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FUTURO
DO PRETÉRITO
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Adriano
de Oliveira
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Desde a premiada obra de Luis Puenzo, "A História
Oficial" (1985), Buenos Aires nunca pareceu tão amarga
- embora por outras razões - quanto em "O Passado"
(2007), novo filme de Hector Babenco. O argentino naturalizado
brasileiro volta às suas origens, lembrando um pouco do
registro lírico de seu "Coração Iluminado" (1998).
Gael García Bernal interpreta Rímini, um tradutor portenho
que está em franco processo de separação de sua mulher
Sofia (Analía Couceyro). Aparentemente tranqüilo nos seus
primeiros tempos, o divórcio nunca se consumará de modo
pleno, pois tal um fantasma de um amor jamais esquecido,
Sofia tornará indefinidamente a cruzar o caminho de Rímini,
o qual tenta reiniciar a vida através de outros relacionamentos.
Desta forma, Babenco - que também co-escreveu o roteiro,
baseado em livro de Alan Pauls - trabalha a questão dos
amores-estilingue, que são como ígneas brasas embaixo
de cinzas aparentemente inofensivas. O cineasta-roteirista
não apenas faz isso: as questões do ciúme, da possessão,
e da incapacidade de se lidar com perdas tomam cena juntamente
ao mote principal, transformando "O Passado" em
algo bem mais entranhado do que parece a um primeiro olhar.
Contribui para essa visão desenvolta de tais temas, a
influência de outros fatores. Como falamos anteriormente,
a cidade bonairense figura com um ar de permanente desgosto,
numa languidez que ganha feições na fotografia extenuada
de Ricardo Della Rosa. A dificuldade de entendimento entre
homens e mulheres recorda ligeiramente os trabalhos do
há pouco falecido Antonioni, e, quando o protagonista
Rímini passa a ter uma estranha amnésia, novo componente
entra em jogo: a temática da memória e da passagem do
tempo vistas do ponto de vista afetivo, leitmotiv das
essenciais obras de Alain Resnais "Hiroshima Meu Amor"
(1959) e "O Ano Passado em Marienbad" (1961). Entretanto
é preciso ressaltar que tal aproximação com o gênio de
Resnais ocorre em um plano tênue, em um flerte com o mesmo
e para não mais além disso.
Babenco impregna uma alma latina à película, o que lhe
traz uma identidade muito própria, falando diretamente
ao seu público. Mas, por sua gênese tópica inerentemente
humana, assume também ela um caráter universal.
Não é o ritmo lento que prejudica a "O Passado".
A irregularidade cênica de Bernal faz com que o filme
oscile, e se a boa Ana Celentano (como Carmen) se mostra
uma coadjuvante capaz de suportar até momentos de baixa
de seu parceiro, a fraca Analía Couceyro quase põe a perder
suas cenas. O saudoso Paulo Autran merecia melhor despedida
das telas em seu último trabalho no cinema, ainda que
a participação dele é suficiente para nos provocar lembranças
afetuosas - e só.
As forças do roteiro, da técnica e da direção é o que
realmente conseguem impelir "O Passado" à frente,
tornando-o uma obra digna de nota.
O PASSADO (El Pasado, Argentina/Brasil,
2007)
Direção: Hector Babenco.
Elenco: Gael García Bernal, Analía Couceyro, Ana
Celentano, Moro Angheleri, Paulo Autran.
COTAÇÃO: *** |
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