SEM SEGREDOS
Adriano de Oliveira
 
 

Com "Onze Homens e Um Segredo" (2001), conseguiu-se realizar um remake superior ao seu original. Pudera, superar o filme de 1960 dirigido por Lewis Milestone - que já havia feito coisas muito melhores, como o clássico "Sem Novidades no Front" (1930) - e estrelado pelo "Rat Pack" (grupo de amigos famosos e bon-vivants, formado, entre outros, por Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. e Dean Martin) não era tarefa das mais difíceis. Já a seqüência da refilmagem, "Doze Homens e Outro Segredo", levada a cabo três anos depois desta, se afastou muito consideravelmente do espírito do filme de Milestone, e não apenas por isto foi uma tremenda decepção, advinda sobretudo de constituir um filme fragorosamente tedioso e vazio, a despeito de sua pretensão.

Lição aprendida, pois, e sem segredos: "Treze Homens e Um Novo Segredo" não precisa arriscar em renovar porque o primeiro já o fez, nem se dispõe em inovar como o segundo. Aposta, sim, as suas cartas em querer ser um filme do subgênero "mirabolante golpe com fins lucrativos" acima da média, pois é produzido com farta verba, se julga engenhoso na trama e possui um elenco estelar, o que evidentemente faria uma certa diferença em relação a outros do tipo. Mas querer não é poder.

Rebentos de uma produção ostentatória, os cuidados com a realização do filme conduzem a um resultado esmerado na qualidade de alguns itens como a fotografia e o design de produção. Soderbergh, além de diretor, também é o fotógrafo de "Treze Homens..." - embora utilizando o pseudônimo Peter Andrews -, e realiza na área um trabalho tão belo quanto pavonesco, indo de uma luz convencional a um forte uso de filtro azul, empregando desde câmera na mão até passeios virtuosísticos da mesma. Cenários opulentos marcam a maior parte das cenas da fita, a qual parcialmente sabe captar as capacidades de iludir e entreter que o cinema possui; tarefa que, aliás, fica facilitada pela presença de um elenco cheio de nomes conhecidos do público, ainda que tais astros aqui pontuem mais pela figuração. O casting básico das obras antecessoras é novamente reunido, e ganha agora como reforços, Al Pacino e Ellen Barkin. Curiosamente, esses dois contracenaram juntos anteriormente, em um filme de Harold Becker intitulado "Vítimas de uma Paixão" (1989), o qual, mais que um misto de suspense e policial, se mostrou um interessante estudo sobre a solidão e a paranóia urbanas, simples e eficaz.

E talvez simplicidade seja a palavra que mais falte ao cinema de nossos dias. "Treze Homens e Um Novo Segredo" é protótipo dessa ausência: um engenhoso plano de golpe, em um roteiro, não necessariamente significa um extenso uso de artefatos tecnológicos de ponta, nem centenas de detalhes a serem elaborados e executados. Bastam, ao roteirista e ao diretor de um filme do tipo, tão-somente saber iludir, bancar o esperto e se ater à realidade, como assim procedeu "Um Golpe de Mestre" (1973), de George Roy Hill, um dos mais competentes diretores que a Sétima Arte já teve - e um dos menos lembrados também, principalmente entre as novas gerações de cinéfilos. A morte de Hill em 2002 praticamente não teve repercussão alguma, e estamos falando de alguém que realizou outras obras essenciais como "Butch Cassidy & Sundance Kid" (1969) e "Matadouro Cinco" (1972). Voltando à questão, ainda que se possa ser simples e encantar no gênero, entretanto hoje o espetáculo cinematográfico se veste de um conceito básico mais calcado no deslumbre imediato (vindo do visual rico e do desfile de apetrechos da tecnologia moderna em cena) do que provido da habilidade de fascinar o pensamento. O pior acontece quando, na cabeça de um cineasta, esses dois fatores tão diferentes entre si se tornam indistinguíveis, tomando-os como algo único, o que resulta num erro crasso. Isso se torna um pecado a partir do ponto em que "Treze Homens..." almeja ir além de um entretenimento fácil (área onde também não atinge plenamente seu objetivo, pois consegue provocar bocejos durante a projeção), e o que era bônus virou ônus. Competir em duas mesas simultaneamente é jogada de risco.


TREZE HOMENS E UM NOVO SEGREDO (Ocean's Thirteen, 2007)

Direção: Steven Soderbergh.

Elenco: George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Don Cheadle, Elliott Gould, Bernie Mac, Ellen Barkin, Andy Garcia, Al Pacino.

COTAÇÃO: **