ALVO FÁCIL NÃO DÓI
Alexandre Mesquita
 
 

Piada: Uma multidão estava prestes a apedrejar Maria Madalena quando Jesus interviu. "Quem nunca errou que atire a primeira pedra!" Então o Manuel pegou uma, enorme e, pooooou! - no meio da testa da Madalena. "Mas tu nunca erraste?", perguntou Jesus de olho arregalado. "Olha, ô, gajo, desta distância, não." David Cronenberg está de volta com Senhores do Crime (Eastern Promises, EUA / Inglaterra / Canadá, 2007), e parece que veio com a mão pronta para acertar em nós mais um bom filme. Bem, alguma coisa ele acerta, alguma coisa que deixa a sensação que, da forma como o fez, até eu.

Londres. A morte no parto de uma imigrante russa de quinze anos faz a enfermeira Anna (Naomi Watts) entrar em contato com o misterioso diário da menina, escrito em russo. Coincidentemente, Anna descende do Leste Europeu e sofre o trauma de um aborto espontâneo. No diário há um endereço de restaurante. Ela vai atrás e descobre que é propriedade de Semyon (Armin Mueller-Stahl), um senhor idoso com cara de boa fachada. Enquanto isso, o tio da enfermeira, Stepan (Jerzy Skolimowski), traduz o diário e descobre nuances da máfia russa, em um de seus braços mais terríveis, a irmandade Vory V Zakony. Então o bom senhor do restaurante se revela o calmo e maquiavélico chefão todo-poderoso do contrabando de bebidas e do mercado sexual. Para seu desespero, é pai do inconseqüente, meio burro e outras coisas, Kirill (Vincent Cassel), que por sua vez tem como motorista, Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen): ex-presidiário, desovador de cadáveres, assassino profissional, confidente, amigo, e ao que parece outras coisas também. Tem o corpo cheio de tatuagens que contam sua história criminosa, como manda a tradição da Vory. Anna e sua família passam a ser visados. E ela acaba se envolvendo com o multifacetado Nikolai.

Máfia russa e afins, amizade, paternidade, afeto entre amigos, prostituição de menores, códigos de honra, tatuagem como agente autobiográfico, drama de quem não pode ter filho, drama de quem tem filho, ser um thriller meio policial, meio não policial.

Uau!

Quando esperamos que o competente Cronenberg engrene uma quinta na direção de um final digno de todas as expectativas criadas, percebemos que em vez de um sanguinário duelo entre máfias estamos no meio de algo que mais parece uma briga entre vizinhos, daquelas que terminam num simples telefonema para a polícia ou, mais sem graça, num balde de água fria em algumas cabeças.

Fácil diagnosticar por quê. O filme quer ter pinta de violento e fama de digerível. Situações como o rapto do bebê, ou a "execução" do tio de Anna corroboram isso. O diretor conduz corretamente as cenas, mas deixa um cheiro de piloto automático no ar. Para quem gosta de um cineasta do calibre dele, que mostrou ao longo de sua carreira saber dialogar com platéias inteligentes e rebeldes, não dá para ficar resignado.

Ressente-se idem da falta de personagens cativantes. A maioria deles ganha algumas falas no estilo faço o que faço por causa da complexidade da existência, mas tudo não passa de uma tentativa de esconder sua insuficiência de significado e ausência de originalidade. Se fossem assumidamente estereotipados, tipo eu sou o mau e tu és o bom, vamos duelar até eu morrer, o produto sofreria críticas, é verdade, mas por ter um rumo bem definido e a presença do diretor, pelo menos estimularia uma entusiasmada procura por elogios.

Naomi se esforça, mas a sua enfermeira foi condenada pelo roteiro de Steven Knight a ser um não disfarçado de talvez. Vincent Cassel, está no limite entre uma boa atuação e trejeitos forçados, convence de vez em quando, e não exatamente quando quer. O velho chefão assustador assusta menos do que meu vô com um chinelo na mão. A exceção é Viggo Mortensen, com seu Nikolai, cara de menos vinte abaixo de zero como devem ser os russos do crime, exímio mestre da violência como sua arte de lutar pelado demonstra (a luta na sauna é o ponto alto do filme), e ambíguo como seu penteado de goma arábica exige. É o primeiro grande triunfo de Mortensen no sentido de não ser Aragorn (trilogia Senhor dos Anéis), figura ao qual corre sério risco de viver e morrer abraçado. O fato de, no final, não sabermos exatamente qual é a do seu personagem, mas ficarmos de bem com isso, é uma total justificativa para sua escalação entre os candidatos ao Oscar de melhor ator.

Porém, mesmo Viggo ótimo, não eleva o filme além de um modesto bom.

Conseqüência de David Cronenberg ter escolhido atirar com violência contra a platéia o submundo da máfia russa escolhendo soluções seguras e conservadoras: criou um festival de promessas que não se concretizam.

Poooou! na minha testa. Não sei muito o que fazer a respeito.

Só sei que não doeu.


SENHORES DO CRIME (Eastern Promises, 2007)

Direção: David Cronenberg.

Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl.

COTAÇÃO: ***