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O que é um filme-pipoca? Acho que qualquer resposta
passa por: filme que não fazer pensar, que se encontra
com os neurônios só para falar de mulher, cerveja e
futebol; com mensagem moral barata e ingênua; filme
para se comer, processar internamente e sair do corpo
na forma que ele merece. Para apreciadores do bom cinema,
destino sombrio para tempo e dinheiro. Existe alguma
forma de saber que um filme é pipoca antes de pagar
o ingresso? Bem, uma história sobre menininha que sonha
ser miss e que, depois de muito sacrifício, vai disputar
um concurso chamado Miss Sunshine (algo como "Bela do
Amanhecer") é, sem dúvida, candidata.
Pois, ingresso comprado, poltrona escolhida, luzes apagadas
e sem o direito de voltar atrás, descobri que o concurso
Miss Sunshine tem a ver com um espetáculo perverso.
Meninas de nove ou dez anos vestidas como Barbies, Susys,
Babuscas, enfileiradas num palco, jogando o jogo: vença
ou a orgulhosa mamãe ali na primeira fila puxa o gatilho.
A vitória, óbvio, vai para quem se parecer mais com
aquele pedaço de plástico que namora o Ken. A expectativa
sobre a participação de Olive (Abigail Breslin) é de
que ela venha trazer algo diferente, para redimir essa
ode à infância perdida. Mas entre querer e fazer há
um intervalo, mais ou menos de cento e um minutos chamado
Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine,
EUA, 2006).
Olive, nove anos, cultua misses, moças lindas que, na
televisão, brilham muito. A menina é um mar de inocência.
Glamouriza o que vê, desconhece as dificuldades do mundo
que não vê. O pai a pressiona. Ela deve ser uma vencedora
e, portanto, não pode fazer coisas como tomar sorvete,
se não fica uma miss gordinha, loirinha do cabelo escorrido,
que usa óculos fundo-de-garrafa. Uma forma pouco corajosa
de dizer que ela já é tudo isso, menos miss. Mas...
... a jovem anti-beleza padrão tenta. Encara concursos
na escola, apoiada por toda a família. Pelo avô carinhoso
que bola coreografias, compra revistas de misses e sabe
tudo de talco. Pelo pai rigoroso que a ama e quer vê-la
como ela própria quer, uma vencedora. Pela mãe amiga.
Pelo tio culto e pelo irmão disciplinado.
O olhar de Olive, boiando no mar da inocência, não permite
a ela entender certas coisas.
Comecemos pelo adolescente, o Avô (Alan Arkin, oscarizado).
Rebelde, estilo bom vivant, e não é bem de talco que
gosta de encher o nariz. Olive pensa que ele compra
montes de revistas de misses porque elas usam belos
vestidos, mas é justamente por não usarem nada.
O irmão Dwayne (Paul Dano) tem quinze anos e é o mais
idoso da casa. Rabugento. Fez voto de silêncio para
mostrar a disciplina da força aérea americana, seu grande
sonho. Comunica-se através de um bloco de notas. Odeia
a humanidade, essa coisa podre, e odeia sua família
porque ela é fruto do que a humanidade podre faz numa
privada de banheiro público. Prefere fingir ler um livro
que pôr os olhos em alguém dela, com exceção de Olive.
O tio Frank (excelente Steve Carell) é o suicida homossexual
da família. Foi desprezado por quem ama e jurou de morte
a si mesmo. Espera só o momento de pegar-se desprevenido.
É o maior especialista em Marcel Proust dos EUA, segundo
ele mesmo.
Curiosamente, essas são as primeiras características
de mundo real que Olive descobre. Ela olha para o tio
com cara de quem só não entendeu se suicida homossexual
é melhor ou pior do que maior especialista em Marcel
Proust. O tio faria tudo por ela. O pai Richard (Greg
Kinnear) vive exaltando os vencedores para exorcizar
a própria condição de derrotado. Professor inexpressivo,
desenvolveu a teoria das nove regras de auto-ajuda,
que através de nove passos ajudam a pessoa a se tornar
uma vencedora em nove décadas. A impressão é que, se
Olive fizer os passos certinhos, ele também a ama. Apenas
a mãe Sheryl (Toni Collette, ótima de sempre) parece
mesmo mãe. Ama a filha e quer a todo custo lhe dar oportunidades.
No começo, um categórico jantar com todos os envolvidos.
