MICHAEL HANEKE PROJETA O FIM DO MUNDO
Pedro Garcia
 
 

Michael Haneke é subversivo. Em todas as suas produções, o cineasta austríaco evita os formatos usuais e abusa de técnicas ousadas, chegando a resultados estranhos ao olhar domesticado ("hollywoodizado"). Um de seus méritos é aliar essa rebeldia à clara intenção de provocar fortes sensações no espectador e, acima de tudo, de envolvê-lo nos mesmos sentimentos dos personagens. Tomar contato com sua obra é se submeter, do início ao fim, a incômodos e apreensões.

Em O Tempo dos Lobos (2003), o diretor conta a história de uma família que, ao chegar em sua casa de campo, descobre que ela está habitada por estranhos. Após algumas tentativas de negociação, o chefe da família é baleado e morto. Anne (Isabelle Huppert) e o casal de filhos (Anaïs Demoustier e Lucas Biscombe) ficam perdidos em uma área desconhecida, sem conseguir retornar nem se comunicar.

A partir daí, o filme ganha ares de catástrofe. Em uma das cenas mais angustiantes, o filho mais novo se perde da mãe e da irmã durante a madrugada, e Anne o procura desesperada numa escuridão que seria total não fosse uma pequena chama. Sem comunicação, sem coisas materiais, sem alimentação, sem luz... Estaria Haneke tentando projetar o fim do mundo?

Logo, os três encontram um grupo de sobreviventes acampados em uma estação à espera de um trem, e se juntam a eles. É difícil manter a ordem no local, pois todos vivem em freqüentes conflitos uns com os outros e sofrem com o modo primitivo de vida, que chega a levar alguns ao suicídio. É possível, inclusive, identificar uma referência ao cenário imaginado pelo mestre Luís Buñuel no clássico O Anjo Exterminador (1962). Aqui não se critica a burguesia diretamente, mas a sociedade em geral e a lógica de violência por meio da qual ela está organizada.

Assim como em outros títulos, Haneke valoriza ambientes escuros e espaços vazios que, somados a seqüências chocantes, formam uma atmosfera de melancolia, mal-estar e agonia - da qual o espectador não escapa nem com muito esforço. O auge da inquietação é a penúltima cena, em que o filho de Anne, desde o começo o mais sensível à gravidade da situação, encontra uma saída radical.

A grande Isabelle Huppert apresenta aqui uma boa performance, embora o roteiro não lhe dê tanta oportunidade de evidência como em A Professora de Piano (2001), sua outra parceria com Haneke. Este, sim, encontra em O Tempo dos Lobos um de seus melhores trabalhos e um perfeito representante de sua obra, pois investe e acerta em cheio no que melhor sabe fazer: perturbar.


O TEMPO DOS LOBOS (Le Temps du Loup, França, 2003)

Direção: Michael Haneke.

Elenco: Isabelle Huppert, Anaïs Demoustier, Lucas Biscombe, Hakim Taleb.
Cotação: *****

Este artigo é parte integrante da série de textos "Sextas-Feiras com Haneke". Confira, pois a cada sexta há a publicação de um artigo inédito.