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*Artigo originalmente postado no dia 20
de Julho de 2010 no blog "Cinebulição"
(http://www.cinebuli.blogspot.com)
Falar de boas comédias em pleno século da banalidade
torpe parece um sonho de qualquer cinéfilo, embora há
quem prefira e aplauda celuloides da "estirpe" de Se
beber não case (2009). Recentemente, em um artigo
publicado no blog Cinebulição sobre Billy Wilder, comentei
muito en passant sobre o frágil ponto da abordagem
cômica nos filmes (sem elegância alguma) da atual Hollywood,
salvando-se aí o magnífico Woody Allen (que está filmando
na Europa), os irmãos Coen, e obras no estilo de Amor
sem escalas (2009).
O Pequeno Nicolau (2009), comédia francesa de
muito bom gosto, pode não ser (e não é) um filme bem
fechado, tendo tropeços imperdoáveis de edição, mau
uso de uma trilha sonora muito boa, e interpretação
medíocre do protagonista mirim, cuja simpatia não salva
o personagem; mas é um filme que guarda um doce ar nostálgico
de uma França de tempos idos, tendo um grupo de estudantes
como foco central da trama - que, diga-se de passagem,
sofre por querer levar adiante narrativas paralelas
que só são suportáveis por algumas sequências salvadoras,
como a que Clotaire (este sim, muito bem interpretado
por Victor Carles), acerta pela primeira vez uma pergunta
na sala de aula, e é aplaudido por um bom tempo na frente
do Ministro da Educação, que se espanta com o entusiasmo
dos colegas, refletindo: "Foi tão difícil assim
[a pergunta] ?". Apesar de todos os tropeços
técnicos, o filme de Laurent Tirard consegue fazer o
espectador rir, mesmo com o uso de clichês cômicos e
gags já vistas por amantes do cinema mudo.
O filme conta a história de Nicolau (Maxime Godart),
garoto de infância tranquila e feliz, que se vê extremamente
preocupado depois de ouvir a história do Pequeno Polegar,
pois imagina que sua mãe está grávida e que irá abandoná-lo
em uma floresta. O roteiro (que se baseia nas histórias
em quadrinhos de René Goscinny e Sempé) circula uma
série de absurdos dos batutinhas, que interpretam de
forma trágica a conversa dos adultos e procuram de algum
modo, alterar o que pensam ser a realidade. Um gângster
assassinado, um mecânico confundido com um matador de
aluguel, uma poção mágica que dá extrema força a quem
bebe (como a de Asterix e Obelix), a tentativa de ganhar
500 francos com uma roleta em miniatura, e a "direção"
de um carro por um garoto que usa fantasia de astronauta,
são algumas das aventuras do grupo de amigos, que é
formado por diversos estereótipos de crianças estudantes,
desde o "burrinho da sala" ao "queridinho da professora".
O filme termina com a aprendizagem de uma lição de vida
para Nicolau: quando crescer, ele quer...
A inocência perdida e as burlescas situações ganham
um ar vintage mau revisado, mas querido e admirado por
muitos, o que faz de O Pequeno Nicolau um filme
que agrada mesmo os mais exigentes espectadores, se
não como produto fílmico (o nosso caso), ao menos como
diversão, já que é impossível não rir de algumas (e
são tantas!) situações apresentadas.
A direção do elenco infantil deixa a desejar em muitos
pontos, especialmente no que se refere ao protagonista
da obra. Mesmo assim, como já dissemos, algumas "sequências
salvadoras" equilibram quase que por completo as barrigas
contidas nos 100 minutos de filme. Não é uma comédia
francesa atual do porte de Bem vindo ao norte
(2009), mas trabalha suas imagens para tocar no espectador
através de um conto infantil cheio de imaginação e muita
ação inteligente sem apelo violento, sexual, câmeras
trepidantes, videoclipe e explosões. Não estamos diante
de uma obra para ser posta na lista de melhores filmes
do ano, ou de marcos de obras de uma época. Mas certamente,
diante de um conto infantil necessário em tempos como
os nossos.
O PEQUENO NICOLAU (Le Petit Nicolas, França,
2009)
Direção: Laurent Tirard.
Elenco principal: Maxime Godart, Valérie Lamercier,
Kad Merad, Michel Duchaussoy, Daniel Prévost.
Cotação: **
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