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Piada: Uma multidão estava prestes a apedrejar Maria
Madalena quando Jesus interviu. "Quem nunca errou que
atire a primeira pedra!" Então o Manuel pegou uma, enorme
e, pooooou! - no meio da testa da Madalena. "Mas tu
nunca erraste?", perguntou Jesus de olho arregalado.
"Olha, ô, gajo, desta distância, não." David Cronenberg
está de volta com Senhores do Crime (Eastern
Promises, EUA / Inglaterra / Canadá, 2007), e parece
que veio com a mão pronta para acertar em nós mais um
bom filme. Bem, alguma coisa ele acerta, alguma coisa
que deixa a sensação que, da forma como o fez, até eu.
Londres. A morte no parto de uma imigrante russa de
quinze anos faz a enfermeira Anna (Naomi Watts) entrar
em contato com o misterioso diário da menina, escrito
em russo. Coincidentemente, Anna descende do Leste Europeu
e sofre o trauma de um aborto espontâneo. No diário
há um endereço de restaurante. Ela vai atrás e descobre
que é propriedade de Semyon (Armin Mueller-Stahl), um
senhor idoso com cara de boa fachada. Enquanto isso,
o tio da enfermeira, Stepan (Jerzy Skolimowski), traduz
o diário e descobre nuances da máfia russa, em um de
seus braços mais terríveis, a irmandade Vory V Zakony.
Então o bom senhor do restaurante se revela o calmo
e maquiavélico chefão todo-poderoso do contrabando de
bebidas e do mercado sexual. Para seu desespero, é pai
do inconseqüente, meio burro e outras coisas, Kirill
(Vincent Cassel), que por sua vez tem como motorista,
Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen): ex-presidiário, desovador
de cadáveres, assassino profissional, confidente, amigo,
e ao que parece outras coisas também. Tem o corpo cheio
de tatuagens que contam sua história criminosa, como
manda a tradição da Vory. Anna e sua família
passam a ser visados. E ela acaba se envolvendo com
o multifacetado Nikolai.
Máfia russa e afins, amizade, paternidade, afeto entre
amigos, prostituição de menores, códigos de honra, tatuagem
como agente autobiográfico, drama de quem não pode ter
filho, drama de quem tem filho, ser um thriller meio
policial, meio não policial.
Uau!
Quando esperamos que o competente Cronenberg engrene
uma quinta na direção de um final digno de todas as
expectativas criadas, percebemos que em vez de um sanguinário
duelo entre máfias estamos no meio de algo que mais
parece uma briga entre vizinhos, daquelas que terminam
num simples telefonema para a polícia ou, mais sem graça,
num balde de água fria em algumas cabeças.
Fácil diagnosticar por quê. O filme quer ter pinta de
violento e fama de digerível. Situações como o rapto
do bebê, ou a "execução" do tio de Anna corroboram isso.
O diretor conduz corretamente as cenas, mas deixa um
cheiro de piloto automático no ar. Para quem gosta de
um cineasta do calibre dele, que mostrou ao longo de
sua carreira saber dialogar com platéias inteligentes
e rebeldes, não dá para ficar resignado.
Ressente-se idem da falta de personagens cativantes.
A maioria deles ganha algumas falas no estilo faço
o que faço por causa da complexidade da existência,
mas tudo não passa de uma tentativa de esconder sua
insuficiência de significado e ausência de originalidade.
Se fossem assumidamente estereotipados, tipo eu sou
o mau e tu és o bom, vamos duelar até eu morrer,
o produto sofreria críticas, é verdade, mas por ter
um rumo bem definido e a presença do diretor, pelo menos
estimularia uma entusiasmada procura por elogios.
Naomi se esforça, mas a sua enfermeira foi condenada
pelo roteiro de Steven Knight a ser um não disfarçado
de talvez. Vincent Cassel, está no limite entre uma
boa atuação e trejeitos forçados, convence de vez em
quando, e não exatamente quando quer. O velho chefão
assustador assusta menos do que meu vô com um chinelo
na mão. A exceção é Viggo Mortensen, com seu Nikolai,
cara de menos vinte abaixo de zero como devem ser os
russos do crime, exímio mestre da violência como sua
arte de lutar pelado demonstra (a luta na sauna é o
ponto alto do filme), e ambíguo como seu penteado de
goma arábica exige. É o primeiro grande triunfo de Mortensen
no sentido de não ser Aragorn (trilogia Senhor dos
Anéis), figura ao qual corre sério risco de viver
e morrer abraçado. O fato de, no final, não sabermos
exatamente qual é a do seu personagem, mas ficarmos
de bem com isso, é uma total justificativa para sua
escalação entre os candidatos ao Oscar de melhor
ator.
Porém, mesmo Viggo ótimo, não eleva o filme além de
um modesto bom.
Conseqüência de David Cronenberg ter escolhido atirar
com violência contra a platéia o submundo da máfia russa
escolhendo soluções seguras e conservadoras: criou um
festival de promessas que não se concretizam.
Poooou! na minha testa. Não sei muito o que
fazer a respeito.
Só sei que não doeu.
SENHORES DO CRIME (Eastern Promises, 2007)
Direção: David Cronenberg.
Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent
Cassel, Armin Mueller-Stahl.
COTAÇÃO: ***
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