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Lenda viva do cinema, o italiano Michelangelo Antonioni,
atualmente com 93 anos de idade, é responsável pela
direção de algumas das obras mais significativas da
Sétima Arte em todos os tempos. Um desses exemplares
se encontra em "O Passageiro - Profissão: Repórter"
(1975), recentemente lançado pela primeira vez em DVD,
com o título nacional simplificado, empregando somente
a segunda designação. Agora tal obra é chamada de "Profissão:
Repórter", apenas.
Neste filme, Antonioni mostra com plenitude seus dons
de cineasta, apresentando um vasto domínio de sua arte.
O repertório de recursos estilísticos empregado pelo
realizador enche olhos, ouvidos e mentes, seduzindo
a quem se propõe degustar da obra em questão.
Antes de se efetuar uma breve análise de parte do cabedal
estético de que dispõe "Profissão: Repórter",
um resumo de sua ação. O reconhecido jornalista David
Locke (Jack Nicholson, contemplando sua grande fase
setentista) se encontra na África produzindo materiais
para um documentário (presumivelmente, de teor sócio-político).
No hotel em que se acha hospedado, conhece o negociante
David Robertson, que guarda razoável semelhança para
com as suas feições. Um dia, o entediado Locke descobre,
antes do que todos, que seu vizinho de quarto morreu
subitamente. De impulso, ele resolve assumir a identidade
do quase-sósia e seguir o personagem do mesmo, comparecendo
inclusive a compromissos de Robertson anotados na agenda
do morto. Sucede-se então um suspense reflexivo e existencialista,
um road-movie de fato e também da alma.
Nesse ponto, já se pode perceber que se trata de um
filme diferenciado. A incursão psicológica com que é
abordado o tema da troca voluntária de identidade, além
de denotar nitidamente um matiz existencialista a toda
a narrativa, coaduna com uma proposta que Antonioni
havia discutido em um de seus trabalhos anteriores,
o magistral "Blow Up" (1966): a rotina como o
veneno da motivação vital e a necessidade premente de
fuga dela para a manutenção saudável do ser. A desilusão
de Locke com seu cotidiano o leva a reinventar a própria
vida pela via da identidade alheia, o que poderá lhe
custar muito caro.
O leitmotiv onipresente da filmografia do italiano
não poderia deixar de marca presença aqui também. A
incomunicabilidade, celebrada sobretudo na trilogia
constituída de "A Aventura" (1960), "A Noite"
(61) e "O Eclipse" (62), impregna grande parte
da narrativa de "Profissão: Repórter", nas mais
diferentes formas: na barreira lingüística que separa
nativos de viajantes, na preservação da individualidade,
no conformismo, na irredutibilidade, e até na abordagem
da narrativa, como a personagem de Maria Schneider de
quem sequer sabemos o nome. O deserto, enquanto paisagem
subjetiva, é a síntese do próprio isolamento do homem,
e o diretor escreve poesia visual com tal recurso.
O modo como Michelangelo filma merece especial atenção.
E cabe aqui dizer, como ele enfoca não só a imagem,
mas também o som, tudo em nome de uma estética refinada.
Cineasta de experimentalismo engajado, Antonioni utiliza
armas afiadas para expressar suas idéias, e desfila
imagens peculiares - paisagens, arquiteturas e pessoas
são enquadrados poeticamente, de maneira única. A obsessão
por uma imagética graciosa faz o diretor tanto procurar
locações deslumbrantes (as construções de Gaudí e uma
estrada arborizada bilateralmente são exemplos) quanto
repetir metáforas visuais, como a do cálice transformado
em brinquedo, posto a rodar - cena presente também em
um anterior a este, "O Eclipse", e em um outro,
o bastante posterior "Eros" (2004), obra da qual
participa diretivamente em um segmento e sua referência
mais recente.
A imagem também está a serviço de um cinema político,
de denúncia, na ótica do diretor: em "Profissão...",
há a cena de uma execução de um inimigo do Estado (ou
melhor, do poder vigente), autorizada pelo governo.
