TOTALMENTE ARTIFICIALIZADOS
Adriano de Oliveira
 
 
Ok, publicar um texto criticando uma comédia romântica em pleno Dia dos Namorados vai contra o espírito da data. Porém, "Totalmente Apaixonados" faz por merecer isto, tamanha sua desnaturalidade.

No filme, temos dois casais aparentemente felizes, embora eles não saibam que estão à beira da ruptura. Um é formado pelo ex-publicitário de sucesso e agora "dono-de-casa" Tom (David Duchovny, um aluno de Doutorado em Literatura Inglesa que preferiu ser ator) e a reconhecida atriz Rebecca (Julianne Moore, fora das telas, a esposa do diretor da fita - o obscuro Bart Freundlich), tendo dois filhos em comum. Outro se constitui de um "ajuntamento" decorrente de um namoro de sete anos entre o inseguro Tobey (Billy Crudup, de "Quase Famosos" - literalmente) e a aspirante a escritora Elaine (a "sempre-uma-gracinha" Maggie Gyllenhaal), sendo que Tobey é irmão de Rebecca.

É difícil se identificar com os personagens centrais da história, quando estes têm vidas praticamente perfeitas, quase idílicas, e ainda assim conseguem criar conflitos, tanto internos quanto em suas relações amorosas. O quarteto central mais parece saído de um comercial de TV, do que crível de experienciar a vida real. Diferentemente de "Amigas com Dinheiro" - exibido em nossos cinemas no final do ano passado e que enquadra em parte a vida desta mesma classe econômico-social americana à qual pertencem os papéis principais do filme -, cujas forma e proposta tornaram o tipo de realidade retratada ficcionalmente na obra de Nicole Holofcener algo bastante aceitável, "Totalmente Apaixonados" prima pela artificialidade, tanto da trama, como de seus intérpretes.

Muitas de suas situações beiram o absurdo, personagens secundários entram e saem da trama sem mais nem menos, e ninguém parece estar à vontade em cena. Prova disto é o visível constrangimento de Crudup e, quem diria, inclusive a presença de uma Maggie Gyllenhaal careteira. Arrematando, a ruiva Julianne parece estar fazendo um favor ao marido diretor e Duchovny às vezes pensa ainda estar nos sets de "Evolução" (2001), comédia de ficção científica de Ivan Reitman.

O filme insiste em abordar a imaturidade e a traição masculinas como os pivôs da demolição das relações, o que não deixa de ser parcialmente verdade, entretanto perde a chance de aprofundar a abordagem de tais causas ou acrescentar a elas outros fatores que, certamente, contribuem para as separações. A superficialidade e o simplismo de "Totalmente Apaixonados" a fazem tão-somente uma comédia romântica inferior, capaz de arrancar alguns sorrisos amarelos e sem a habilidade de fazer pensar um pouco ou mesmo entreter razoavelmente - uma vez que, dada a virada central da história narrada, até o casalzinho distraído lá dos love seats no fundo da sala sabe como será o final desta. Como o amor é lindo...

TOTALMENTE APAIXONADOS (Trust the Man, 2006)

Direção: Bart Freundlich.

Elenco: David Duchovny, Julianne Moore, Maggie Gyllenhaal, Billy Crudup, Eva Mendes.

COTAÇÃO: *