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A
OVELHA NEGRA
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Adriano
de Oliveira
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Na primeira cena pós-créditos iniciais de "Tempos
Modernos", vemos um rebanho de ovelhas avançando,
imagem que é justaposta à de um mesmo movimento, a saber,
de pessoas se dirigindo ao trabalho. A sutileza da imagem
dos ovinos vai além da metáfora provocada pelo corte citado:
no meio dos animais daquela aglomeração, há uma ovelha
negra. O vagabundo-operário personificado por Chaplin
está ali representado, pois desse prólogo, já se define
a jornada do herói da trama: um homem que contestará o
sistema em que é subjugado.
Demonstrando uma grande consciência de seu tempo e também
de sua arte, Chaplin sintoniza a ação do filme para o
momento de sua confecção. À época dos anos 30, a Grande
Depressão americana grassava, como conseqüência imediata
do crack da Bolsa de 1929, trazendo desemprego
e fome. A industrialização findou por escravizar o homem,
vinculando-o vitalmente ao sistema capitalista. Nesse
cenário, o personagem chapliniano é um típico trabalhador
braçal de uma indústria que enlouquece devido ao ritmo
anormal da linha de produção em que opera e acaba se metendo
em inúmeras confusões. A crítica econômico-social se vê
dominante, a tecnologia e a desumanização são fortemente
combatidas, mas o roteiro encontra tempo e espaço também
para uma bela história de amor e de crença na humanidade,
uma vez que Carlitos encontra em uma jovem órfã e moradora
de rua (a linda Paulette Godard), uma idealista como ele,
e acabam formando um mágico par.
O aspecto de sátira é o contraponto perfeito para o diretor/roteirista/produtor
mostrar seu descontentamento com a modernização que tornou
o mundo gélido: em meio a inúmeras e extraordinariamente
cômicas gags, reside uma gigantesca, e ao mesmo
tempo, sutil, acidez para com o modus operandi
da sociedade capitalista. O uso da comédia nunca esteve
tão a serviço de uma ideologia, sem abrir mão - inclusive,
pelo contrário - da sua função natural de divertir.
Em verdade, "Tempos Modernos" é rico a ponto de
fornecer uma farta gama de cenas que, isoladas, já valeriam
um artigo a cada uma delas. Vamos lembrar algumas, das
tantas memoráveis: Carlitos trabalhando loucamente numa
linha de montagem, depois sendo engolido pelas engrenagens
da máquina; ele como cobaia de uma máquina de alimentação;
a divertidamente ensandecida revolta contra a fábrica
e o capitalista-chefe; o vagabundo tomado por líder comunista;
a briga na cadeia; o idílio campesino; o proletariado
se reencontrando em um assalto à uma loja de departamentos,
local onde pouco antes Carlitos dançara perigosamente,
vendado e de patins; o corte preciso mostrando a órfã
saindo da dança anônima na rua para virar estrela de um
show glamourizado; pela primeira vez, a voz do notável
vagabundo é ouvida, ao cantar "Titina"; o final
da obra representando uma ode à esperança.
É o último grande filme mudo de Hollywood, ainda que tenha
partes faladas (à exceção da canção de Carlitos, as demais
vozes ouvidas, embora de fonte humana, provém de máquinas)
e também a despedida ao imortal papel do vagabundo, que
pela primeira vez em um filme, não finda sua jornada sozinho.
Aqui, ele encontra uma companheira, com quem literalmente
caminha em direção a um novo horizonte, renovando sua
fé no homem, no entendimento entre as pessoas, no amor
e no porvir, em uma cena comovente. A ovelha negra pode
se desgarrar do rebanho, mas não mais está solitária.
O tempo segue a avançar, porém Chaplin, por esta e outras
realizações, ganhou a eternidade.
TEMPOS MODERNOS (Modern Times, 1936)
Direção: Charles Chaplin.
Elenco: Charles Chaplin, Paulette Godard, Edward
LeSaint, Hank Mann.
COTAÇÃO: ***** |
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