SHERLOCK HOLMES
Patrick Buzzacaro
 
 
O ano mal começou e nos deparamos com mais uma "releitura", desta vez da literatura britânica e seu detetive mais famoso: Sherlock Holmes!

Em um período aqui no sul em que os cinemas ficam praticamente às moscas (leia-se, somente os cinéfilos de carteirinha que não costumam ir à praia o procuram), enfrentamos nesta época quase que um paradoxo, pois é justamente quando a maioria dos candidatos ao Oscar e ao Globo de Ouro são exibidos.

Depois de muitos anos sem aparecer fortemente na mídia (cinema e televisão) - descontando o discreto RocknRolla nesse período - , Guy Ritchie decidiu aproveitar sua reputação ainda inabalada após sobreviver a Madonna, e o reconhecimento que Robert Downey Jr está vivendo, e reinventar Sherlock Holmes ou, se preferir, apresentá-lo à massa quase acéfala que não tem costume de sequer abrir um livro sem antes bisbilhotar na internet e dar uma nova roupagem que, para os mais puristas, poderia ser até ofensiva ao maior detetive da Inglaterra.

Ledo engano, pois como o diretor mesmo declarou, é um fã incondicional dos contos e tentou, ao contrário de seus filmes anteriores, respeitar ao máximo a essência dos livros de Sir Arthur Conan Doyle, mas não sem deixar sua marca frenética nas sequências de ação.

O elenco é outro achado, que em filmes considerados blockbusters, possuem o péssimo hábito de preencher a tela com atuações pífias devido ao estrelismo do ator principal, algo que aqui não acontece. Downey, sem comentários, aparece cada vez mais à vontade - como em todos seus papéis recentes (Trovão Tropical, O Solista) - e sua irreverência costumaz é bem vinda ao egocêntrico detetive; Jude Law, ator relegado muitas vezes a papéis românticos e que nem sempre recebeu o reconhecimento que merecia, tem em Watson sua melhor performance desde Alfie; Mark Strong vive Lord Blackwood, e o faz exatamente como os livros descrevem os vilões dos contos de Sherlock: arrogante, ameaçador e meticuloso - mas não chega aos pés de Moriarty, figura sombria que apenas sugere sua existência neste primeiro longa.

Rachel McAdams interpreta Irene Adler, ladra e ao mesmo tempo caso mal resolvido de Holmes, mas que na literatura não aparece mais do que duas vezes em suas aventuras. Ao assistir ao filme, tomara que a sala escolhida tenha uma boa reprodução e a exibição seja perfeita para que todos os detalhes da película possam ser apreciados, pois como de costume, a Londres da era vitoriana é representada de forma bastante sombria, em que a escuridão pode impedir a percepção de pequenos detalhes, não importantes à trama, mas ao espetáculo do filme.

Primeiro longa de Guy Ritchie que não se passa na contemporaneidade, merece todo o crédito pelos excelentes efeitos especiais e fotografia retratados na tela, com figurino e locações de encher os olhos. Lembrado pela sequência de boxe em Snatch - pelo modo como coreografou e dirigiu as cenas de luta -, desta vez ele inova antecipando os movimentos e ações de Holmes ante o adversário, fazendo com que a luta pareça mais uma dança do que simples pancadaria, mostrando a forma meticulosa com que sua mente trabalha.

De forma geral, o roteiro não apresenta nenhuma grande surpresa, na verdade é bastante eficiente e bem construido, lembrando aos espectadores de como é bom ir ao cinema, agradando e fazendo com que a passagem de tempo não seja um incômodo durante a exibição, o que nos dias de hoje já é uma grande coisa.

SHERLOCK HOLMES (idem, EUA, 2009)

Direção: Guy Ritchie.

Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Mark Strong.