PAREDES DE CARNE E OSSO, OU VICE-VERSA
Alexandre Mesquita
 
 
Um desenho de sucesso, seja animado ou quadrinhos, sempre faz emergir a pergunta "como seria com atores de carne e osso?". Embora a experiência de décadas venha tentando ensinar que isso quase nunca presta, com a atual tecnologia tornou-se algo mais tentador para os produtores. Agora é possível pegar não apenas os personagens, mas os cenários, a atmosfera, as tintas, os esboços, e também fazê-los de carne e osso. Acredito que Sin City (um raro triunfo) traduza bem o que estou querendo dizer.

O príncipe desta linhagem no momento é o filme Speed Racer (idem, EUA, 2008). Speed Racer (Emile Hirsch) - Corredor Veloz, sim, é o nome dele - é um garoto fanático por corridas. Idolatra o irmão e ás do volante Rex Racer (Scott Porter). Ambos são filhos de um construtor de carros (John Goodman). Rex sofre pressão das máfias das corridas para ajudar na manipulação de resultados. Se recusa e sai de casa para não pôr em risco sua família. Acaba envolvido num acidente, é dado como morto, mas não se livra das falsas acusações de trapaceiro plantadas pela máfia. Para salvar a honra do irmão, o jovem Speed começa a competir com um carro cheio de truques, o Mach 5, de autoria do pai. Mostra talento, logo percebido pelo crime organizado que tenta trazê-lo para o esquema, e com a recusa, acabar com ele. Nosso herói parte para vencer as corridas contra ardilosos dentro e fora das pistas, contando com a ajuda de sua namorada Trixie (Christina Ricci), do irmão Gorducho (Paulie Litt), do misterioso Corredor-X (Matthew Fox) e de um chimpanzé.

A trama se passa numa época indefinida, seria um futuro ali adiante, mas com personagens de quarenta anos de idade que viram ao vivo corridas que aconteceram cinqüenta anos (em preto e branco) antes. Para mim, indica que a história é algo que nasceu para não ter a menor importância. Porém - problema - tenta ter. Contém algumas passagens, como pai ausente arrependido & filho compreensivo, ambos concluindo que brigam, mas se amam. Mas são essas, ilhas no meio da correria. Ficam tão diluídas que nem vale a pena analisar quem atuou bem. Pela exigência dramática, até o chimpanzé deu conta.

Os irmãos Matrix, Larry e Andy Wachowski, ambos na direção e ambos no roteiro, procuraram recriar a atmosfera que fez o desenho animado japonês Speed Racer, de Tatsuo Yoshida, um sucesso nas décadas de setenta e oitenta. Pegaram os personagens, pegaram o carro Mach 5 e sua direção cheia de botões, pegaram o vestuário: foram bastante fiéis. Só não foram muito felizes quando elevaram tudo na potência mil. Para quem não sabe, é a medida do insuportável para quem não está familiarizado com placas de vídeo out board aceleradoras, onde com certeza se encontra a geração que cresceu com Speed (a única exceção talvez sejam os irmãos diretores). Para enfatizar isso, e até soa engraçado, no desenho da série de TV, a maioria das cenas na verdade eram estáticas. Riscos saindo dos carros ou personagem passavam a idéia de que havia muito movimento. Ou seja, as fantásticas corridas tinham grande participação do imaginário de cada um.

O filme, ao contrário, propõe-se a representar o delírio em pessoa. Mistura o real com o desenho animado ao exagero de cores e tecnologia. O final chega ao absurdo de tentar reeditar 2001, Uma Odisséia no Espaço numa pista de corrida. É tanta imagem rápida, é tanto psicodelismo beirando a velocidade da luz que tem horas até que fica difícil dizer quem são os cenários e quem são os atores. É provável que quem estiver falando seja um ator e não uma parede a oitocentos por hora, mas não dá para garantir. Exageradamente irreal e fantasioso, segundo um desenho animado amigo meu, que não quis se identificar por ser muito irreal e fantasioso.

Enfim, Speed Racer continua vencendo no final. Só que nas décadas de setenta e oitenta, eu conseguia entender como.


SPEED RACER (idem, EUA, 2008)

Direção: Larry e Andy Wachowski.

Elenco: Emile Hirsch, John Goodman, Matthew Fox, Susan Sarandon, Paulie Litt, Christina Ricci.

COTAÇÃO: **