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A
VOZ DA PROFETISA
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Adriano
de Oliveira
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O tema do crime-e-castigo volta à baila no novo filme
do septuagenário Woody Allen, "O Sonho de Cassandra"
(2007) - só que revestido de tragédia grega.
Allen aqui não atua, apenas dirige, e sem sua persona
o espaço para o humor ao longo da projeção é de fato muito
restrito, o que acentua o caráter dramático da história.
Se o teatro grego servia como fonte cômica no coro que
balizava "Poderosa Afrodite" (1995), também
do cineasta, agora é o aspecto trágico emergindo da mitologia
helênica que permeia a recente obra. E essa feição mítica
já brota diretamente do título, remetendo à desacreditada
profetisa Cassandra, que, esconjurada por Apolo, não foi
ouvida por Príamo a respeito da periculosidade do cavalo
de madeira que veio a causar a queda de Tróia - episódio
da "Ilíada" de Homero. Se em "Match Point"
(2005) é a sorte que decide o futuro do transgressor,
desta vez tal função cabe ao destino, como convém à uma
desventura vaticinada.
Em verdade, "O Sonho de Cassandra" aporta para
fechar o que aparenta ser uma trilogia recente de Allen
sobre as culpas vindas de um crime cometido e das conseqüências
dele - sendo a mais imediata delas, a crise de consciência
daquele que o fez. O primeiro exemplar vem do excelente
"Crimes e Pecados" (1989), do qual "Match Point"
é cria legítima e, por força de sua natureza e
qualidade, de nível similar. Já "Cassandra" fica
uns degraus abaixo, enfraquecido por algumas pretensões
e comodismos. Por exemplo, Allen confia demais no poder
da elipse e não obtém resultados eficientes, deixando
um gosto de cabo de guarda-chuva na boca da platéia, o
que ocorre ao optar por um final abrupto quanto à sua
resolução, o qual merecia uns metros a mais de fita, sem
a incômoda preguiça evidente no desenvolvimento do ato
último da trama. Apesar da cena final conter um tanto
de metáfora, o que a precede imediatamente não satisfaz.
Com seu estilo contido, às vezes polido demais, extraindo
com lentidão os dramas a partir de ações cotidianas para
arremeter a um epílogo tão rápido quanto chocho, Woody
deixa a dever um certo timing no andamento da história,
inclusive decorrendo uma certa falta de equilíbrio narrativo
quanto a isso.
Também é claro que o cineasta quer criticar a validade
da sensualização como recurso cênico através da personagem
Angela (Hayley Atwell), contudo ao ficar somente no terreno
da sugestão, perde boa oportunidade de falar e ser escutado,
repetindo de certa forma a sina da mítica profetisa do
título de sua obra.
A história de dois irmãos londrinos, Ian e Terry (Ewan
McGregor e Colin Farrell), que a fim de resolverem problemas
financeiros pessoais se unem para cometer um crime perfeito
a serviço de um milionário tio (Tom Wilkinson) é o estopim
para Allen desenrolar um interessante drama-suspense,
que no entanto poderia ser mais complexo e instigante.
Embora McGregor esteja somente ok e Wilkinson até desaponte
um pouco, por sua vez Farrell restaura nossa confiança
no talento dele com uma bela atuação. Assim, com altos
e baixos, a Cassandra do diretor e roteirista sonha e
ambiciona ser ouvida em seus clamores, mas sua voz soa
irregular: a mensagem nos chega um pouco truncada, quase
telegráfica, a despeito de sua pretensa limpidez.
O SONHO DE CASSANDRA (Cassandra's Dream,
2007)
Direção: Woody Allen.
Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Hayley Atwell,
Tom Wilkinson, Sally Hawkins.
COTAÇÃO: ***
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