O cineasta sueco Ingmar Bergman exaltou o cinema em
todas as suas categorias. Os campos temáticos de seus
filmes vão da Idade Média (A fonte da Donzela,
O sétimo selo) ao mundo conturbado e fragmentado
do século XX (Sonhos de Mulheres, Da Vida das
Marionetes) e retratam de forma poética a existência
humana e as dificuldades e pulsões pelas quais essa existência
se arrasta.
Em uma linha de pensamento sincrética, algo que perpassa
Camus, Sartre, Welles, Rosselini, Bach e Rachmaninov,
Bergman afirmou sua filmografia como uma das mais eruditas
e belas da história do cinema.
Após uma fase neo-realista, ao fim dos anos 1940, e de
uma estruturação temática com ganho de estilo próprio
e maturidade nos anos 1950, o cineasta produziu uma sequência
de obras-primas, onde toda a incredulidade com o mundo,
o descaso irônico com as relações amorosas e religiosas,
e sua posição social e cultural, estão à flor da pele.
Um dos primeiros resultados desta manifestação de genialidade
estruturada, nos anos 1960, é a tríade produzida entre
1961 e 1963, futuramente batizada por um crítico sueco
de "Trilogia do Silêcio", composta por Através de um
espelho (1961), Luz de inverno (1962), e O
Silêncio (1963).
O Silêncio não foi apenas o desfecho da Trilogia,
mas o início de uma nova liberdade artística para Bergman,
tanto no sentido monetário junto aos estúdios, quanto
no sentido de "prestar-se a escrever e filmar tal coisa",
onde a ousadia, em diversas modalidades e medidas, seria
o núcleo de boa parte das produções posteriores (culminando
em Persona, 1966).
É em O Silêncio que o cineasta esbanja tudo o que
havia proposto em sua carreira até então, e é neste filme
que o frenesi erótico, a histeria, a sensibilidade, a
inocência e "a vida como espetáculo" mostra-se pela primeira
vez de forma completa, tecnicamente madura e artisticamente
magistral.
O filme nasceu das explosões e do sufoco de um Concerto
para Orquestra de Béla Bartók. Quem conhece a obra
do compositor, entende o clima claustrofóbico que se vê
no início da película, quando os três protagonistas estão
no trem, visivelmente sufocados pelo calor. O que se segue,
é a (não)-relação entre as irmãs Anna e Esther, e a ambiguidade
do relacionamento de Anna com o filho, Johan.
Pela fragilidade da saúde de Esther (a irmã mais velha),
os três são obrigados a interromperem a viagem e descansar
em uma cidade não identificada no filme - o anonimato
social é o plano de fundo de toda a trama, o que, de início,
já nos alerta para não darmos importância demais aos tanques
de guerra que tem o papel do "evento de coação", assim
como as epidemias e o estardalhaço da violência que se
vivia nos anos 1960 e perdura nos dias de hoje.
A estadia de Esther, Anna e Johan acabará por se revelar
caótica e deixará vir à tona a repressão ou a exposição
dos desejos, o vazio existencial das personagens e o mundo
paralelo (um tanto autista) que vemos Johan criar para
si, vez ou outra saindo dele e se deparando com uma tia
neurótica, doente, e uma mãe voluptuosa e inconstante.
As dificuldades de distribuição e classificação etária
da obra, preocuparam a Svensk Filmindustri, que posteriormente
não acreditaria (assim como Bergman) no sucesso de bilheteria
e na difamação que o filme receberia desde a projeção
inaugural.
Escrito e dirigido por Bergman, O Silêncio é um
angustiante grito de socorro. No plano inicial, a câmera
está fixa, e mostra em primeiro plano, o pequeno Johan
dormindo (papel friamente vivido por Jörgen Lindström
- uma aula de intepretação-mirim). À direita, a sexy Gunnel
Lindblom (Anna), com a boca entreaberta e o decote mostrando
parte dos seios, abana-se, languidamente. Ao seu lado,
uma séria e formal Ingrid Thulin (Esther) olha para o
chão, visivelmente oprimida. Os três estão em um trem,
mas não se ouve nada. Os atores, dispostos de forma teatral,
executam uma encenação que substitui qualquer diálogo.
