MISS PIPOCA, MINHA FAVORITA
Alexandre Mesquita
 
 

O que é um filme-pipoca? Acho que qualquer resposta passa por: filme que não fazer pensar, que se encontra com os neurônios só para falar de mulher, cerveja e futebol; com mensagem moral barata e ingênua; filme para se comer, processar internamente e sair do corpo na forma que ele merece. Para apreciadores do bom cinema, destino sombrio para tempo e dinheiro. Existe alguma forma de saber que um filme é pipoca antes de pagar o ingresso? Bem, uma história sobre menininha que sonha ser miss e que, depois de muito sacrifício, vai disputar um concurso chamado Miss Sunshine (algo como "Bela do Amanhecer") é, sem dúvida, candidata.

Pois, ingresso comprado, poltrona escolhida, luzes apagadas e sem o direito de voltar atrás, descobri que o concurso Miss Sunshine tem a ver com um espetáculo perverso. Meninas de nove ou dez anos vestidas como Barbies, Susys, Babuscas, enfileiradas num palco, jogando o jogo: vença ou a orgulhosa mamãe ali na primeira fila puxa o gatilho. A vitória, óbvio, vai para quem se parecer mais com aquele pedaço de plástico que namora o Ken. A expectativa sobre a participação de Olive (Abigail Breslin) é de que ela venha trazer algo diferente, para redimir essa ode à infância perdida. Mas entre querer e fazer há um intervalo, mais ou menos de cento e um minutos chamado Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, EUA, 2006).

Olive, nove anos, cultua misses, moças lindas que, na televisão, brilham muito. A menina é um mar de inocência. Glamouriza o que vê, desconhece as dificuldades do mundo que não vê. O pai a pressiona. Ela deve ser uma vencedora e, portanto, não pode fazer coisas como tomar sorvete, se não fica uma miss gordinha, loirinha do cabelo escorrido, que usa óculos fundo-de-garrafa. Uma forma pouco corajosa de dizer que ela já é tudo isso, menos miss. Mas...

... a jovem anti-beleza padrão tenta. Encara concursos na escola, apoiada por toda a família. Pelo avô carinhoso que bola coreografias, compra revistas de misses e sabe tudo de talco. Pelo pai rigoroso que a ama e quer vê-la como ela própria quer, uma vencedora. Pela mãe amiga. Pelo tio culto e pelo irmão disciplinado.

O olhar de Olive, boiando no mar da inocência, não permite a ela entender certas coisas.

Comecemos pelo adolescente, o Avô (Alan Arkin, oscarizado). Rebelde, estilo bom vivant, e não é bem de talco que gosta de encher o nariz. Olive pensa que ele compra montes de revistas de misses porque elas usam belos vestidos, mas é justamente por não usarem nada.

O irmão Dwayne (Paul Dano) tem quinze anos e é o mais idoso da casa. Rabugento. Fez voto de silêncio para mostrar a disciplina da força aérea americana, seu grande sonho. Comunica-se através de um bloco de notas. Odeia a humanidade, essa coisa podre, e odeia sua família porque ela é fruto do que a humanidade podre faz numa privada de banheiro público. Prefere fingir ler um livro que pôr os olhos em alguém dela, com exceção de Olive.

O tio Frank (excelente Steve Carell) é o suicida homossexual da família. Foi desprezado por quem ama e jurou de morte a si mesmo. Espera só o momento de pegar-se desprevenido. É o maior especialista em Marcel Proust dos EUA, segundo ele mesmo.

Curiosamente, essas são as primeiras características de mundo real que Olive descobre. Ela olha para o tio com cara de quem só não entendeu se suicida homossexual é melhor ou pior do que maior especialista em Marcel Proust. O tio faria tudo por ela. O pai Richard (Greg Kinnear) vive exaltando os vencedores para exorcizar a própria condição de derrotado. Professor inexpressivo, desenvolveu a teoria das nove regras de auto-ajuda, que através de nove passos ajudam a pessoa a se tornar uma vencedora em nove décadas. A impressão é que, se Olive fizer os passos certinhos, ele também a ama. Apenas a mãe Sheryl (Toni Collette, ótima de sempre) parece mesmo mãe. Ama a filha e quer a todo custo lhe dar oportunidades.