O clima é tal que se a sala tivesse sido construída
sobre um cemitério, e os mortos levantassem buscando
vingança, só alegrariam o ambiente. Os adultos caem
uns contra os outros e verdades são ditas na frente
de Ólive. Um telefonema, na hora que a mãe explicava
achar homossexual suicida pior do que especialista em
Marcel Proust, aparece para fazer o papel de Porta
da Esperança. Olive foi selecionada para o famoso
Concurso de Beleza para meninas "Pequena Miss Sunshine"
que acontece todos os anos na Califórnia, novecentos
quilômetros da onde estão. Devem chegar lá em dois dias.
O pai Richard diz que está só esperando o telefonema
do empresário o qual lhe jurou que essa história de
vencedores em nove passos com certeza fará sucesso com
livros e DVD's. Mas enquanto o telefonema não chegar,
a grana que seria investida para pagar avião e estadia
dá para alimentar a família mais metade da África durante
um ano. Impossível irem. A mãe se impõe e berra que
irá de qualquer jeito, se trata da felicidade da filha.
O avô berra porque ultimamente só tem comido coxas de
frango em conserva. Frank berra em busca do tempo perdido
e o garoto mudo berra no bloquinho. No meio disso, Olive
corre de um lado pro outro, gritando de alegria. Resultado.
Todos irão, mas de kombi, e amarela.
No álbum de fotos dessa parte road movie do filme
há: momentos de tensão (a kombi amarela de Olive chegará
a tempo?), humor leve (os problemas inesgotáveis da
kombi amarela), mais momentos de tensão (estacionar
a kombi amarela), humor negro (a forma como o avô a
certa altura viaja na kombi amarela), momentos de tensão
parte três (sair do estacionamento com a kombi amarela),
drama (Dwayne descobre dentro da kombi amarela que é
daltônico; quem já desejou ser piloto sabe da porcaria),
frustração da frustração (o tio Frank encontra num posto
de gasolina o jovem que o abandonou, acompanhado pelo
parceiro; a kombi amarela passa a ser sondada como local
para suicídio). Conclusão, a kombi amarela não sabia
com quem estava lidando quando saiu do asilo. Cena emblemática:
ao receberem de um guarda rodoviário a ordem de parar,
Richard estaciona e suplica à sua trupe Brancaleone,
Por favor, pessoal, ajam como se todo mundo fosse normal.
A avalanche de azares na viagem coloca grande expectativa
sobre o desempenho de Olive no concurso. Ela tem de
ganhar, poxa vida. Tem de redimir sua família, tão perdedora,
tem de redimir a kombi amarela, tão esforçada. Fantástica
a atuação da pequena Abigail Breslin. Em pequenos gestos,
principalmente com os olhos, e respostas curtas ela
demonstra sentir a pressão que carrega nos ombros. Além
de enfrentar, não somente um monte de princesas pré-moldadas,
mas o conceito moderno de perfeição na beleza. Exigente,
meticuloso, que joga meninas de cinco anos para fora
da cama de madrugada para iniciar a clonagem da Barbie.
Quem olha para Olive indo para o palco enfrentar tais
criaturas, torce para abrir um buraco no chão e ela
cair no inferno onde as coisas pelo menos piores não
seriam.
Pareceu-me que a intenção dos diretores Jonathan Dayton
e Valerie Faris e do roteirista Michael Arndt era abordar
vencedores e perdedores, dando a moral que vencedores
são os que tentam, perdedores os que não tentam. Bingo!
Pode-se rir dessa pureza, ironizando que para engolir
tal ingenuidade, só com um saco grande de pipoca. Fui
o primeiro a aderir. Levantei da poltrona e corri para
a bombonière. Enfiei a mão no bolso e parei no meio
do caminho. Em cinema de shopping, a grana investida
num saco de pipoca pequeno, pode alimentar metade da
África, quando na promoção. Voltei para minha poltrona
a tempo de acompanhar aquela bagunça deliciosa que é
o final do filme. De estômago vazio, é verdade, mas
muito consciente.
Finalmente um filme-pipoca que me fez pensar.
PS: A kombi amarela foi a grande injustiçada do Oscar.
PEQUENA MISS SUNSHINE (Little Miss Sunshine,
EUA, 2006).
Direção: Jonathan Dayton e Valerie Faris.
Elenco: Abigail Breslin, Greg Kinnear, Toni Colette,
Alan Arkin, Steve Carell.
COTAÇÃO: *****
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