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Michael Haneke é subversivo. Em todas as suas produções,
o cineasta austríaco evita os formatos usuais e abusa
de técnicas ousadas, chegando a resultados estranhos
ao olhar domesticado ("hollywoodizado"). Um de seus
méritos é aliar essa rebeldia à clara intenção de provocar
fortes sensações no espectador e, acima de tudo, de
envolvê-lo nos mesmos sentimentos dos personagens. Tomar
contato com sua obra é se submeter, do início ao fim,
a incômodos e apreensões.
Em O Tempo dos Lobos (2003), o diretor conta
a história de uma família que, ao chegar em sua casa
de campo, descobre que ela está habitada por estranhos.
Após algumas tentativas de negociação, o chefe da família
é baleado e morto. Anne (Isabelle Huppert) e o casal
de filhos (Anaïs Demoustier e Lucas Biscombe) ficam
perdidos em uma área desconhecida, sem conseguir retornar
nem se comunicar.
A partir daí, o filme ganha ares de catástrofe. Em uma
das cenas mais angustiantes, o filho mais novo se perde
da mãe e da irmã durante a madrugada, e Anne o procura
desesperada numa escuridão que seria total não fosse
uma pequena chama. Sem comunicação, sem coisas materiais,
sem alimentação, sem luz... Estaria Haneke tentando
projetar o fim do mundo?
Logo, os três encontram um grupo de sobreviventes acampados
em uma estação à espera de um trem, e se juntam a eles.
É difícil manter a ordem no local, pois todos vivem
em freqüentes conflitos uns com os outros e sofrem com
o modo primitivo de vida, que chega a levar alguns ao
suicídio. É possível, inclusive, identificar uma referência
ao cenário imaginado pelo mestre Luís Buñuel no clássico
O Anjo Exterminador (1962). Aqui não se critica
a burguesia diretamente, mas a sociedade em geral e
a lógica de violência por meio da qual ela está organizada.
Assim como em outros títulos, Haneke valoriza ambientes
escuros e espaços vazios que, somados a seqüências chocantes,
formam uma atmosfera de melancolia, mal-estar e agonia
- da qual o espectador não escapa nem com muito esforço.
O auge da inquietação é a penúltima cena, em que o filho
de Anne, desde o começo o mais sensível à gravidade
da situação, encontra uma saída radical.
A grande Isabelle Huppert apresenta aqui uma boa performance,
embora o roteiro não lhe dê tanta oportunidade de evidência
como em A Professora de Piano (2001), sua outra
parceria com Haneke. Este, sim, encontra em O Tempo
dos Lobos um de seus melhores trabalhos e um perfeito
representante de sua obra, pois investe e acerta em
cheio no que melhor sabe fazer: perturbar.
O TEMPO DOS LOBOS (Le Temps du Loup, França,
2003)
Direção: Michael Haneke.
Elenco: Isabelle Huppert, Anaïs Demoustier, Lucas
Biscombe, Hakim Taleb.
Cotação: *****
Este artigo é parte integrante da série
de textos "Sextas-Feiras
com Haneke". Confira, pois a cada sexta há
a publicação de um artigo inédito.
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