|
"Engole em fim o tempo a vida diminuta,
Tal como a um corpo rijo a neve só brancor.
Eu vejo do alto o globo curvo a se compor,
E não procuro mais o abrigo de uma gruta!
Leva-me contigo avalanche que enluta!"
(Charles Baudelaire - As Flores do
Mal)
"Tempos Modernos" é uma caricatura da sociedade
industrial emergente a partir dos séculos XVIII e XIX.
Poderíamos imaginar que Charlie Chaplin exagera ao retratar
a racionalização do trabalho, cujo objetivo era, e ainda
é, produzir mais em menos tempo, com menos custo. Mas,
na verdade, fica aquém. Basta lembrarmos das mulheres
e crianças, que trabalhavam nas indústrias 14 horas
por dia, recebendo a metade do salário que recebia um
homem realizando a mesma tarefa. A cena em que Chaplin
almoça retrata bem essa concepção. Senta-se em frente
a uma geringonça, que leva comida à sua boca. A máquina
reduz o tempo de sua refeição, pois economiza os movimentos
que faria ao efetuar tal ação. Esse movimento de economia
de tempo mantém-se na atualidade. Hoje, o computador
permite realizar tarefas em tempo menor. Se antes do
advento da informática, demorava-se 30 minutos para
pagar uma conta no banco, hoje, leva-se 10 minutos.
A pergunta é: quem fica com os 20 minutos que sobram?
Geralmente, nós pensamos que tudo o que existe na sociedade
sempre houve; que, por exemplo, o relógio, sempre existiu.
Porém, o relógio como dispositivo que torna o tempo
mecânico, com intervalos precisos, e que norteia a vida
nas cidades, é uma invenção do séc. XIV. É nessa época
que as pessoas passam a orientar o trabalho, as refeições,
etc., em função do relógio. Esquecemos que as pessoas
já se nortearam por outros meios, como por exemplo,
o sol, as badaladas do sino da igreja, o organismo.
Não é estranho que alguém esteja com fome e somente
possa comer quando os ponteiros de uma máquina estejam
em certa posição?
Sugiro que esse tempo mecanizado do relógio passou
a ser o tempo da vida ou da existência do homem. Nada
que ele faça está fora desse tempo mecânico. Amar, encontrar
alguém, alimentar-se...toda atividade tem hora marcada.
Se a pessoa chega na hora errada, perde a amizade. Vivemos
numa sociedade em que se tem um tempo mecânico para
tudo, tudo com limites bem determinados. Mas será que
podemos encaixar tudo nesse tempo? Amanhã irei pensar,
amar, criar...às duas horas da tarde, horário de Brasília.
Será que existe um segundo determinado do relógio para
me emocionar diante do cotidiano, de uma obra de arte,
de um filme?
A mídia em geral reforça essa idéia de que há um tempo
mecanizado para tudo. Essa mecanização tornou as pessoas
robotizadas. È uma espécie de "Matrix", só que
ao invés de as pessoas estarem em uma realidade virtual,
elas estão em um relógio.
A mecanização temporal permitiu dividir a existência
humana em intervalos que podem ser medidos. Uma hora
na vida de um homem é uma hora. Alguém tem alguma dúvida
disso? Assim, o homem resulta em intervalos de tempo
medidos pelo relógio. Um desses intervalos, dentro da
sociedade industrial, denomina-se trabalho, que é o
período que o trabalhador leva para produzir uma mercadoria
ou parte dela (a qual tem valor, podendo ser trocada
por dinheiro). Daí, porque "tempo é dinheiro".
Acho que a pós-modernidade é resultado da progressiva
apropriação ou expropriação da existência humana. O
movimento do qual estou falando é aquele que transformou
toda a vivência humana em algo pecuniário, em que todos
os intervalos do tempo passaram a ter um preço. Ou seja,
primeiro se mecanizou a existência ao enquadrá-la no
relógio; depois, se dividiu-a em intervalos; e por fim,
deu-se um preço a cada intervalo. O intervalo trabalho
vale tanto, o intervalo lazer vale outro, e assim por
diante.
Portanto, acho que o movimento que precisamos fazer
é o de recuperar o nosso tempo, de tomar posse da nossa
existência, da nossa vontade, do nosso corpo. O homem
dividido em intervalos é alguém que não se sente uno,
que somente se vê enquanto pedaço, que não tem tempo
para se reunir, para criar laços, para descobrir, para
ser amigo, para procurar a si. Temos diante de nós um
novo conceito de vida e de morte. Todo aquele cuja existência
não é sua, está morto. Para estar vivo é preciso dirigir
a própria vida, resistir aos trovões e às chuvas.
"Foi minha juventude não mais que um vendaval
Em que raro brilharam os sóis como espelhos;
Nela a chuva e o trovão fizeram estrago tal
que sobram no jardim poucos frutos vermelhos."
(Charles Baudelaire - As Flores do
Mal)
TEMPOS MODERNOS (Modern Times, 1936)
Direção: Charles Chaplin.
Elenco: Charles Chaplin, Paulette Goddard,
Henry Bergman, Allan Garcia.
|