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O
HERÓI OPACO E A FRACA TRAMA DE RIDLEY SCOTT
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por
Luiz Santiago
Historiador e Crítico de Cinema
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O novo filme do britânico Ridley Scott estreou esse
mês, sem muito barulho da mídia. Talvez a frieza da crítica
justifique-se pelo trabalho pouco profundo e muito aquém
da capacidade de Scott, que já dirigiu obras notáveis,
como Alien (1979), Blade Runner (1982) e
Thelma & Louise (1991).
O filme de Ridley Scott anterior a Robin Hood -
que estava previsto para o ano passado, e se chamaria
Nottingham - foi Rede de mentiras (2008),
que apesar da grande agilidade narrativa e da câmera sempre
inquieta, aliada a uma edição de dar dor de cabeça, não
convenceu em nenhuma hipótese. O filme se mostrou incapaz
de sustentar a própria trama apresentada, tornando todo
o enredo muito superficial, embora o tema central da história
tivesse fôlego para alcançar altos níveis. Ao que parece,
imerso nessa agilidade de câmera e das modulações de narrativa
durante o filme - a alternância cansativa entre cenas
muito lentas e cenas muito rápidas - Scott passou para
a produção de seu novo projeto sem novas preocupações
de mudança estrutural, o que lhe custou o filme.
Robin Hood retoma a linha da "película histórica-lendária",
área bem conhecida por Ridley Scott, que estreou no cinema
em 1977 com o drama Os Duelistas, ambientado na
Era Napoleônica. Depois deste, seu próximo "filme histórico"
seria um fracasso de bilheteria, porém, um primor de filme
- 1492: A conquista do paraíso (1992). Em 2000,
o cineasta traria às telas o sucesso Gladiador,
outro filme histórico, com Russell Crowe no papel principal.
A Idade Média recebeu a atenção do diretor em 2005, com
o belíssimo Cruzada. Portanto, Robin Hood,
também ambientado na Idade Média, e que também traz Russell
Crowe no papel principal, em sua quinta parceria com Ridley
Scott, é produto de um cineasta-designer que já é veterano
em trabalhos com temática histórica, o que faz parecer
estranho a superficialidade da obra.
Talvez o filme tenha encontrado sua minimização no fato
de contrapor duas realidades: a histórica factual e a
lendária mítica. O Robin Hood de Scott não emociona ou
não funciona porque sua força mina para todo o elemento
de reconstrução e construção da lenda, e o filme termina
no momento em que ela começa.
Historicamente, o filme desenrola incorreções históricas
graves, mas é escusado dizer que em matéria de cinema,
raros são os filmes completamente fiéis à história ou
às versões historiográficas. O mais grosseiro erro histórico
em Robin Hood é o desfecho do filme, quando o rei
João I, recusa-se a assinar aquele documento que seria
conhecido como Carta Magna. Todavia, João I, de
fato, assinou o documento, em 1215, mas recusou-se a obedecê-lo,
o que mergulhou a Inglaterra em uma guerra civil, porém
não por muito tempo, posto que o rei morreria no ano seguinte.
No filme de Ridley Scott, esses eventos acontecem de trás
para frente, e terminam com a (incorreta) recusa de João
I à assinatura da Carta.
Contudo, a reconstituição de espaços específicos como
o Tâmisa em frente ao ao castelo, as vilas do interior
do país e os cenários de batalha, são muito fiéis à época
que se destina a retratar, a saber, o final do século
XII e o início do século XIII. Um grande aplauso para
os figurinos, que retrataram de maneira incrível a reserva
religiosa, as condições climáticas e o conservadorismo
típico do norte da Europa àquela altura das Cruzadas.
Não fixado nem no mundo histórico nem na lenda, o Robin
Hood de Ridley Scott é um personagem etéreo, sem força
suficiente para fazer valer ou sobressair-se satisfatoriamente
em algum dos dois mundos. E a interpretação carente de
vigor de Russell Crowe (que deveria ter trazido um pouco
do excesso de Gladiador e um pouco da simpatia
de Um bom ano (2006) para este filme) intensificou
essa sensação de indiferença. O roteiro do filme, portanto,
perde-se entre dois polos de ação, e não poderia ser mais
insosso.
O que deveria temperar a obra eram as imagens, o visual
bem elaborado, tão usado pelo diretor durante toda a sua
carreira. Mas mesmo as imagens do filme são dissonantes
para com o restante do que a câmera capta. Não que essas
imagens não tenham beleza ou valor estético. São imagens
lindíssimas: o estuário do rio Tâmisa, as florestas e
o litoral do norte da França, a região próxima ao Canal
da Mancha; são grandes imagens. Mas destoam do filme,
causam uma espécie de estranhamento negativo, e certamente
não foi uma opção do diretor, posto que sua formação como
designer o impele a encantar com as imagens, não
assustar.
