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Se no ano passado tivemos em destaque as animações
de um ar mais adulto, que traziam a saga do anti-herói
para a tela (como no caso de Meu Malvado Favorito
e Megamente), esse início de 2011 começa por
um via diferente, uma revisão do gênero western
em um pastiche cinematográfico que já começa no nome
do protagonista, Ringo + Django = Rango. Mas para esse
nome, também podemos usar o elemento que nos é fornecido
pelo filme. Quando o camaleão, até então sem nome, está
no bar da cidade de Poeira, a bebida de cacto
que ele tem nas mãos é da marca Durango - um dos 31
Estados do México - de onde o lagarto tira as cinco
últimas letras e cria a sua personagem.
Para os espectadores das animações pós-3D, está bem
claro que junto à nova tecnologia, parece ter-se firmado
uma tendência que já sentíamos no final dos anos 1990,
e que hoje é um caminho narrativo sem volta: foi-se
o tempo que animações eram filmes para criança, e Rango
é um exemplo definitivo disso. O Velho Oeste ganha com
esse filme, um sem número de clássicas citações visuais,
retiradas de obras como Star Wars e Apocalypse
Now (na batalha aérea e bombardeios dos morcegos
- e ainda vale lembrar que o filme é coproduzido e finalizado
pela estreante Light & Magic, de George Lucas), No
Tempo das Diligências, Matar ou Morrer, Por
Um Punhado de Dólares, Da Terra Nascem os Homens,
Era Uma Vez no Oeste, Butch Cassidy, e
a lista só tende a crescer se lembrarmos de todas as
cenas e sua composição e beleza visuais. Além das referências
formais e estéticas, os motivos narrativos recorrentes
do western clássico como o herói nem sempre moral
mas de bom coração, os vilões que se dividem em institucionais
(geralmente ligados ao governo) e externos (nesse caso,
o Jake Cascavel), e os feios, cômicos ou atrapalhados
personagens, que em Rango, vão do próprio protagonista
aos vários outros habitantes da cidade de Poeira;
do mesmo modo, temos o prazer de ver na tela "Os Três
Amigos", cancioneiros mexicanos muito típico das comédias
western. De toda essa gama histórica do gênero, com
direito a doses de misticismo e crítica social, surge
essa gloriosa animação dirigida por Gore Verbinski,
o realizador da cinessérie Piratas do Caribe.
Rango é um camaleão urbano (e ator), que vive em um
aquário com seus amigos inanimados: uma palmeira, uma
boneca só com o tronco, um peixe de plástico e um inseto
morto. Sua vida consiste em interpretar papeis, criar
situações onde seus amigos estão em perigo e ele é sempre
o salvador destemido. A solidão e uma profunda crise
de identidade consomem o camaleão (percebam o quanto
isso é interessante), que interpreta um herói, mas na
verdade não se crê nem de longe como um. Do aquário
até a cidade de Poeira, o camaleão sem nome passará
por um longo caminho até que ele mesmo encontrará a
oportunidade para criar sua personagem em um "teatro
vivo", e daí surge Rango, um perigoso e violento facínora,
matador de muitos homens, conhecedor dos ranchos e terras
mais remotos do Velho Oeste, temido e venerado por todos,
desafiador de tudo. O falso facínora ascende na organização
social de Poeira, ganha a simpatia do povo, mas
em pouco tempo terá em mãos um problema de dimensões
gigantescas: a falta de água na cidade, que está no
meio do deserto.
Não só uma alusão à cidade de Las Vegas ou qualquer
outra grande cidade estadunidense daquela região que
floresceu da corrupção política e arbitrárias apropriações
de terras em tempos da Marcha Para o Oeste, como também
a conscientização do poder que encerra aquele que controla
a água potável, Verbinski nos presenteia com um filme
engraçado e ao mesmo tempo cheio de indicações críticas,
seja em relação ao próprio protagonista ou às personagens
à sua volta. O roteiro, embora pouco original na linha
dramática, traz piadas muito engraçadas que por sua
vez são carimbadas pelas cações d'Os Três Amigos, os
cancioneiros que agem como uma Cassandra na história,
sempre prevendo a morte de Rango, e suspeitando de tudo
e de todos. Ligado à performance dessa tríade de músicos,
temos um dos mais incríveis pontos técnicos do filme:
a trilha sonora.
Assinada por Hans Zimmer (de Megamente, A
Origem e Batman - O Cavaleiro das Trevas),
Rango é um desfile de temas musicais que vão
de Ennio Morricone e melodias tradicionais até arranjos
para Ave Maria de Schubert, A Cavalgada das
Valquírias de Wagner, Danúbio Azul de Strauss
e ainda uma composição de Danny Elfman, tudo isso orquestrado
em um crescendo dramático perfeitamente aplicado ao
que vemos na tela. Mesmo a mudança brusca de melodias
no meio da projeção não nos causa estranheza, por estarem
aliadas às mudanças visuais. Podemos, então, dividir
a trilha sonora em dois modos de uso, o de acompanhamento
puro e simples e o de criação da atmosfera dramática.
Os departamentos de arte e efeitos visuais e especiais
dão o toque final a todo o emaranhado árido de Rango.
A fotografia sempre muito clara, com indicações de cores
típicas de lugares secos, os tons térreos e o contraste
inicial com a camisa praieira do camaleão já nos chamam
a atenção. Com o desenvolver da trama, e mesmo a partir
da chegada de Rango à cidade de Poeira, o cinza
se torna mais presente, mesmo na madeira ressequida
das casas da cidade. Com nuances muito particulares
e à exceção dos olhos e roupas, a maior parte dos habitantes
do local possuem esse tom acinzentado como cor de pele.
No meio deles, destaca-se Rango, um lagarto verde com
pintas amarelas. As tomadas noturnas, os extremos e
as grandes panorâmicas, são arrebatadoras. A cavalgada
ao sol, as imagens do grupo percorrendo o Monument Valley,
o deserto ao anoitecer, as dunas se desfazendo ao vento,
o camaleão seguindo a "trilha da lua", todas essas imagens
possuem uma beleza clássica com um sabor tão especial
que é impossível a gente não sorrir, balançar a cabeça
ou falar mentalmente algumas daquelas gentis palavras
de admiração. Não é para menos, o gráfico de Rango
é definitivamente inspirador.
Cada faixa etária e cada tipo de espectador vai entender
e abstrair o filme de uma forma diferente. Se isso já
é regra para todas as outras produções cinematográficas,
essa característica torna-se a essência desse filme,
dado o seu universo implícito, passível de ser decifrado
apenas por quem tem uma proximidade maior com o gênero
western ou com o próprio cinema. Mesmo que mais
para o final da obra Verbinski perca a mão e decepcione
um pouco em relação aos rumos do filme, especialmente
em todas as sequências após a chegada de Jake Cascavel,
a fita permanece uma revelação muito boa, e por isso
mesmo, tenho o orgulho de lhe ceder as cinco estrelas
de "é imperdível assisti-lo", porque de fato,
Rango, o falso facínora, é uma personagem imperdível.
RANGO (idem, EUA, 2011)
Direção: Gore Verbinski.
Elenco principal com vozes originais de: Johnny
Depp, Isla Fisher, Abigail Breslin, Ned Beatty, Alfred
Molina, Bill Nighy, Stephen Root, Harry Dean Stanton,
Ray Winstone, Ian Abercrombie, James Ward Byrkit.
Cotação: *****
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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