Há referências aos gregos antigos,
aos egípcios, aos maias e aos astecas.
Além da narrativa mais "solta", porém não menos pessimista,
que as da tetralogia europeia, Tudo pode dar certo
traz já nas sequências iniciais a metalinguagem explícita,
forma que o diretor não usava em tal magnitude desde
A Rosa Púrpura do Cairo (1985). Boris é a única
personagem do filme que sabe da existência de uma plateia
do outro lado da tela, e tenta mostrar isso, sem sucesso,
aos seus amigos. Há momentos em que ele se dirige aos
espectadores para discutir elementos da trama, como
por exemplo, o momento em que Melodie confessa estar
apaixonada por ele. Com isso, já vemos uma mudança na
atitude formal interna do filme, no que concerne à narrativa.
Allen já usou muito a figura do narrador em seus filmes,
o que sempre dá um tom de crônica às suas películas.
Em Tudo pode dar certo, o narrador não é off,
nem é totalmente sugerido pela montagem, pela trilha
sonora ou pela história auto-narrativa. O próprio Boris,
protagonista da história, dá a linha de andamento da
obra. Ele é agente e observador dos atos do filme, o
que faz de Tudo pode dar certo uma obra de força
e proximidade com o espectador muito grande. Além dessa
"onipresença" que atrai com cumplicidade a plateia,
o filme tem uma das melhores execuções de timing
de Woody Allen, e a mise-en-scéne
é tão comunicativa e tão forte, que o final não poderia
ser outro: todas as personagens do filme em uma sala,
comemorando a passagem do ano. As quebras narrativas
(cinco, ao todo), marcam fortemente cada minuto do filme.
Allen não permite que a história ultrapasse o limite
da desaceleração. Quando a sequência esgota sua força
narrativa, uma quebra de estrutura do roteiro se dá:
o aparecimento de Melodie; de Marietta - a mãe; do Sr.
Celestine - o pai; do "amante"; e a tentativa de suicídio
de Boris. O roteiro de Tudo pode dar certo é
extremamente consistente em sua estrutura, e muito rico
em seu conteúdo, embora os temas não sejam nada estranhos
à filmografia do diretor. Também vale citar que a direção
de Allen está mais contida que em seus últimos quatro
filmes.
Se o ataque neste filme é às instituições, em especial
a família, o motor da obra é a particularidade de cada
integrante desta roda burocrática, e sua mudança, quando
em contato com uma realidade que lhe mostra "a luz":
Marietta, com seus sonhos artísticos frustrados durante
tantos anos, termina como fotógrafa de corpos nus e
vivendo em um amoroso ménage-à-trois. Melodie
termina alcançando um alto nível intelectual e maturidade.
O próprio Boris, que, mesmo não perdendo o pessimismo
típico de sua personalidade, termina com um excelente
monólogo otimista na cena final. O pai de Melodie, membro
da Associação de Rifles, termina companheiro de alguém
que ele disse ser "praticante da crença homossexual".
Essa sequência é particularmente muito engraçada, posto
que a negação e a realidade se encontram, originando
o seguinte diálogo:
"- Mas você é...?
- Gay?
- ... praticante da crença homossexual?
- Você faz parecer uma religião... Se for, pode me considerar
um fiel, completamente fanático.
- Mas isso é contra as leis de Deus!
- Deus é gay.
- Como? Como pode dizer isso? Deus é o criador dos céus,
da terra, das plantas, das árvores, das cores...
- Pois é. Ele é decorador. "
Como se sabe, depois da escrita do roteiro, nada mais
é tão pessoal nos filmes de Woody Allen do que a trilha
sonora. Neste filme, particularmente, ele escolheu e
usou de forma muito ampla a música: jazz dos anos 1920,
e 1940 (o típico mundo musical de seus filmes); a 9ª
e a 5ª sinfonias de Beethoven, rock, pop, bossa-nova
e trechos de um musical de Fred Astaire.
Além desse amplo universo musical, a direção de arte
e as locações merecem um olhar mais fixo. Pode-se observar
que o interior da casa de Boris é relativamente desprovido
de coisas, enquanto o subúrbio onde mora (que compreende
um bairro chinês) é abarrotado de placas, cores, barracas,
objetos. Nesse caso, a fotografia de Harris Savides
acompanhou a descaracterização dos interiores, sempre
fotografados em tons fracos, escuros, com predomínio
de cores frias e ironicamente pontuado por luzes externas
de cores contrastantes - vide a cena em que Boris chega
da casa dos amigos e há uma luz verde e amarela reluzente
através da janela. Ele se move para a direita e a câmera
o acompanha em plano-médio, então, na segunda janela,
brilha uma fortíssima luz vermelha. A mesma coisa se
repete na cena final: do contraste das muitas luzes
da Quinta Avenida em pleno Réveillon, para uma sala
de estar quase completamente marrom, embora elementos
de outras cores (as luminárias chinesas) pontuem o aposento.
Não é forçoso identificarmos um contraste entre interior
e exterior do homem através das internas e externas
do filme.
Tudo pode dar certo é uma comédia pessimista
aparentemente simples. Seu conteúdo crítico é praticamente
um universo à parte. Woody Allen identifica nas neuroses
e questões pessoais relacionadas ao mundo, as causas
do mau funcionamento da família, o que gera insatisfações,
maus pais, maus casamentos, falsos fiéis, filhos desorientados.
No final, a descrença na humanidade é patente. Pseudo-feliz,
o desfecho do filme acende a chama das boas possibilidades,
mas retira toda a esperança de durabilidade desses momentos
de felicidade. Aos 74 anos, Woody Allen permanece com
o seu lema de "um filme por ano", que sustenta desde
Sonhos eróticos de uma noite de verão, de 1982.
E a cada ano, é impossível negar a sua profunda e peculiar
forma de ver o funcionamento meio circense do mundo
e de transformar isso em matéria bruta para inquestionáveis
filmes notáveis ou obras-primas. Nesse sentido, não
se pode furtar a inscrição do nome do cineasta no topo
da lista dos melhores diretores da atualidade.
TUDO PODE DAR CERTO (Whatever Works, EUA,
França, 2009)
Direção: Woody Allen.
Elenco principal: Evan Rachel Wood, Larry David,
Patricia Clarkson, Carolyn McCormick, Yolanda Ross,
Henry Cavill, Michael McKean, Nicole Patrick, Lyle Kanouse,
Adam Brooks.
Cotação: ****
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