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Retrato
Juvenil:
A Metáfora do Envelhecimento
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Ricardo Rangel
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Adaptações da literatura para o cinema sempre são tarefas
difíceis, às vezes hercúleas e nada triviais por parte
dos adaptadores em questão: as possibilidades vão desde
uma fidedignidade quase que simbiótica e isomórfica até
o risco do desequilíbrio e da falta de empatia da produção
cinéfila em relação à obra literária. Em alguns casos,
o resultado final pode ficar em um meio-termo, pendendo
tanto para um lado, o do fracasso, como para o outro,
do sucesso. "O Retrato de Dorian Gray" (2009),
de Oliver Parker, adaptação mais recente do clássico de
Oscar Wilde, pode ser encaixado com grande tendência para
o "outro lado", com uma determinada dose de boa vontade
que creio que não se deva faltar ao se observar esta esforçada
e interessante versão.
Em primeiro lugar, a história do filme é conhecida, abrindo
caminho para se permitirem pequenas variações, o que ocorre
no filme de Parker: a fidedignidade completa, pois, não
é de todo preservada, mas não há problemas maiores nisso,
pois não compromete o resultado final. Sobre este quesito
em particular, parece ter havido uma espécie de ranço
e má vontade de uma parcela da crítica especializada,
que de uma maneira geral "espinafrou" o filme, não dando
ao mesmo o seu devido valor, o qual se localiza na competente
fotografia, na direção de arte e reconstituição de época,
bem como no próprio roteiro, eficiente no seu propósito.
Os cenários da Inglaterra vitoriana do final do Século
XVIII e início do XIX são muito bem retratados, com o
perdão da redundância, e as atuações, se não são todas
brilhantes, de forma alguma deixam a desejar: Ben Barnes,
conhecido pelo príncipe Caspian da série de filmes "Contos
de Nárnia", surpreende no papel do belo e jovem protagonista,
que tem seu retrato pintado pelo artista Basil Hallward
(Ben Chaplin, convincente em cena... e com este sobrenome,
a responsabilidade torna-se muito maior ainda!!), que
curte uma vida hedonista, cheia de prazeres mundanos,
enquanto o seu retrato envelhece através dos tempos sob
uma promessa de Dorian de que daria tudo, inclusive a
sua alma, para se manter eternamente embebido em sua prodigiosa
juventude. Henry Wotton (Colin Firth, extraordinário e
intenso como sempre) é o seu preceptor imoral, um indivíduo
da alta sociedade que inicia Dorian Gray nas práticas
viciosas e libertinas, como fumar cigarros, tragar ópio
em cabarés, embriagar-se em festas insanas e não ter limites
para o sexo. A relação, por vezes não consensual, de Dorian
com Basil é ressaltada, com sutilezas nas entrelinhas,
assim como com a atriz de teatro Sibyl Vane e com a filha
de Henry, Emily Wotton (interpretada por Rebecca Hall,
atriz de beleza exótica); estas cenas estão inseridas
no contexto de critíca aos valores anglo-vitorianos que
Oscar Wilde explora em sua magnífica obra.
"O Retrato de Dorian Gray" foi publicado por
Wilde em 1891, e nesse livro são bastante evidentes as
influências do romance gótico e das idéias do decadentismo.
O pacto fáustico de Gray em busca da eterna aparência
de beleza e juventude, seu processo de auto-destruição
e passagens homoeróticas retratadas no livro alimentaram
várias críticas na época por parte dos conservadores,
que o acusaram de ser "imoral". O autor respondeu a elas
defendendo a amoralidade da arte. No prefácio do livro,
em suma, Wilde coloca que o propósito da arte é não ter
propósito, uma declarada afronta a esta mentalidade vitoriana
referida que pensava nela como instrumento de educação
social e de "elevação moral".
A metáfora do envelhecimento é retratada contraditoriamente
pela figura do jovial Dorian e seus insaciáveis desejos.
A felicidade, para Gray, consistia no ideal anti-estoico
da satisfação efêmera dos prazeres, que com seu tempo
de eternidade se revelam vazios e sem propósito: a paixão
por Emily não o tornou mais humano, mas sim consciente
de suas vicissitudes e de sua moralidade, bem como da
sua deparação derradeira com a maldita ou bendita finitude
ao se confrontar com sua imagem desgastada a qual revela
os traços da sua pérfida personalidade. A metáfora de
Dorian Gray está onipresente em nossas vidas, vãs existências
ou não, e as reflexões que a mesma suscita são sempre
necessárias e válidas, sejam veiculadas por eficientes
adaptações cinematográficas como essa - bem narrada, distribuída
e contextualizada -, como pela obra original, insubstituível
e de qualidade inenarrável por si só. Boa literatura e
bom cinema, eis uma conditio sine qua non para
uma qualidade de vida intelectual a que todos deveriam
se entregar. A arte, como sabiamente apregoou Wilde, é
amoral, e, no rumo do pensamento dele, nossas humildes
existências, se não o são, deveriam ser... Um preceito
moral, amoral ou imoral este? Apenas a (A)(I)Moralidade
dirá...!!
O RETRATO DE DORIAN GRAY (Dorian Gray, Reino
Unido, 2009)
Direção: Oliver Parker.
Elenco principal: Ben Barnes, Colin Firth, Ben
Chaplin, Rebecca Hall, Emilia Fox, Maryam d'Abo.
Cotação: **** |
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