A fotografia de John Mathieson, muito escura, e caindo
em uma bizarra tendência contemporânea que é o monocromatismo,
até chega, em alguns momentos a impressionar, especialmente
em duas sequências: nas passagens de Robin Hood pela floresta,
durante o dia, e toda a sequência do interior da casa
de Marion Loxley e seu sogro, Sir Walter Loxley (interpretado
pelo soberbo Max von Sydow, muitíssimo mal aproveitado,
ainda pior que o seu mau aproveitamento por Scorsese em
A Ilha do Medo, 2009), é muito satisfatória, de
uma beleza rústica e aconchegante, que valoriza em tudo
o que há na sala e no quarto, independente do ângulo da
câmera. Afora esse momento, vale apena citar as panorâmicas
finais, onde, a tentativa de uma fotografia naturalista
saiu melhor do que os artífices de descoloração usados
para a criação de uma aura visual exótica nas sequências
dos flashbacks, que, diga-se de passagem, surgem
em momento tardio, inoportuno, e aos borbotões, matando
o que poderia ser o segundo melhor momento epifânico do
filme. O primeiro, é quando nos é apresentado uma série
de fades e fusões, envolvendo imagens panorâmicas
de diferentes regiões e sua localização e nome em um mapa
antigo, seguido do massacre de sua população sob as ordens
do rei João I - por ocasião da tentativa de alavancar
o tesouro real cobrando massacrantes impostos. Toda a
sequência é de uma enorme força de síntese e possui uma
estranha beleza tanto formal quanto estética.
O elenco de Robin Hood é invejável. Atores de incrível
talento são vistos na tela desfilando... maquiagem e figurinos!
Já citamos aqui o mau uso feito do inigualável Max von
Sydow. Na mesma linha, vemos a fenomenal e belíssima Cate
Blanchett em uma atuação que nos faz perguntar, do outro
lado da tela: "onde está o diretor desse filme?". É muito
claro, portanto, onde está a presença de Ridley Scott
na direção de atores: dizendo o que eles não poderiam
fazer, limitando-lhes o campo de possibilidades de atuação.
Até mesmo o excelente William Hurt está sem graça alguma.
Para que se tenha uma ideia da péssima direção de Ridley
Scott, basta observar o trabalho do ator Kevin Durand,
que, apesar de não ser um excelente ator, fez um trabalho
incrível como o vilão Martin Keamy, na quarta temporada
da série Lost, e que neste filme, exibe apenas
músculos, simpatia e sorrisos, mas atuação que é bom...
nada. A tentativa de uma separação objetiva "homem-ator-ficção-lenda"
trouxe forte carga de impessoalidade a um filme que jamais
poderia conter essa carga - já dissemos que não é um filme
histórico, propriamente dito, o que é injustificável a
forçosa imposição de uma verossimilhança que só faz cansar
o espectador.
Como produto fílmico, Robin Hood é um estrondoso
fracasso. Algumas categorias devem ser aplaudidas, entretanto.
Além da já citada (o figurino), a trilha sonora, o som
e a mixagem de som seguram boa parte das sequências, especialmente
as batalhas ou as cenas leitmotiv para uma sequência
de ação, sejam elas imediatas ou futuras.
A música, especialmente, concentra elementos minimalistas
à la Philip Glass que são muitíssimo agradáveis de se
ouvir, e funcionam perfeitamente o filme inteiro. A edição
deve ser citada apenas por ter um criativo papel na exposição
das cenas de batalha. O trabalho restante é muito comum,
com uso de raccords e elipses básicas que se arrastam
durante as mais de duas horas do filme. Além disso, por
infelicidade, Scott resolveu fazer uso de uma história
com narrativa paralela, tentativa que aplicada a um filme
como Robin Hood (ação-história-lenda) dá um passo
para desanimar o espectador e empobrecer a obra, visto
que nenhuma das duas histórias será contada-resolvida-fechada
a contento.
Como produto comercial, Robin Hood é apenas "fraco",
e pode ser consumido alienativamente como um "filme de
época bonitinho com grandes atores e muitas batalhas".
Para um cineasta do porte de Ridley Scott - não artístico,
digo comercial, mesmo - Robin Hood é o retrocesso
de alguns passos. Pode encantar pelo porte, pela diegese
perfeita aos olhos do público acostumado com mais do mesmo:
filmes com ação, sangue e romance. E por incrível que
pareça, até nisso Ridley Scott peca. Se é um filme essencialmente
comercial, deve-se seguir uma linha típica dos filmes
comerciais, para que o resultado não seja um patinho feio
perante o público ou a crítica. Não que seja impossível
inserir elementos artísticos em um filme comercial - que
sem esses elementos viram "produto industrial". Os bons
cinéfilos sabem muito bem que existem obras feitas pelo
e para o grande mercado, mas que são verdadeiras peças
artísticas, como é o caso de Diário de um paixão
(Nick Cassavetes, 2004), Pecados íntimos (Todd
Field, 2006) e Um beijo roubado (Wong Kar-Wai,
2007).
Robin Hood talvez não valha o ingresso. Mas seria
injusto eliminá-lo na Inquisição da Crítica. É um filme
que precisa ser visto, já que é a única reconstituição
histórica em cartaz, o que é sintomático, em nossa Era.
Mas já alertamos: a obra está longe, muito longe de ser
um grande filme, e pior ainda, muito longe de ser um bom
filme de Ridley Scott.
ROBIN HOOD (Idem, EUA/Reino Unido, 2010)
Direção: Ridley Scott.
Elenco principal: Russell Crowe, Cate Blanchett,
William Hurt, Max von Sydow, Mark Strong, Matthew Macfadyen,
Danny Huston, Kevin Durand, Scott Grimes, Eileen Atkins,
Léa Seydoux, Bronson Webb, Oscar Isaac, Robert Pugh, Alan
Doyle.
Cotação: * |
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