UMA MUITO DISCRETA "JANELA INDISCRETA"
Adriano de Oliveira
 
 

É inegável que o filme "Paranóia" seja visto como uma versão moderna e teen para o clássico de Hitchcock "Janela Indiscreta". Mas o abismo que separa um do outro é imenso, mesmo que se leve em conta o terreno das boas intenções.

A premissa que fundamenta a película de D. J. Caruso é a história de um jovem, Kale (Shia LaBeouf, de "Transformers"), que se encontra em prisão domicilar após ter agredido seu professor de Espanhol. Com um dispositivo eletrônico atado à perna, o qual informa a polícia sua localização desde que ele ultrapasse o perímetro do jardim de sua casa, o garoto se restringe a passar o tempo com um rol de atividades que inclui espionar os vizinhos com binóculos e câmera digital a partir da janela de seu quarto. Este seu aparentemente pacato passatempo entretanto ganha rumos policialescos ao desconfiar que um de seus vizinhos, o enigmático Turner (David Morse, de "A Negociação"), seja um serial killer. Com um prólogo razoável e um desenvolvimento que permite uma aceitável caracterização de seus personagens, a trama engrena - se não exigirmos dela - em sua maior parte, porém desanda de forma crassa quando nega tensão e carrega de modo insípido seu ato final, comprometendo o trabalho até então com furos de roteiro e clichês que desnudam uma falta de criatividade dos roteiristas, não bastasse aquela de copiar um clássico.

Portanto, fica difícil considerar eficiente um thriller que não reserva surpresas para o seu andamento e que caminha sob uma sombra tão gigante quanto a de um grande filme de Hitchcock (claro, nem todas as obras dirigidas pelo inglês podem ser chamadas de excelentes: estão aí "Frenesi" e "Marnie", entre outras, para provar isso).

D. J. Caruso é um cineasta sem estilo algum, nada do que gerou até o momento parece digno de aplauso - lembremos do horroroso "Roubando Vidas" e do moderado "Tudo por Dinheiro" -, e "Paranóia" certamente não muda esse quadro. O elenco teen não atua necessariamente mal, porém fica visível o desconforto do veterano Morse em cena; não é de se admirar que consta ele não ter dirigido a palavra em momento algum fora das gravações aos jovens da fita. Em meio a tudo isso, até uma presente referência sutil a "Blow Up" de Antonioni não consegue erguer o filme.

Entretenimento comedido, "Paranóia" causa um suspiro de saudade ao chegarem seus créditos derradeiros. Não pelo atual filme, e sim pela nostalgia que essa "homenagem capenga" evoca: em si um quase anti-exemplo, e também um reflexo de nossos dias de Cinema: se evanesceu a qualidade de antigamente. Temos que conviver com Shia LaBeouf, Sarah Roemer e D. J. Caruso onde antes haviam James Stewart, Grace Kelly e Alfred Hitchcock. Uma máquina do tempo, por favor!

PARANÓIA (Disturbia, 2007)

Direção: D. J. Caruso.

Elenco: Shia LaBeouf, Sarah Roemer, David Morse, Carrie-Anne Moss.

COTAÇÃO: **