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Ainda não foi desta vez que um filme baseado em um
game de sucesso consegue convencer. A história de uma
jovem mãe procurando a cura para sua transtornada filha,
numa cidade fantasma obstinadamente lembrada nos sonhos
da criança, não ganha a platéia, talvez às exceções
dos fanáticos pelo jogo e dos mais impressionáveis por
atmosferas do que pela história contada.
A primeira hora (das mais de duas longuíssimas, arrastadas,
desnecessárias e entediantes horas de projeção) é assinalada
por berreiros sem fim e buscas inócuas - a filha se
desgarra da mãe no local misterioso -, onde o nome Sharon
(a menina-problema) é citado intermináveis vezes e nenhuma
pista é dada pela narrativa. Na segunda metade, quando
já nos cansamos de tanta vacuidade, o roteiro se encarrega
de despejar todas as soluções com a sutileza de um tsunami,
confundindo o espectador. O resultado desconsola qualquer
um: até o cerebral crítico de cinema Roger Ebert, do
Chicago Sun-Times, admitiu ter sido enrolado.
Nem Freud, nem o "malabarista cinematográfico" David
Lynch, conseguiriam explicar certas partes da trama
de modo claro. E, não duvide, nem o roteirista.
Quase tudo o que se espera de positivo de "Terror
em Silent Hill" não se confirma. Seu diretor é Christophe
Gans, francês celebrado, ainda de maneira supervalorizada,
por "O Pacto dos Lobos" (2001), que aqui deixa
claro: para ele, imagem e clima são tudo - um conceito
discutível, podendo ou não satisfazer em primeira instância.
É admissível que tal proposição se constitua uma ótica
interessante, desde que não atrapalhe a narrativa, mas
decididamente é o caso contrário que acontece aqui.
De um roteiro de Roger Avary, co-autor de "Pulp Fiction"
(1994), pede-se qualidade, embora este já mostrasse
sinais de decadência por seu trabalho, não apenas de
guionista, mas também de diretor, em "Regras da Atração"
(2002) . Alice Krige, como a vilã Claudia
Wolf/Christabella, limita-se a reinterpretar a sua atuação
como a Rainha Borg de "Jornada nas Estrelas: Primeiro
Contato" (1996); não que isso seja necessariamente
ruim, pois, a exemplo do trabalho onde se espelha, sua
ação é muito convincente, entretanto é preciso se reinventar
a cada papel, condição básica de um ator, de uma atriz.
Sobram a boa intenção da australiana Radha Mitchell,
desperdiçada como a protagonista Rose e deslocada de
mostrar talento, deveras atrelada a um papel limitador,
bem como a fotografia chamativa do dinamarquês Dan Laustsen
e a direção de Arte eficiente. Mas é pouco para cobrir
os pontos negativos da fita - além daqueles supra-citados,
bastariam lembrar dois, dentre tantos, momentos desastrados
da projeção: uma não-intencional citação ao clipe "Thriller"
de Michael Jackson, e o diálogo vexatoriamente antológico
já ao final da mesma entre as personagens de Mitchell
e Krige:
- Você voltou?
- É, eu voltei.
Os adoradores do jogo em questão poderão, à base de
muito entusiasmo prévio e uma tonelada de boa vontade,
achar um valor efetivo em "Terror em Silent Hill",
mas para a grande platéia fora de tal sectarismo, assistir
a esse filme é tão sem graça quanto testemunhar alguém
jogando videogame.
TERROR EM SILENT HILL (Silent Hill, 2006)
Direção: Christophe Gans.
Elenco: Radha Mitchell, Laurie Holden, Sean Bean,
Jodelle Ferland, Alice Krige, Deborah Kara Unger, Kim
Coates.
COTAÇÃO: *
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