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Com base na obra do escritor californiano Nicholas
Sparks, o mesmo autor do romance que deu origem ao excelente
filme dirigido por Nick Cassavetes, Diário de uma
paixão (2004), o sueco Lasse Hallström (autor de
obras obrigatórias a qualquer aspirante a cinéfilo ou
a cinéfilos mais "liberais": Minha vida de cachorro
(1985), Regras da vida (1999), Chocolate
(2000) e Casanova, de 2005), trouxe às telas
do cinema o insosso Querido John (2010), uma
obra que dividiu a crítica, e que dá mais material aos
que a condenam do que aos que a defendem.
O filme conta a história de John e Savannah, dois jovens
que se conhecem nas férias (ela, da faculdade; ele,
do Exército), e se apaixonam perdidamente, embora não
de imediato. O rapaz tem um temperamento hostil, e uma
vida pregressa não muito louvável, mas que não é explicitada,
o que dá ao diretor um ponto de bom senso. A garota
é uma quase-perfeita, que milita em obras de caridade
e é sentimental demais, o que lhe dá um ar um pouco
chato, que se dilui aos poucos, no decorrer da trama.
Com os dias que correm, a relação entre os belos jovens
se intensifica, mas chega o momento que a partida dele
para a guerra (Iraque), põe uma pausa decisiva no duo-amor
jurado para sempre. Ambos trocam cartas e cartas, até
o momento em que Savannah declara ter se apaixonado
por outro homem, o que faz com que o espírito destrutivo
de John renasça, e ele faça da guerra a sua sublimação.
O filme caminha um pouco às voltas com a fórmula "conquista-perde-reconquista",
mas consegue levar o espectador por um caminho mais
belo, e de certa forma, mais poético que os "romances
básicos" a que estamos acostumados.
Hallström decepciona com classe, se é que isso é possível.
Querido John é o seu filme mais fraco, e com
uma mise-en-scène tão a desejar, que nos lembra
os filmes nacionais com atores-novela cuja única capacidade
em atuar é a de "ser bonitinho", mas mesmo assim, cativa
por seu mise-en-cadre e pela opção em trazer
a imperfeição como realidade e abraçar o maior número
de símbolos possíveis, mesmo que representem um outro
tempo, quando o romance era romântico ou, no mínimo,
acontecia em Casablanca ou na Martinica: a lua, as cartas,
o desencontros, a disparidade do par, o "enfrentar juntos",
as brigas, a superação.
John (Channing Tatum, em interpretação rala, mas não
descartável), é um Bogart com beleza e músculos, mas
sem inteligência nem astúcia, que está tão angustiado
consigo mesmo, que a única coisa que consegue fazer
bem, o filme inteiro, é ser soldado. O desapego do rapaz
chega a ser de mal gosto, e sua frieza em demonstrar
sentimentos, idem. A relação do jovem com o pai (interpretado
pelo excelente Richard Jenkins, o único ator-fenômeno
do filme, que dá vida a um autista com uma paixão colossal)
é ainda pior, mas não podemos culpá-lo de todo, pois
aí se encontra uma ingrata armadilha de roteiro, onde
causas psicológicas explicadas aos pedaços deveriam
enriquecer a trama, mas na verdade só complicam a persona
do jovem protagonista.
Para um romance comercial que se pretende "um pouco
mais", faltou o "empurrão a mais" (assim como em Robin
Hood, onde comentei os erros de Ridley Scott em
subverter a ordem de estrutura mercadológica do filme:
se é comercial, que o seja com todos os seus ingredientes,
mesmo que se pretenda mais; e na época, citei casos
de excelentes resultados nesse sentido, como Pecados
íntimos (2006) e Um beijo roubado, de 2007).
Savannah (Amanda Seyfried, que se saiu um pouco melhor
em Mamma Mia! , 2008), irrita com suas idiossincrasias
e um senso de realidade quase surreal, o que não é de
todo mentira, já que realmente existem pessoas assim,
mas é algo que irrita profundamente, e não vejo nenhuma
justificativa artística, cênica ou fílmica, para manter
um perfil tão quase repelente em uma película onde se
devia ao menos amar a protagonista-mocinha-pura-perfeita.
O desfecho da obra - em caminho abissalmente oposto
ao livro, segundo me disseram - não agrada nem mesmo
que não leu o volume. Ou melhor: agrada àquelas pessoas
que ainda vivem nos tempos das princesas de Walt
Disney.
A fotografia de Terry Stacey (o mesmo fotógrafo de P.S.
Eu te amo, 2007) encanta, e é responsável por boa
parte da poética visual da obra. Sua planificação sob
os cuidados de Hallström, é simples, sem nenhum virtuosismo
ou invenções estapafúrdias, que trazem à realidade diegética
o máximo de "verdadeira realidade" possível.
A música de John Powell, vai pelo mesmo caminho da fotografia,
mas não é usada com nenhuma diferença daquilo que sempre
tivemos. Até em Chocolate, Hallström foi mais
preciso quanto a relação imagem fílmica-trilha sonora.
As minhas maiores críticas vão para Lasse Halltröm,
que baixou a guarda e pulverizou açúcar hollywoodiano
onde poderia haver a umidade indecisa típica do existencialismo
de algumas de suas obras anteriores, ou de clássicos
de seu país de origem. O resultado fílmico é daqueles
que não se pode definir direito. Encanta, mas deve muito
ao espectador crítico. E isso vale para os atores e
para a obra, como um todo. Volto à questão primeira,
que usei como título, à guisa de linhas e linhas de
introdução: Querido John é obra de um neo-romantismo
incompreendido ou cópia em nova roupagem do que já tínhamos
nos romances cinematográficos?
QUERIDO JOHN (Dear John, EUA, 2010)
Direção: Lasse Hallström.
Elenco principal: Channing Tatum , Amanda Seyfried
, Richard Jenkins , Henry Thomas , D.J. Cotrona.
Cotação: **
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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