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[…] qualquer um que fizer o mínimo
esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como
um ovo de serpente. Através das membranas finas pode-se
distinguir o réptil já perfeitamente formado.
Hans Vergerus
Produzido pelo badalado Dino De Laurentiis (de Noites
de Cabíria (1957), Serpico (1973) e Hannibal
(2001), só pra citar algumas produções de seu currículo),
com colaboração germano-americana, O Ovo da Serpente
(1977), de Ingmar Bergman é a melhor reprodução cinematográfica
da República de Weimar e do surgimento do nazismo na
Alemanha¹.
O cineasta sueco escreveu o roteiro sob meticulosa pesquisa
histórica, e nele, retratou com muita fidelidade os
primeiros passos de uma sociedade que já dividida, desembocaria
nas mãos do nacional-socialismo a partir de 1933. Façamos,
antes, uma breve passagem pelos eventos que construíram
esse tempo histórico.
Com a queda da monarquia na Alemanha após a Primeira
Guerra Mundial, a cidade de Weimar (onde morreu Goethe)
foi escolhida como sede do novo governo, uma República
liberal que precisava guiar em país destruído pela guerra.
Os primeiros anos da República de Weimar são de profunda
crise interna, da qual destacamos alguns eventos:
a) Fracasso industrial, e monumental inflação;
b) Impunidade dos assassinos políticos, que agiam em
larga escala - segundo o historiador alemão Peter Gay,
em seu livro A Cultura de Weimar, o fato de o
novo governo não empreender uma reforma judiciária foi
um dos seus grandes erros;
c) Diversas tentativas de derrubar o governo;
d) A "crise moral" - e muitas outras - causada pela
assinatura do Tratado de Versalhes;
e) A ocupação de Ruhr pela França;
f) O crescimento desenfreado do fanatismo político,
do anti-semitismo e da xenofobia.
Nesse caos social, a moderna centelha cultural condenada
pela monarquia ganhou espaço livre para manifestar-se,
e é então que temos a Bauhaus, A ópera dos três vinténs,
A Montanha Mágica, O Gabinete do Dr. Caligari,
Dr. Mabuse, Nosferatu, Metropolis,
O Anjo Azul, etc. O expressionismo nas artes
deste período representava artisticamente a insegurança
e as diversas crises do país, sendo o medo, o principal
fantasma.
Bergman constrói com impecável riqueza de detalhes o
mundo sangrento, paranoico e instável que era a Alemanha
de 1923, ano em que se passa o seu filme, no período
de 3 a 11 de Novembro, semana do Putsch de Munique.
O Ovo da Serpente é a história de Abel Rosenberg
(David Carradine, em atuação magnífica), um trapezista
judeu que vê o seu mundo desmoronar a partir do suicídio
de seu irmão, e sua vida se resume a lutar pela sobrevivência
ao lado de sua cunhada Manuella (Liv Ullman, como sempre,
fenomenal), uma cantora de cabaré.
Bergman insere em suas características autorais o mundo
que se dispõe representar, e com a fenomenal fotografia
de Sven Nykvist, percorre esses mundos com sua devida
aura, captadas de campos observadores muito representativos.
Um desses mundos é o do espetáculo, e assistimos as
apresentações do cabaré (com Liv Ullman cantando em
alemão) e de um bar jazz em Berlim, com músicos alemães
de caras pintadas de preto.
O anti-semitismo da República de Weimar é visto desde
a segunda cena do filme, quando o delegado de polícia
pergunta a Abel se ele é judeu, e mais adiante o prende
como sendo suspeito de uma série de "assassinatos brutais
e misteriosos". Em outra cena, um grupo de jovens alemães
obrigam dois judeus a lavarem uma calçada com escovas,
atitude ignorada pelo policial que passa e vê a cena,
mas não faz nada. Bergman mostra sem sentimentalismo
como o anti-semitismo se espalhou pela cidade, e o discurso
de justificativa para esse ódio, tão grande quanto o
destinado aos "bolchevistas". Através dos jornais e
das batidas policiais em "estabelecimentos judeus" (o
caso do cabaré onde Manuella trabalha é um exemplo),
é possível identificar como o discurso anti-semita tinha
força, e já nos anos 1920, causava destruição, mesmo
em uma Alemanha cuja forma de governo era uma República.
O desemprego e a fome estão em toda parte na Berlim
dos "loucos anos". A cidade parece uma carcaça por dentro,
encoberta pela arquitetura. Em uma cena chocante, vemos
pessoas cortarem a carne de um cavalo morto para alimentar-se.
Também acompanhamos a constante desvalorização do marco,
até o ponto em que o valor impresso da moeda não importava
mais, e a venda era feita pelo peso que tinha o dinheiro.
A luta pela sobrevivência é a ordem a ser cumprida,
e o medo acompanha as ações vacilantes de uma sociedade
que se decompõe.
A libido se ajusta à histeria e ao desalento.
O ponto-chave e revelador da obra é quando a história
das experiências com seres humanos é esclarecida, em
uma das mais supremas cenas do cinema, onde a maestria
do corte, do enquadramento e da direção podem ser vistas
em seu ápice. Entre pequenos curtas-metragens feitos
durante as "observações", os closes descritivos em um
silencioso David Carradine falam mais do que páginas
e páginas de um roteiro. O profético discurso final
do cientista dá conta do caminho perigoso pelo qual
segue a Alemanha, e ressalta a "passividade" do povo
judeu, que segue como ovelhas para o matadouro (polêmica
também trabalhada por Hannah Arendt).
O desfecho do filme é a triste revelação de um indivíduo
"contaminado" pela virulenta metrópole, que tem a oportunidade
de sair daquele espaço que se decompõe, mas não o consegue,
e se perde entre pedestres e ruas molhadas pela constante
chuva, para nunca mais ser visto.
O realismo com que Bergman nos apresenta a Berlim de
1923 é espantoso. Os figurinos de Charlotte Fleming
também merecem destaque, pela adequação dramática e
imagética perfeitas.
Em O Ovo da Serpente, Bergman empreende uma obra
dotada de forte senso crítico-social e de uma exposição
memorável da história. Com profunda força imagética,
o diretor consegue construir uma sociedade que vivia
sob o medo, e denuncia os "motivos pelos quais" o futuro
tenebroso falaria por si.
Até mesmo a posição de alemães antinazistas é abordada,
e a descrença em Hitler, por ocasião do Putsch de Munique,
é verbalizada em cena simbólica.
O Ovo da Serpente é um supremo exercício cinematográfico,
com atuações irreparáveis - inclusive do elenco de apoio
- e com a louvável direção de Ingmar Bergman, que usou
de seu profundo conhecimento da alma humana para transformar
em celuloide o sentimento de uma época, fazendo-o de
forma única e magnífica.
(1) Rainer Werner Fassbinder também
nos legou uma notável contribuição sobre o tema, em
sua série para a TV, Berlin Alexanderplatz (1980),
onde percorre o período com profundidade amarga através
de suas personagens não menos atormentadas que o mundo
onde viviam.
O OVO DA SERPENTE (Das Schlangenei, EUA/Alemanha
Ocidental, 1977)
Direção: Ingmar Bergman.
Elenco principal: David Carradine, Liv Ullmann,
Heinz Bennent, Gert Fröbe, Edith Heerdegen.
Cotação: *****
Este artigo é parte do Ciclo
Bergman no Cine Revista.
*Artigo originalmente postado no blog
"Cinebulição" (http://www.cinebuli.blogspot.com)
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