THE BORING GAME
Adriano de Oliveira
 
 

Ainda não foi desta vez que um filme baseado em um game de sucesso consegue convencer. A história de uma jovem mãe procurando a cura para sua transtornada filha, numa cidade fantasma obstinadamente lembrada nos sonhos da criança, não ganha a platéia, talvez às exceções dos fanáticos pelo jogo e dos mais impressionáveis por atmosferas do que pela história contada.

A primeira hora (das mais de duas longuíssimas, arrastadas, desnecessárias e entediantes horas de projeção) é assinalada por berreiros sem fim e buscas inócuas - a filha se desgarra da mãe no local misterioso -, onde o nome Sharon (a menina-problema) é citado intermináveis vezes e nenhuma pista é dada pela narrativa. Na segunda metade, quando já nos cansamos de tanta vacuidade, o roteiro se encarrega de despejar todas as soluções com a sutileza de um tsunami, confundindo o espectador. O resultado desconsola qualquer um: até o cerebral crítico de cinema Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, admitiu ter sido enrolado. Nem Freud, nem o "malabarista cinematográfico" David Lynch, conseguiriam explicar certas partes da trama de modo claro. E, não duvide, nem o roteirista.

Quase tudo o que se espera de positivo de "Terror em Silent Hill" não se confirma. Seu diretor é Christophe Gans, francês celebrado, ainda de maneira supervalorizada, por "O Pacto dos Lobos" (2001), que aqui deixa claro: para ele, imagem e clima são tudo - um conceito discutível, podendo ou não satisfazer em primeira instância. É admissível que tal proposição se constitua uma ótica interessante, desde que não atrapalhe a narrativa, mas decididamente é o caso contrário que acontece aqui. De um roteiro de Roger Avary, co-autor de "Pulp Fiction" (1994), pede-se qualidade, embora este já mostrasse sinais de decadência por seu trabalho, não apenas de guionista, mas também de diretor, em "Regras da Atração" (2002) . Alice Krige, como a vilã Claudia Wolf/Christabella, limita-se a reinterpretar a sua atuação como a Rainha Borg de "Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato" (1996); não que isso seja necessariamente ruim, pois, a exemplo do trabalho onde se espelha, sua ação é muito convincente, entretanto é preciso se reinventar a cada papel, condição básica de um ator, de uma atriz.

Sobram a boa intenção da australiana Radha Mitchell, desperdiçada como a protagonista Rose e deslocada de mostrar talento, deveras atrelada a um papel limitador, bem como a fotografia chamativa do dinamarquês Dan Laustsen e a direção de Arte eficiente. Mas é pouco para cobrir os pontos negativos da fita - além daqueles supra-citados, bastariam lembrar dois, dentre tantos, momentos desastrados da projeção: uma não-intencional citação ao clipe "Thriller" de Michael Jackson, e o diálogo vexatoriamente antológico já ao final da mesma entre as personagens de Mitchell e Krige:

- Você voltou?

- É, eu voltei.


Os adoradores do jogo em questão poderão, à base de muito entusiasmo prévio e uma tonelada de boa vontade, achar um valor efetivo em "Terror em Silent Hill", mas para a grande platéia fora de tal sectarismo, assistir a esse filme é tão sem graça quanto testemunhar alguém jogando videogame.

TERROR EM SILENT HILL (Silent Hill, 2006)

Direção: Christophe Gans.

Elenco: Radha Mitchell, Laurie Holden, Sean Bean, Jodelle Ferland, Alice Krige, Deborah Kara Unger, Kim Coates.

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