OS ANIMAIS
ME DISTRAEM**
Isabella Rossellini esbanja
inventividade e humor em seu média-metragem Os
Animais me Distraem (2011), filme em que
a atriz e diretora assume
sua paixão quase neurótica por bichos. Um caráter
multimídia emana do filme, que é composto por animações,
arquivo de fotos, filmes em Super 8 e 16mm, descoloração, e um delicioso humor fantástico.
O roteiro mixa o evolucionismo
darwinista aos depoimentos da atriz-diretora, suas
visitas a amigos e lugares, suas confissões e demonstrações
engajadas como defensora dos animais. À primeira vista,
não parece um filme muito interessante de se ver,
e dificilmente eu o escolheria dentre os que estão
na 35ª Mostra SP, não estivesse ele em uma sessão
dupla com o documentário A Viagem Maravilhosa. Mas
desde o início do filme, é impossível não deixar de
lado o pré-conceito sobre o tema e regozijar com o
que vemos na tela.
A diretora caminha por diversos
modos de abordagem, passando do núcleo familiar individual
para um núcleo composto pelos filhos, depois pelos
bichos, pela aparição de Darwin em uma TV, pela conversa travada
entre eles.
Junto ao tema central, a denúncia
aos maus tratos dados aos animais é um dos pontos
que fazem desse filme uma joia rara, porque não se
fixa apenas no humor espirituoso, mas parte para o
impulso à mente do espectador. No fim das contas,
somos apresentados como seres diminutos num universo
de outros seres vivos, e se vemos grandeza no universo,
decerto, partilhamos dela ao lado de suas criaturas,
sejam elas um peixe, um gato, um rato, um cão.
Os Animais me Distraem é um filme muitíssimo bem dirigido, editado
e escrito. É realmente louvável o trabalho realizado
por Isabella Rossellini neste média-metragem.
Me lembrou um pouco a personificação
dos objetos tão cara a Agnès Varda. E
a comparação é legítima.
Embora
esse não seja o primeiro filme dirigido por Rossellini,
parece-me que ela, enfim, encontrou o seu caminho
na direção. A prova é esse filme maravilhoso.
OS ANIMAIS ME DISTRAEM (Animals
Distract Me, EUA, 2011).
Direção: Isabella
Rossellini.
Elenco: Isabella
Rossellini, Campbell Scott, Mario Batali, Fabrizio
Ferreri, André Leon Talley, Grant Schaffer, Ona Grandey.
Cotação: *****
OS GIGANTES**
Por mais que um filme
seja belo, bem dirigido e atuado, quando não há verossimilhança
no roteiro, a percepção do espectador é agredida,
e muito raramente a película será bem aceita. Nesse
ponto, é necessário dizermos que a verossimilhança
é um ingrediente essencial para qualquer enredo ou
roteiro, excetuando-se os filmes surreais, fantásticos, sci-fi e
experimentais, que já trazem, em sua categoria, a
característica do inusitado, do não-real, do impossível.
O que acontece em Os Gigantes (2011),
é um bom exemplo de um filme que tinha tudo para dar
certo, mas que se perde em meio à anárquica formação
da história. O filme narra as
aventuras de três adolescentes que se encontram nas
férias de verão, e dividem muitas experiências juntos.
Podemos dizer que é um “filmes
de ação europeu para adolescentes”. Mas essa classificação
seria reducionista e incompleta, porque Os
Gigantes, apesar de sua fraca organização dramática,
é um filme instigante e que contém vários níveis de
interpretação.
Dentre os elementos técnicos,
destacaremos em primeiro lugar a fotografia de Jean-Paul
de Zaetijd, fotógrafo que já havia trabalhado com
o diretor Bouli Lanners anteriormente, e que volta,
agora, imergindo os planos de Os Gigantes em
um “mar verde”. O tempo inteiro,
podemos ver a ligação da natureza com os três
garotos protagonistas. A abertura do filme já nos
apresenta planos sobre um campo ao vento, e no decorrer
da película, a natureza se apresenta quase como um
habitat para esses meninos. É como se eles, na categoria
metafórica (talvez irônica) de “gigantes”, fossem
seres das florestas, do meio selvagem. Com o tempo,
percebemos que o comportamento quase animal dos meninos
nos permite afirmar isso: sujam-se o tempo inteiro,
estão sempre em trânsito pela mata, pelo rio, etc.
O final do filme é a coroação exata dessa colocação
simbólica: os animais migram, mas não sabem, exatamente,
para onde.
Se o roteiro a três mãos não
é bom, e nem dá o destino e as explicações necessárias
para o filme, a direção, as atuações, a música e a
fotografia superam muito essa deficiência. Os
Gigantes é um filme incrível de se ver. A
descoberta (ou indicações sutis) da sexualidade, do
vício, do abandono familiar e da amizade são marcas
deixadas pelos garotos que nos emocionam plenamente.
Lamenta-se ver tudo isso jogado em uma enxurrada de
impossibilidades que é o roteiro desta obra.
OS GIGANTES (Les
Géants, Bélgica, França, Luxemburgo, 2011).
Direção: Bouli
Lanners.
Elenco: Zacharie
Chasseriaud, Martin Nissen, Paul Bartel, Karim Leklou,
Didier Toupy, Marthe Keller.
Cotação: ***
** Filme visto na 35ª Mostra Internacional
de Cinema em
São Paulo