Shrek Até que a Morte os Separe
Alexandre Mesquita
 
 
É normal aos amantes do cinema de qualidade esperar que a terceira ou quarta sequência para aproveitar a onda de sucesso do primeiro filme, fosse melhor nem ter existido. Na franquia Shrek, após a obra-prima I, o bom II e o fraquinho III, este último trazendo o que parecia ser o final feliz do Ogro mais querido do mundo, terminando o filme com o amor de sua vida, Fiona, e tendo os "Shrekinhos" Felícia, Fergus e Flatus, não haveria porque insistir. Mas como tudo que é verde, monstruoso - e acho melhor soltar do que prender, "because I am a ogre" -, também reluz como ouro, então esprema-se mais, por que não?

Bem, como um dos maiores entusiastas pelo fabuloso impacto que o primeiro filme da franquia trouxe, fui ao cinema só porque precisava me odiar naquele dia, e nada melhor para isso do que ser testemunha ocular de um crime lesa-dignidade.

Pois ao acabar a sessão eu estava boquiaberto. O maravilhoso Shrek para Sempre (Shrek Forever After, EUA, 2010) mostrou que é possível contrariar a famosa máxima do Barão de Itararé que diz "de onde menos se espera, daí não sai nada". O interessante é que o mote da história nem de longe é original (bebeu, dentre outros, do clássico A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra), mas se mostra natural, simplesmente segue o compasso a partir da última aventura. A grande sacada/pergunta é: como seria Shrek depois do "felizes para sempre"? Se a história terminasse em Shrek Terceiro, a saga do desenho mais "corneteiro" dos contos de fada teria exatamente terminado como suas vítimas. Então a próxima e simples pergunta para que isso não aconteça é: como se mantém o "felizes para sempre"?

Agora um bem casado pai de família, Shrek passa seus dias no que seria uma rotina de "felizes para sempre". Cuidando dos filhos, beijando a esposa, recebendo os amigos. Só que depois de passar um dia, dois dias, três dias, uma semana, um mês sempre sorrindo e repetindo as mesmas situações de felicidade eterna, o semblante do Ogrão começa a mudar para pior. Ele percebe que está com saudades dos tempos em que era um ogro livre e desimpedido para fazer o que bem entendesse, como urrar para as pessoas e, melhor, vê-las sair correndo apavoradas, e não rindo e pedindo mais "faz o urro" (um dos momentos mais hilários do filme). Após um ano aguentando a rotina, Shrek aproveitou o primeiro aniversário dos filhos para surtar. Explode de raiva, diz que gostaria de ter sua vida de ogro temido de volta. Escondido, o mago dos contratos em que você assina pensando estar assinando algo maravilhoso e "quebra a cara"(eta, sujeitinho atual) de nome complicado, Rumplestiltskyn, escuta o desabafo do ogro, que por coincidência é exatamente aquele ogro que num certo momento do passado lhe tirara a chance de ser reino de Tão Tão Distante. O maléfico Rumple oferece a Shrek um contrato para reviver por um dia no passado sua antiga vida. O ogro aceita, mas então percebe que o contrato continha mais entrelinhas desagradáveis do que esperava. Numa inversão de expectativas, Shrek é obrigado a lutar para tentar resgatar aquilo que ele percebera que mais amava no mundo, sua família, que no novo contrato nunca havia existido. Nesta outra realidade o Burro não o conhece, o Gato de Botas apanha dos ratos, é Pinóquio quem tenta vender o Gepeto, Rumple é a majestade do reino de Tão Tão Distante e Fiona é a líder da resistência dos Ogros. Shrek não sabe se terá de fazer mais esforço para vencer Rumple e seu exército de bruxas ou para conseguir fazer com que a nova Fiona/Sheena Guerreira se apaixone por ele, única forma de dar fim ao contrato maléfico.

A maioria das piadas está muito boa, e as ótimas ficam por conta dos personagens como o Burro e, principalmente, o Gato "fora de forma" de Botas. A linha narrativa que segue Shrek, embora tenha a divertida sequência em que ele satisfaz o antigo desejo e atormenta uma aldeia, mostra que ele não está dessa vez para humor gratuito, mas antes de tudo, para a consistência de sua história. É curioso ver Shrek contracenando com outros ogros, e vemos que nem é dos maiores. E o filme traz o vilão mais interessante da série, superior à Fada Madrinha e ao Lord Farquaad. Rumplestiltskyn já começa vilão pelo nome que tem, mas sua fala macia e nervosinha fica aterrorizante se o imaginarmos ligando para nosso celular no meio do trabalho oferecendo um maravilhoso cartão de crédito. O "capanga" flautista de Hamelin é outro manda bem.

Pegando nuanças básicas dos problemas do casamento, a história se desenvolveu para ser um aperfeiçoamento. Quis ganhar dinheiro e o estúdio ganhou. Mas, além disso, talvez sem querer, conseguiu uma bela fábula sobre o final depois do final feliz. Fim (espero).



SHREK PARA SEMPRE (Shrek Forever After, EUA, 2010)

Direção: Mike Mitchell.

Elenco principal com vozes originais de: Mike Myers, Walt Dohrn, Eddie Murphy, Antonio Banderas, Cameron Diaz, Julie Andrews, John Cleese.

Cotação: *****