No começo, um categórico jantar com todos os envolvidos. O clima é tal que se a sala tivesse sido construída sobre um cemitério, e os mortos levantassem buscando vingança, só alegrariam o ambiente. Os adultos caem uns contra os outros e verdades são ditas na frente de Ólive. Um telefonema, na hora que a mãe explicava achar homossexual suicida pior do que especialista em Marcel Proust, aparece para fazer o papel de Porta da Esperança. Olive foi selecionada para o famoso Concurso de Beleza para meninas "Pequena Miss Sunshine" que acontece todos os anos na Califórnia, novecentos quilômetros da onde estão. Devem chegar lá em dois dias. O pai Richard diz que está só esperando o telefonema do empresário o qual lhe jurou que essa história de vencedores em nove passos com certeza fará sucesso com livros e DVD's. Mas enquanto o telefonema não chegar, a grana que seria investida para pagar avião e estadia dá para alimentar a família mais metade da África durante um ano. Impossível irem. A mãe se impõe e berra que irá de qualquer jeito, se trata da felicidade da filha. O avô berra porque ultimamente só tem comido coxas de frango em conserva. Frank berra em busca do tempo perdido e o garoto mudo berra no bloquinho. No meio disso, Olive corre de um lado pro outro, gritando de alegria. Resultado. Todos irão, mas de kombi, e amarela.

No álbum de fotos dessa parte road movie do filme há: momentos de tensão (a kombi amarela de Olive chegará a tempo?), humor leve (os problemas inesgotáveis da kombi amarela), mais momentos de tensão (estacionar a kombi amarela), humor negro (a forma como o avô a certa altura viaja na kombi amarela), momentos de tensão parte três (sair do estacionamento com a kombi amarela), drama (Dwayne descobre dentro da kombi amarela que é daltônico; quem já desejou ser piloto sabe da porcaria), frustração da frustração (o tio Frank encontra num posto de gasolina o jovem que o abandonou, acompanhado pelo parceiro; a kombi amarela passa a ser sondada como local para suicídio). Conclusão, a kombi amarela não sabia com quem estava lidando quando saiu do asilo. Cena emblemática: ao receberem de um guarda rodoviário a ordem de parar, Richard estaciona e suplica à sua trupe Brancaleone, Por favor, pessoal, ajam como se todo mundo fosse normal.

A avalanche de azares na viagem coloca grande expectativa sobre o desempenho de Olive no concurso. Ela tem de ganhar, poxa vida. Tem de redimir sua família, tão perdedora, tem de redimir a kombi amarela, tão esforçada. Fantástica a atuação da pequena Abigail Breslin. Em pequenos gestos, principalmente com os olhos, e respostas curtas ela demonstra sentir a pressão que carrega nos ombros. Além de enfrentar, não somente um monte de princesas pré-moldadas, mas o conceito moderno de perfeição na beleza. Exigente, meticuloso, que joga meninas de cinco anos para fora da cama de madrugada para iniciar a clonagem da Barbie. Quem olha para Olive indo para o palco enfrentar tais criaturas, torce para abrir um buraco no chão e ela cair no inferno onde as coisas pelo menos piores não seriam.

Pareceu-me que a intenção dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris e do roteirista Michael Arndt era abordar vencedores e perdedores, dando a moral que vencedores são os que tentam, perdedores os que não tentam. Bingo! Pode-se rir dessa pureza, ironizando que para engolir tal ingenuidade, só com um saco grande de pipoca. Fui o primeiro a aderir. Levantei da poltrona e corri para a bombonière. Enfiei a mão no bolso e parei no meio do caminho. Em cinema de shopping, a grana investida num saco de pipoca pequeno, pode alimentar metade da África, quando na promoção. Voltei para minha poltrona a tempo de acompanhar aquela bagunça deliciosa que é o final do filme. De estômago vazio, é verdade, mas muito consciente.

Finalmente um filme-pipoca que me fez pensar.

PS: A kombi amarela foi a grande injustiçada do Oscar.


PEQUENA MISS SUNSHINE (Little Miss Sunshine, EUA, 2006).

Direção: Jonathan Dayton e Valerie Faris.

Elenco: Abigail Breslin, Greg Kinnear, Toni Colette, Alan Arkin, Steve Carell.

COTAÇÃO: *****