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A adorável animação de Carlos Saldanha, Rio
(2011), tem arrebatado elogios pomposos de boa parte
da crítica, e enfrenta a ira de nacionalistas perdidos
de última hora. O filme conta a história de Blu, uma
arara azul que vive em Minnesota, mas vem para o Brasil
com o propósito de acasalar com a última fêmea de sua
espécie. O palco da trama é a cidade do Rio de Janeiro
em pleno carnaval, lugar onde Blu, sua futura esposa
Jade, e uma enorme bicharada irão enfrentar a máfia
dos traficantes de animais exóticos, ajudada por uma
cacatua ressentida, o perigoso Nigel. Os ingredientes
para um bom filme de animação estão todos aí, e o diretor
consegue fazer de seu filme um tremendo evento, capaz
de agradar e encantar jovens e adultos.
Os nacionalistas de última hora que citei no início,
reclamam da abordagem feita pelo diretor, montando uma
"imagem X do Brasil" lá fora. O que esse povo esquece
é que todos os estereótipos culturais levados para o
cinema não são absolutos, e se aplicam apenas a uma
parte da população de um território - comportamento
cultural comum a qualquer lugar do nosso planeta. Ou
acreditam que os argentinos dançam tango o tempo inteiro?
Que todos os espanhóis reúnem-se para dançar flamenco
ou ver uma tourada, ou que todos os africanos tocam
tambores e que Paris é absurdamente limpa e linda como
vemos em 90% dos filmes? Imagem cinematográfica é tudo,
e é claro que um bom diretor escolhe para seu argumento
uma linha que dê uma visão genérica, parcialmente verdadeira
e culturalmente aproximada da realidade de um lugar.
Nesse caso, o samba, a boemia carnavalesca e os clichês
culturais contidos no roteiro de Rio não me incomodaram
em nada. É preciso saber que estamos vendo a uma animação
comercial, não a um documentário bio etnológico sobre
o comportamento animal e humano no Rio de Janeiro do
século XXI.
Rio é uma das caras da Cidade Maravilhosa, e
não peco ao afirmar isso. Sendo uma construção, o filme
cria a sua própria realidade e mostra sim uma vertente
existente e plausível do Rio de Janeiro. Que muita coisa
foi omitida, isso é óbvio. Mas é necessário relembrar
que o produto não é uma animação educativa, é uma ficção,
e uma ficção que traz a essência de um dos períodos
mais populares do cinema brasileiro: as chanchadas.
É só observarmos a malandragem, as músicas no meio da
projeção, e as trapalhadas de heróis e vilões para vermos
ali traços bem delineados de um cinema muito nosso.
E o resultado, salvo o roteiro do filme que peca por
se atropelar e dar atenção a uma série de coisas sem
importância, é simplesmente adorável.
A sequência de abertura não poderia ser mais exuberante,
em todos os sentidos que essa palavra pode ser aplicada.
A fluidez dos pequenos planos tomados de ângulos altos
e muito baixos perpassa a mata, os animais reunidos,
e a execução de um samba. Somos apresentados a um mundo
aparentemente selvagem, harmônico, tropical, especificamente
brasileiro (apesar dos flamingos, que, embora tenham
espécies naturais da América do Sul, não são aves essencialmente
brasileiras, mas tudo bem). A música e a dinâmica cênica
muito bem coreografadas são os atrativos iniciais, e
se durante o filme, momentos mais fracos cheguem a desviar
a atenção do espectador, uma retomada em grande estilo
é feita, e o encanto retorna. Aí está o ganho dessa
animação: saber alternar a maioria de seus tempos fracos
com momentos de grande força imagética e dramática.
A trilha sonora é outro ponto forte do filme. Com música
original de John Powell e tendo Sergio Mendes e Carlinhos
Brown envolvidos na escolha das composições, o resultado
não poderia ser ruim. Além da famosa Mas Que Nada,
de Jorge Ben, temos Samba de Orly, de Toquinho
e Chico, além de ótimas composições e adaptações feitas
especialmente para o filme. Em nenhum momento as sequências
musicais atrapalham ou atropelam o andamento, antes,
dá a ele uma atmosfera diferente da maior parte das
animações, mesmo que esse uso de música cantada "para
o espectador pelas próprias personagens" já tenha sido
feito muitas outras vezes, principalmente nos filmes
da Disney. No caso de Rio, o quem temos é uma
ligação bem feita entre o mundo musical e o dramático
fictício: as músicas não parecem esquetes mambembes
perdidos no meio do filme, inseridos apenas para dar
um ar "mais melódico e harmônico" à película.
O colorido muitíssimo iluminado da fotografia, a edição
ágil e o carisma imenso das animais fazem de Rio
uma grande animação e uma boa propaganda e preparação
de terreno para as Olimpíadas e para a Copa do Mundo.
Os tropeços do roteiro, principalmente em insistir em
pequenos atalhos na história, não conseguem ofuscar
o brilho desse filme, uma comédia de animação pueril
e simplesmente encantadora. Não tem como não gostar.
RIO (idem, EUA, 2011)
Direção: Carlos Saldanha.
Elenco (vozes originais de): Leslie Mann, Kelly
Keaton, Jesse Eisenberg, Wanda Sykes, Jane Lynch, Rodrigo
Santoro, Jamie Foxx, Will.i.am, Anne Hathaway, Bernardo
de Paula.
Cotação: ****
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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