Ocorre que esta não é encenada, trata-se de uma footage
real enxertada na narrativa de ficção.
O movimento da câmera se acha intensamente explorado
na concepção fílmica de Antonioni.
Às vezes, tem um significado mais lírico, como as chicotadas
pendulares na cena em que os personagens de Nicholson
e Schneider estão em um bar à beira da estrada - metáfora
da inquietação do protagonista. Em outras, adquire uma
representação mais descritiva, com a câmera se movimentando
na horizontal para acompanhar o olhar humano, seguir
as ações, para questionar. A panorâmica, enquanto movimento
da câmera-olho, adquire status de instrumento de precisão
nesta obra de 75.
O uso do som é notabilizado por Antonioni, fugindo da
burocracia habitual com o qual é usualmente tratado
pela maioria dos diretores. O realizador o emprega a
serviço da narrativa com uma maestria ímpar, arrebatando
o espectador. Como exemplo, na cena em que Locke substitui
a foto no passaporte de Robertson pela sua, a voz em
off que ecoa nos sugere que Locke está memorialmente
reconstituindo um diálogo do passado entre os David,
em formato de flashback. Mas não é o que ocorre:
a câmera mostra a posteriori que ele (e nós,
a platéia) está (estamos) ouvindo o som que vem de um
toca-fitas, o qual reproduz uma conversação gravada
entre os personagens em questão. As porções sonoras
fora de cena na mais célebre passagem do filme - a saber,
um extraordinário plano-seqüência de sete minutos de
duração - são de uma riqueza admirável e fundamentais
para se compreender a conclusão da trama. Destaque para
o estampido de um tiro abafado pelo som do arranque
de um veículo.
É justamente esse tal plano-seqüência a cereja do bolo
estético confeitado pelo diretor. Dos pontos de vista
técnico e semiótico, se apresenta extraordinário, pois
se assenta na maior parte em um zoom lentíssimo,
que sai do quarto de Locke para ganhar o mundo exterior
a ele, e encerra mostrando o local de onde partiu, então
sobre nova perspectiva. Michelangelo também o emprega
como um truque, hipnotizando a platéia e brincando de
esfinge. A câmera não aponta para a ação: descobrimos
o que está acontecendo pelo som fora do quadro, e ainda
assim sem uma elucidação completa. Em verdade, Antonioni
dá uma pequena e preciosa pista, quando, em passagem
fundamental para a compreensão dos fatos, ele desloca
a câmera sutilmente para a direita, de modo a aparecer
o tênue reflexo de um vulto no vidro da janela do quarto.
Confira com calma e atenção.
Por sua praticidade, o DVD permite que possamos assistir
repetidas vezes trechos preferenciais ou o filme inteiro.
Através das revisitações, é possível progressivamente
entender melhor a "Profissão: Repórter", bem
mais que a um simples olhar, pois se trata de uma obra
que exige tal demanda para que se faça uma extensa exegese.
A análise aqui apresentada foi realizada ainda no calor
de uma única sessão do filme, e certamente, é preliminar
e incompleta, por sua natureza. Serve como um prólogo
superficial à estrutura complexa que tal película apresenta.
Inegavelmente, tal tarefa seria facilitada caso a distribuidora
tivesse tido a preocupação de legendar em português
as duas faixas de áudio com comentários originais em
inglês - uma com o ator do filme Jack Nicholson, outra
com seu roteirista Mark Peploe e a opinião da jornalista
Aurora Irvine. Entretanto, para obras como "Profissão:
Repórter", todo o comentário é pouco. Aqui, se encerra
uma humilde tentativa nesse sentido.
PROFISSÃO: REPÓRTER (Professione: Reporter
/ The Passenger, produção Itália-França-EUA-Espanha,
1975)
Direção: Michelangelo Antonioni.
Elenco: Jack Nicholson, Maria Schneider, Ian
Hendry, Jenny Runacre, Steven Berkoff, Ambroise Bia.
COTAÇÃO: *****
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