O TEMPO EM "TEMPOS MODERNOS"
Adriano Hannecker
(e-mail: ahannecker@ibest.com.br)
 
 

"Engole em fim o tempo a vida diminuta,
Tal como a um corpo rijo a neve só brancor.
Eu vejo do alto o globo curvo a se compor,
E não procuro mais o abrigo de uma gruta!

Leva-me contigo avalanche que enluta!"

(Charles Baudelaire - As Flores do Mal)

"Tempos Modernos" é uma caricatura da sociedade industrial emergente a partir dos séculos XVIII e XIX. Poderíamos imaginar que Charlie Chaplin exagera ao retratar a racionalização do trabalho, cujo objetivo era, e ainda é, produzir mais em menos tempo, com menos custo. Mas, na verdade, fica aquém. Basta lembrarmos das mulheres e crianças, que trabalhavam nas indústrias 14 horas por dia, recebendo a metade do salário que recebia um homem realizando a mesma tarefa. A cena em que Chaplin almoça retrata bem essa concepção. Senta-se em frente a uma geringonça, que leva comida à sua boca. A máquina reduz o tempo de sua refeição, pois economiza os movimentos que faria ao efetuar tal ação. Esse movimento de economia de tempo mantém-se na atualidade. Hoje, o computador permite realizar tarefas em tempo menor. Se antes do advento da informática, demorava-se 30 minutos para pagar uma conta no banco, hoje, leva-se 10 minutos. A pergunta é: quem fica com os 20 minutos que sobram?

Geralmente, nós pensamos que tudo o que existe na sociedade sempre houve; que, por exemplo, o relógio, sempre existiu. Porém, o relógio como dispositivo que torna o tempo mecânico, com intervalos precisos, e que norteia a vida nas cidades, é uma invenção do séc. XIV. É nessa época que as pessoas passam a orientar o trabalho, as refeições, etc., em função do relógio. Esquecemos que as pessoas já se nortearam por outros meios, como por exemplo, o sol, as badaladas do sino da igreja, o organismo. Não é estranho que alguém esteja com fome e somente possa comer quando os ponteiros de uma máquina estejam em certa posição?

Sugiro que esse tempo mecanizado do relógio passou a ser o tempo da vida ou da existência do homem. Nada que ele faça está fora desse tempo mecânico. Amar, encontrar alguém, alimentar-se...toda atividade tem hora marcada. Se a pessoa chega na hora errada, perde a amizade. Vivemos numa sociedade em que se tem um tempo mecânico para tudo, tudo com limites bem determinados. Mas será que podemos encaixar tudo nesse tempo? Amanhã irei pensar, amar, criar...às duas horas da tarde, horário de Brasília. Será que existe um segundo determinado do relógio para me emocionar diante do cotidiano, de uma obra de arte, de um filme?

A mídia em geral reforça essa idéia de que há um tempo mecanizado para tudo. Essa mecanização tornou as pessoas robotizadas. È uma espécie de "Matrix", só que ao invés de as pessoas estarem em uma realidade virtual, elas estão em um relógio.

A mecanização temporal permitiu dividir a existência humana em intervalos que podem ser medidos. Uma hora na vida de um homem é uma hora. Alguém tem alguma dúvida disso? Assim, o homem resulta em intervalos de tempo medidos pelo relógio. Um desses intervalos, dentro da sociedade industrial, denomina-se trabalho, que é o período que o trabalhador leva para produzir uma mercadoria ou parte dela (a qual tem valor, podendo ser trocada por dinheiro). Daí, porque "tempo é dinheiro".

Acho que a pós-modernidade é resultado da progressiva apropriação ou expropriação da existência humana. O movimento do qual estou falando é aquele que transformou toda a vivência humana em algo pecuniário, em que todos os intervalos do tempo passaram a ter um preço. Ou seja, primeiro se mecanizou a existência ao enquadrá-la no relógio; depois, se dividiu-a em intervalos; e por fim, deu-se um preço a cada intervalo. O intervalo trabalho vale tanto, o intervalo lazer vale outro, e assim por diante.

Portanto, acho que o movimento que precisamos fazer é o de recuperar o nosso tempo, de tomar posse da nossa existência, da nossa vontade, do nosso corpo. O homem dividido em intervalos é alguém que não se sente uno, que somente se vê enquanto pedaço, que não tem tempo para se reunir, para criar laços, para descobrir, para ser amigo, para procurar a si. Temos diante de nós um novo conceito de vida e de morte. Todo aquele cuja existência não é sua, está morto. Para estar vivo é preciso dirigir a própria vida, resistir aos trovões e às chuvas.

"Foi minha juventude não mais que um vendaval
Em que raro brilharam os sóis como espelhos;
Nela a chuva e o trovão fizeram estrago tal
que sobram no jardim poucos frutos vermelhos."

(Charles Baudelaire - As Flores do Mal)

TEMPOS MODERNOS (Modern Times, 1936)

Direção: Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Allan Garcia.