A fotografia de Sven Nykvist é opressiva, genialmente
montada para inserir o espectador no mundo sombrio, pulsante
e apertado das personagens. O tons claros das roupas dos
atores em cena contrastam com o escuro do vagão e da paisagem
exterior - que apenas em um momento se revela acolhedora,
e só pelo olhar de Johan: o nascer do sol que ele vê,
deslumbrado, pela janela.
A primeira tentativa de comunicação no filme é infrutífera.
Johan pergunta para Esther o que está escrito em um aviso
que há na porta da cabine. Ela não sabe dizer. Mesmo sem
saber o quê, o garoto lê o conteúdo do papel, por proximidade
fonética. Assim como a cidade, a língua falada não existe.
O quarto onde os três ficam é um bom exemplo do elemento
espaço-teatral que transpassa o filme. São claramente
definidos dois cenários: o quarto de Esther, cuja cama
é o foco central da convalescência e morbidez da personagem,
e o quarto de Anna e Johan, amplamente explorado, do sofá,
ao banheiro. É a partir deste quarto que uma outra esfera
de relações entre as três personagens se revela.
A convivência que vemos acontecer no filme é o processo
da "queda das máscaras", nada quer dizer o que parece.
As duas irmãs representam o tempo inteiro, e sofrem quando
essas interpretações são rasas demais para se segurarem
em dadas situações, revelando verdadeiras intenções e
personalidades. Talvez a única personagem que não se encaixa
nesta visão seja Johan, que tem outras preocupações -
como a necessidade heróica, escapista e masculina de sair
atirando com seu revólver de brinquedo - e que durante
a estadia vai se deparar com momentos importantes para
ele, em diversas intensidades: os anões circenses, o velho
camareiro e suas carícias, e paralelamente, o amante da
mãe e a crise da tia.
A rede intricada do existencialista e psicanalítico roteiro
passa pelo lesbianismo de Esther, seu desejo pela irmã,
e pelo (outro) incesto que é o de Anna em relação a Johan.
Este, por sua vez, não permite que a tia o toque ou o
acaricie, ao que esta, meio decepcionada, diz: "Só
a mamãe pode te tocar, não é?". O ambiente é cada
vez mais opressivo. Mesmo o sexo, que aparentemente seria
a válvula de escape, não o é de todo, torna-se lancinante
- a cena em que Anna assiste a relação de um casal, no
cinema, é particularmente angustiante, um efeito de estranhamento
executado de forma incrível pelo diretor. Ainda poderíamos
acrescentar no mundo-espetáculo do filme, a apresentação
de fantoches que Johan faz para a tia, a conversa sartreana
que as irmãs têm no quarto com o amante ouvindo-as, e
o bilhete que Esther escreve para Johan, quando ele se
vai: tudo representação.
Com esplêndidas interpretações e divinamente dirigido,
O Silêncio excede o que é um filme. Os lapsos de música
- jazz, Bach, pop -, a direção de arte que vai do grotesco
cinema de rua ao quase pomposo quarto de hotel, os figurinos
que servem como uma carta de apresentação emocional das
personagens, a indiscutível bela e bem iluminada fotografia
de Sven Nykvist e a ousada direção de Bergman são elementos
de um patamar artístico inexplicável. O Silêncio
é um manifesto ao frenesi subconsciente.
O SILÊNCIO (Tystnaden, Suécia, 1963)
Direção: Ingmar Bergman.
Elenco: Ingrid Thulin, Gunnel Lindblom, Birger
Malmsten, Hakan Jahnberg, Jörgen Lindström.
Cotação: *****
Este artigo é parte do Ciclo
Bergman no Cine Revista.
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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