SEPARADOS PELA QUÍMICA
Alexandre Mesquita
 
 
O casamento é a ciência que contém todas as ciências, já dizia o pintor do meu prédio. Desde a Psicologia que tenta entender porque as mulheres dão tanta importância ao aniversário de casamento até o banquete de formigas canibais gigantes que explica o destino de maridos esquecidos.

Mas sempre ouvi que há uma ciência em especial que explica o sucesso ou fracasso do matrimônio. Sonhei certa vez que estava num balde com 452 clones meus. Por quê estamos aqui?, perguntei. Acho que é para nos ligarmos com aqueles elementos ali, respondi. Vai sonhando!, gritou uma das 452 Monicas Belucci no outro balde. Um cientista gigante pegou um punhado de mim e um punhado delas e jogou-nos num meio neutro, entenda-se sala vazia, luz vermelha básica. Com eu e meus clones enxergando só Monicas B. na frente, segui a sabedoria dos instintos pré-históricos e gritei: Ao ataque! Corri atrás da mais desesperada, e, num salto de tigre, abocanhei-a naquela região das costas abaixo da linha da cintura. Ai! Ligação covalente, ligação covalente! Eu estava mordendo o metro quadrado mais desejado do mundo, e se dependesse da minha vontade naquela hora seria um momento para sempre, mesmo com as cotoveladas que ela me acertava. Porém, a vontade eterna foi sumindo, sumindo. Dali a pouco, propus soltá-la se ficássemos apenas bons amigos. Ela disse tudo bem, mas perguntou se podia continuar me batendo. Os cientistas que desejavam obter ligações estáveis entre os elementos ficaram frustrados. Colocaram-nos, então, num meio químico mais adequado para a estabilidade, tipo apê de três dormitórios, carro zero, bom salário, casa na praia e churrasco nos fins-de-semana. Um meio básico no jargão. Durou dois minutos a mais do que no anterior. Acharam que poderia ser por falta de tempero e colocaram uma sogra, meio básico por meio ácido. Não, não. Parece que, como casal, eu e Monica B. não rendíamos. Sob o olhar severo dos cientistas, tentei jogar a culpa em quem merecia. Essa química. Mas o diagnóstico deles para o meu comportamento foi Hummmm... Separados pelo Casamento (The Break Up, EUA, 2006): é sobre duas pessoas que tiveram problema parecido. Quando trocaram olhares pela primeira vez, sininhos foram ouvidos, e elas se propuseram a compartilhar teto, banheiro, lençol, mostarda e mostarda no lençol nas noites mais inspiradas. Dois anos depois brigavam como se tivessem os sinos na boca, volume máximo, e atiravam mostarda nos olhares um do outro nas noites mais calmas. Como a mulher era a Jennifer Aniston, a única vantagem de eu ter ido assistir esse filme foi minha revanche contra os cientistas. Cadê o Hummmm pra ele, hein, hein?

Gary (Vince Vaughn) e Brooke (Aniston) tinham tudo para o felizes para sempre quando que se conheceram na torcida de um jogo de baseball. Ponto, corta. Dois anos depois estão casados. Entretanto, surpreendentemente após um início tão promissor, os encontramos na fase respirar perto do outro é provocação. Os motivos são lugares comuns, ela reclama que ele não nunca ajuda a lavar a louça, ele reclama que ela nunca ajuda a bagunçar o apartamento - o que o deixa muito magoado -, etc. Os dois se amam, não há dúvida. Brooke, apesar da verborragia chorosa contra as manias do marido, até em alguns momentos tenta salvar a situação, mas Gary, incorporando o chauvinista, se esforça pelo contrário, só para não dar o braço a torcer, e depois chora pelos cantos. Sair do apartamento significa abrir mão dele e correr o risco de dar a impressão de que quem ficou estava com a razão - birra que é a fonte de energia para toda a metragem do filme. Amigos freqüentam o enredo para ouvirem desabafos, darem conselhos e participarem de encenações, como está nos mandamentos do bom filme de relacionamento. Brooke conta com Addie (Joey Lauren Adams, a da vozinha rouca que deixou muito marmanjo com boca cheia d'água na pequena obra-prima Procura-se Amy) e Gary com Johnny (John Favreau, bom).

Jennifer Aniston está bem. Ela não é má em comédias e tem um bom encaixe em dramas. principalmente para sofrer com um final de casamento (que indireta maldosa a minha, cruzes). Vince Vaughn também não compromete num papel verborrágico feito sob medida.

O diretor Peyton Reed (As Apimentadas) manteve-se bem na condução dos atores, mas acho que ele mancomunou-se com um roteiro muito técnico (do tipo não recomendado para filmes que exploram sentimentos) para tentar uma jogada mais pretensiosa. O peixe vendido foi comédia romântica, e até partes engraçadas aqui e ali aparecem, mas cada seqüência, principalmente as que aparecem ambos, começa a ter um comportamento estranho. E não precisam mais que três delas para se cair na pergunta: é impressão minha ou essa seqüência está tentando me fazer pensar? Saca-se o engodo, comédia nada, a intenção de diretor e roteiro era fazer o filme definitivo sobre ascensão e, principalmente, queda do casamento, mas à medida que se enredavam nas dificuldades da pretensão, devem uma hora ter chegado à melhor solução: vamos acabar logo com isso, dane-se a coerência.

E por tal, um filme que tinha Os Normais (a série humorística global) no código genético, cometeu o crime de negar sua essência, achou que podia ser drama-cabeça também. Estancou no meio do caminho entre um e outro. Só me restou então, em respeito ao ingresso salgado (quando à época do filme nos cinemas), ficar na torcida em cada cena, por favor, não se leve a sério, não se leve a sério.

Se levou, uuuhhh!



SEPARADOS PELO CASAMENTO (The Break Up, EUA, 2006)

Direção: Peyton Reed.

Elenco: Jennifer Aniston, Vince Vaughn, Joey Lauren Adams, Jon Favreau, Cole Hauser.

COTAÇÃO: **